A “descentralização” como estratégia de privatização do Ensino Público

A proposta do governo que visa “descentralizar” recursos e competências do Sistema de Ensino público, entregando às autarquias “tudo menos professores e escolas da Parque Escolar” (DN), é algo extremamente preocupante e muito mais grave do que a polémica e aparentemente extinta questão dos contratos de associação.

Desde logo porque falta às autarquias a habilitação técnica, operacional, estrutural e democrática para assumir este nível de responsabilidade, e está colocada em causa a qualidade da Escola Pública, a sua gestão democrática, transparente e plural e, por essa via, o futuro do próprio país. O escrutínio da actividade autárquica, lugar privilegiado para o alastramento da corrupção, da opacidade e das redes de tráfico de influências, é extremamente difícil e limitado, sendo frequentes os casos de total impunidade ante comportamentos contrários à democracia, à “ética republicana” e, por vezes, à própria lei .

Finalmente, porque o verdadeiro objectivo desta proposta do governo é que os recursos e as competências “descentralizadas” vão parar às mãos das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) que gravitam em torno de algumas Câmaras Municipais e dependem, em grande medida, não só dos orçamentos municipais, mas do poder de influência que detêm junto dos aparelhos partidários locais e dos próprios executivos camarários.

Ou seja, sob o disfarce de uma pretensa “descentralização” de recursos e competências, assiste-se, na verdade, à privatização do Sistema Público de Ensino.

Obrigado Sport Lisboa e Benfica

O ódio e a ganância não têm religião

Jeremy Joseph Christian é um supremacista branco, presença assídua em comícios da extrema-direita norte-americana e assumidamente católico, que ontem esfaqueou três pessoas em Portland, sendo que duas delas acabariam por morrer. Se fosse muçulmano, independentemente das motivações por trás da barbárie, o foco estaria na sua religião. Como é católico, praticamente nenhum meio de comunicação faz menção à sua religião, optando por descrever o monstro como um neonazi racista e anti-semita. [Read more…]

Ouvidos e esquecidos

(aviso: isto parece, mas não é sobre futebol)
Passa hoje o 30º aniversário da vitória do F C Porto na Taça dos Campeões Europeus. As televisões e os meus amigos portistas narram de muitos modos esta efeméride. Reportagens, memórias, festejos, palavras de exaltação clubista e portista. Tudo isto se compreende. Mas, mais uma vez – com excepção das vozes dos jogadores do tempo ouvidos – a figura de Artur Jorge parece esfumar-se. Era interessante percebermos porquê. É que há muito penso que, a dar um exemplo de desportista profissional, escolheria, entre muito poucos, Artur Jorge. Então por que razão este país que tão depressa incensa gente da bola como se fossem exemplos de excelência nacional e vértice da magnificência humana, esquece tal figura? É que os atributos do Artur Jorge estão nos antípodas do perfil que a imprensa e a opinião publicada “desportivas” sacralizam. Quer dizer: as qualidades de um dos maiores jogadores e treinadores da história do desporto português são exactamente o que o desqualifica para ser ídolo nacional-futebolista.
Artur pertenceu à última geração do futebol da Académica antes do cilindro da hiper-profissionalização alterar completamente as condições do desporto, sobretudo do futebol, e transferiu-se para o Benfica perante uma proposta irrecusável. Todavia, apesar do cepticismo dos seus amigos, ia decidido a completar a sua licenciatura em Filologia Germânica. Sei disto porque, involuntariamente, assisti à conversa – não ia deixar ia bife a meio, não é? – entre Artur Jorge e Toni sobre o tema, ao balcão do Tropical; com as dúvidas, as importâncias em causa, as condições oferecidas. Sobre tudo isto guardarei silêncio, como é óbvio, mas compreendo o que o levou a decidir como decidiu. [Read more…]