O pó da fivela


©Guy Denning

Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.

Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.

É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.

Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.

– Não, obrigado. Só uso lenços Poker.

Ora, a última pessoa a quem eu tinha visto usar lenços Poker foi o meu pai, que perdeu dúzias de lenços em anos de espera pelo autocarro. O meu pai chegava à paragem habitual, tirava o seu lenço do bolso, estendia-o sobre o muro baixo, sentava-se sobre ele para não sujar as calças, puxava do jornal e imediatamente se esquecia do lenço e mesmo do autocarro, pelo menos até vê-lo deter-se, de porta aberta, à sua frente. Era só na terceira ou quarta paragem seguintes que se lembrava do lenço que ficara sobre o muro. No dia seguinte, o lenço já não estava lá. Nunca estava lá. Julgo que houve uma bem oleada rede de venda de lenços Poker em segunda mão inteiramente financiada pelo meu pai.

Pois aquele poeta literalmente ranhoso, sempre aos caídos, pedinchão, que apenas tolerava, para o seu arrogante nariz pingoso, os já vetustos lenços de algodão marca Poker, agradou-me logo. Ouvi o poema, contribuí para a escrita do próximo, e da vez seguinte que passei lá no pouso dele levei-lhe um pacotinho de Poker que encontrei numa retrosaria moribunda da Barão de S. Cosme. Abriu a embalagem, revirou o pacote entre os dedos. Não ficou satisfeito.

– Só seis? Podia ser uma dúzia.

Nesse dia estava também a Véronique, a francesa, que num momento de debilidade havia aceitado traduzir-lhe um poema e assim se tinha convertido na maior – e única – esperança do Tomé para a internacionalização da sua obra. Pobre Véronique, nunca soube dizer non. E por isso está a meio, sempre a meio, da tradução de uma obra que o Tomé continua a reescrever porque é a primeira que será traduzida e é a que lhe abrirá as portas da fama internacional.

Porque o Tomé não tem dúvidas de que virá a ser um poeta célebre, ainda que seja postumamente. Quando lhe perguntamos pelos autores preferidos, diz-nos mal de todos excepto daquele a quem chama Mestre, cujo nome nunca revelou, mas de quem diz não ser digno de sacudir o pó da fivela da sandália. Dos que dizem que o Mestre não existe, ri-se com um riso amargo e chama-lhes néscios.

Às vezes, o Tomé bebe de mais, fica irascível, leva um soco de um forasteiro que não está para aturá-lo, ou cai na rua e vai na ambulância do INEM. Volta passado uns dias com passos mais arrastados e conta que esteve num retiro poético.

Soube hoje que o Tomé anda desaparecido há mais tempo do que o costume e que alguns dos que habitualmente o evitavam estão agora à sua procura. Não é por sentirem a consciência pesada nem têm motivos para isso. É só porque há pessoas que são muito maiores do que parecem, mas claro que isso só se aprende quando elas deixam de estar.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

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