O Sam Shepard era o maior


-— Ecco l’America — disse il signor Melfa.

— Leonardo Sciascia, “Il lungo viaggio

… down to Tucumcari, picking up 40 West, paralleling the fabled and long-abandoned Route 66—the highway he grew up on. The highway that shaped his youth.

— Sam Shepard, “Williams, Arizona (Highway 40 West)

On the sixth take, I burst in the door; discover the corpse; pause for a second; cross to the radio; pause again; then I smash the radio to the floor with my fist. I just cold-cock the sonofabitch.

— Sam Shepard, “Winging It” (*1)

There is a little handmade cardboard sign hanging over the steaming chicken wings that reads: LIFE IS WHAT’S HAPPENING TO YOU WHILE YOU’RE MAKING PLANS FOR SOMETHING ELSE.

— Sam Shepard, “Living the Sign” (*2)

***

A decisão sobre o aspecto deste texto começou a ganhar forma durante a semana passada, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda.

Dois dias antes, ao chegar ao hotel, ligara o telemóvel e respondera ao Dario: estava sem condições técnicas para escrever e publicar sobre Passchendaele, ele que tratasse disso. De repente, algures nas notificações, a notícia do Público. Dois dias antes, ligado ao Feicebuque, precipitara-me e prometera um texto para o fim-de-semana. Dois dias antes de este texto começar a ganhar forma, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda. Acabou por ser adiado para terça-feira. Exactamente: para hoje. There were more urgent emergencies than mine (*3), citando o Shepard.

© Bruce Weber (http://bit.ly/2wyXcia) Sam Shepard with his Hermes typewriter, in New York City

Para o Shepard, tudo começou aos 19 anos em NYC. Para mim, começou também mais ou menos por essa idade, na mesma latitude, mais coisa menos coisa, mas num consultório médico, no Porto, mais concretamente, na rua Arquitecto Marques da Silva.

— Boa tarde, consultório médico. Com certeza, dê-me só um minutinho — disse a Fernanda, que conhece a minha familia desde que o Dr. Mena Matos tratou a minha bisavó — Sim, sim, só um bocadinho, não desligue — virando-se para mim — Miguel, hoje, o senhor doutor tem muitos doentes e isto é capaz de demorar. Se calhar, em vez de ficar aqui a apanhar seca, ia ali abaixo, tomava um cafezinho…

Segui o conselho da Fernanda e de bom grado prescindi da ¡Hola! e da Nova Gente da sala de espera (felizmente, não havia televisor). Desci as escadas, flecti moderadamente para a esquerda, um bom hábito que mantenho, e, em vez de ir ao quiosque do Convívio, enfiei-me no Cidade do Porto, no -1, onde havia uma loja de discos. Na minúscula livraria da loja, encontrei um livrinho, com capa azul-mar-da-Sardenha: Crónicas Americanas, de Sam Shepard, tradução de José Vieira de Lima.

— Para matar os minutos até à consulta, deve chegar — pensei.

Fui ao Convívio, mas não me sentei ao balcão para duas de letra ocasionais com o Ângelo (na altura, nem sei se o Ângelo por lá andava e se andava eu ainda não o conhecia), nem sequer pedi uma francesinha e um príncipe, como agora faço quando lá vou, duas ou três vezes por ano. Fiquei do lado esquerdo, para quem entra, arrastei uma cadeira com vista para a sempiterna morrinha, pedi um refresco (anos antes, o Dr. Mena Matos proibira-me de beber Coca-Cola)

— Sabes, tenho lá em casa umas garrafas disso, para desentupir a canalização. Deixa de beber essa porcaria e as cólicas passam-te.

(Deixei. Passaram.)

e é provável que também tenha pedido um rissol. Provavelmente, de carne. Lida a contracapa e as badanas, ataquei as Crónicas. Quando decidi subir as escadas e regressar à sala de espera, já longe, muito longe, tinham ido as gengivas a sangrar do pequeno Shepard.

A voz da Fernanda ecoou no vazio da sala

— Francisco Miguel!

Levantei-me e percorri o pequeno corredor escuro, a pensar nos dentes perfeitos do Burt Lancaster no Vera Cruz que o Shepard afinal não tinha, I’d forgotten how bad my teeth were (*4), e no conteúdo daquela mala, com um mapa do Utah, a Fernanda deu duas pancadas secas na porta do gabinete, esta abriu-se e o Dr. Mena Matos recebeu-me com um aperto de mão firme

—Então, como estás? A tua mãe? Óptimo. Sim, senhor. Sim, senhorEntra, entra. Ora, vamos lá auscultar-te. 

Redigida a receita, naquela caligrafia cuidadosamente inclinada e terrível, fielmente depositados os cumprimentos e acabada a consulta, desci a escadaria, fui à rotunda da Boavista e, perto da recolha dos eléctricos (a actual Casa da Música), apanhei um autocarro articulado para casa, acabei as Crónicas e terminei o dia a fazer aquilo que se faz quando um livro nos agarra: a tomar notas. Muitas notas.

via Richard T. Kelly (http://bit.ly/2uy7v4I)

Durante os anos seguintes, depois destas Crónicas iniciais, houve as peças – lembro-me de uma agradável tarde na Biblioteca de Gaia (ali para os lados do liceu) com o True West, na tradução O Verdadeiro Oeste do António Feio (ainda por lá anda) e – já durante os anos da licenciatura – os filmes, através dos quais percebi a importância da figura do actor e a honestidade e a sintonia entre o discurso autobiográfico e a imagem cultivada: Dossier Pelicano (Miss Shaw, you take my breath away)Coração de Trovão (– Turn your head to the right for a second. In the right light, with your head turned you kind of remind me of Sal Mineo in Arrows on the Prairie. Did you ever see that one? Other than that, your coming here is like piss in the wind. So drop the questions. Stick to the assignment. Want a smoke? – I don’t smoke. – Good. That’s good. Those things will kill you) ou Os Eleitos (– Honey, you ever been caught on the desert alone? -I never have. I don’t think I ever will. Never met the man who could catch me out there. – I’m half jackrabbit. – Forget it, flyboy. You’d never catch me. – I believe I will. – Can’t be done. – Could I ask you something? – Forget it, sweetie. She’s his wife).

O momento da consciência da importância do actor coincide com o aparecimento na minha vida do Atravessando o Paraíso, ao chegar ao Winging It e ao Homo Faber, lido muitos anos mais tarde, no período em que vivi na Alemanha (2005-2008). Um dia, ao falar entre gente boa e amiga sobre o Atravessando, desabafei que estava farto de traduções e pequenos trechos originais disponíveis em linha, nada perdido, era certo, tudo aproveitado para a redacção de futuras notas para aulas de Tradução (à conta disso, a primeira dissertação de Mestrado que li foi esta). E da costa atlântica (inevitavelmente) dos EUA veio o Cruising Paradise, para minha felicidade. Comprei um mapa das estradas dos EUA (USA), fui buscar as Crónicas (só compraria as Motel Chronicles, anos mais tarde, na City Lights, comme il faut), peguei no Atravessando (nessa altura, já Cruising) e comecei a procurar e a apontar destinos pouco habituais para estrangeiros que sonham acordados com a America como Winnemucca, Nevada; Jackson, Wyoming; Fredericksburg, Texas; Kadoka, South Dakota; Lexington, Kentucky; Tucson, Arizona.

Shepard in Wim Wenders’ road movie Don’t Come Knocking (2005), which the pair co-wrote. Photograph: Allstar/Sony Pictures/Sportsphoto Ltd (http://bit.ly/2hAGCM7)

Faltava a aula prática. Em 2006, eu e a Sofia, num voo Bruxelas-Chicago. Objectivo? Aquela que descobríramos, dois anos antes, ser uma obsessão mútua: de carro, Route 66, it winds from Chicago to L.A. Durante as duas semanas anteriores ao voo, a Sofia levou com uma bateria de mini-palestras sobre o mapa e as notas e aquilo que de importante se tinha passado no mundo do Shepard naquele contexto exacto. Além disso, porque (apesar de tudo) nem só de Shepard vive uma pessoa, vimos ou revimos uma quantidade apreciável de road movies (uns melhores, outros piores) da segunda metade do século XX: os 1 e 2 da trilogia film noir do Dahl; o Kalifornia; o  Coração Selvagem; o Easy Rider;  o Bagdad Cafe e até mesmo esse grande clássico da Route 66: o Terror na Auto-Estrada (sobre este último, qualquer dia, durante um almoço entre aventadores, contarei a história de como acabámos por conhecer os donos deste local).

Chegados a Chicago e alugado o Dodge Stratus, fizemo-nos à estrada, para cumprir à risca (literalmente, by the book) toda a Route 66.

The Jericho Gap, TX, 10 de Agosto de 2006

Não vou fazer o relato da nossa viagem: foi um mês inteiro e, além disso, este texto não é sobre nós: é sobre o Shepard e, mesmo assim, em versão extremamente reduzida. Assim sendo, além das excelentes pessoas que fomos encontrando pelo caminho — algumas entretanto já falecidas, como o fabuloso Robert Waldmire (maravilhoso artista, também célebre devido à personagem dedicada pelos autores do Carros: o Filmore é a carrinha dele)que conhecemos  à porta do Joseph’s Bar & Grill, em Santa Rosa, no Novo México, perto do rio Pecos, aquele da ponte de comboio das Vinhas da Ira—; além das visitas clássicas, além dos desvios habituais, fizemos algumas visitas literalmente extraordinárias e houve desvios fora do comum.

Muitos destes desvios e visitas graças ao Shepard, como, por exemplo, (1) já que Paris é mais ou menos aqui ao lado, sim 200 milhas, tomamos o pequeno almoço numa Waffle House em Tulsa e seguimos para Paris, Texas, sim, Texas, neste ano de 2006, Proud Home of President George W. Bush, como lemos à entrada do estado, vindos do Oklahoma, de facto, só aparece aqui e, efectivamente, estava um grande vendaval em Paris;

Paris, TX, 6 de Agosto de 2006

(2) ou entre Santa Fé e Albuquerque, a chegada a Bernalillo, a cidade que talvez mais tenha influenciado a obra do Shepard, a cidade onde o pai do Shepard morreu, She told me that she’d just had a phone call from a man called Esteban and that my father had been found dead in the little town of Bernalillo. Not actually found dead, because he’d died in the ambulance on the way to Albuquerque and lived long enough to identify himself; but dead in any case. Run over by a car (*6), escreveu o Shepard no CruisingBernalillo In the summer of 1984, my father was killed in a small New Mexican town where the wide dusty streets are sunk three feet below modern sidewalk level, escreveria o Shepard , mais tarde, no Days Out Of Days, aliás, uma referência transversal , como vemos no Dad, I thought you were in Bernalillo, do Vince no Buried Child; ou então o excelente e mais recente The Late Henry Moss; ou experimentar fisgas em Thoreau, às portas de Gallup, They lost the Navajo radio station about sixty miles east of Gallup on Highway 40 (*7), escreveu o Shepard (provavelmente foi em Grants, perto de Acoma, mas ‘about’ tem muito que se lhe diga: curiosamente, entre Grants e Thoreau, temos uma das partes mais bonitas da 66);

Thoreau, NM, 13 de Agosto de 2006

(4) além de ir ao Zabriskie Point, com a traceable influence on Shepard’s Operation Sidewinder;

Zabriskie Point, CA, 18 de Agosto de 2006

(5) contudo, past Azusa, past Duarte, como escrito pelo Shepard (de repente, lembrei-me do Bolan e dos Bauhaus e do Telegram Sam — já agora, apesar quer de ter estado em Albuquerque, NM, quer do nosso Afonso, este Albuquerque aparece-me sempre, sempre, sempre: siga), we did not take a cold shower at the Best Western Motel in Arcadia, right across from the race track (*8); ficámos em Pasadena. Gosto imenso de Pasadena.

Terminada a Route 66 e percorridas cerca de 400 milhas da US 101, o último episódio do nosso trajecto, antes do regresso a Bruxelas: São Francisco. Em frente à City Lights, onde vi o grande, o enorme Ferlinghetti (curiosamente, o editor das Crónicas), entrámos no Tosca Cafe e expliquei à Sofia que o argumento do Paris, Texas fora escrito ali. Sentámo-nos ao balcão e perguntei ao empregado: há por aqui uma mesa de bilhar? Não, não havia nada disso.

— A sério? Está a ver esta fotografia?…

Sam Shepard at the «Tosca’s» pub in San Francisco where he wrote the screenplay of Paris, Texas (photo W.W.) [http://bit.ly/2vBTN50]

… foi tirada aqui.

— Ah! OK. Pois, na sala lá atrás, mas não abrimos a sala ao público.

— Portanto, há por aqui uma mesa de bilhar.

— Sim, mas…

— … uma Budweiser, sff.

NEW YORK, NY – AUGUST 02: Broadway dims the lights in memory of Sam Shepard at The Music Box Theatre and the Imperial Theatre on August 2, 2017 in New York City. Shepard passed away at his home in Kentucky on July 27, 2017 at the age of 73. (Photo by Walter McBride/Getty Images) (http://gtty.im/2uyq0FT)

O fascínio continua, desde

It seemed unreal that ordinary life was being lived all around us in the streets. People waiting for buses. People beginning their day, lunch pails in hand, newspapers tucked under their arms. We were contained in a separate world. Cut off. Locked into each other and the one who rode ahead of us (*8)

Ainda há tempos, tive a oportunidade de escrever uma dissertação sobre os contos do Shepard. Demasiado tarde: a Linguística ganhou, há muito, muito tempo, embora haja material suficiente para outras abordagens, como este excerto e respectiva tradução, que utilizei em Linguística Comparada, há cerca de 15 anos:

Lowell was squinting through a miniature pair of camouflage-green binoculars, the kind you’d buy in an army-surplus store, slowly scanning the horizon from left to right.

e

Lowell espreitava, de olhos semicerrados, através de um pequeno par de binóculos verde camuflado, o tipo de binóculos que se costuma comprar nas lojas de sobras da tropa, esquadrinhando lentamente o horizonte de uma ponta à outra (trad. JVL)

Se algum dia me der para escrever sobre a nossa Route 66, com um capítulo dedicado ao Shepard (há livros em Aveiras e apontamentos em Bruxelas, apontamentos em Aveiras e livros em Bruxelas, por isso, há-de demorar imenso tempo até que apontamentos e livros convirjam), baseado neste pequeno apontador, será alguma coisa parecida com uma collection of short stuff (Hawk Moon, Motel Chronicles, Cruising Paradise, Great Dream of Heaven, Days Out of Days), será fatal, obrigatória e necessariamente uma espécie de shepardada, haverá acrescentos, reinvenções à medida que se vai passando a limpo (como disse o Shepard no recente Shepard & Dark), com tangentes amiúde mais interessantes do que as notas, pode ser que calhe uma loboantunada. No pior dos casos, em vez de shepardada, uma charopada. Hoje, não. Talvez depois dos Nirvana. Um dia.

20170808_101436

20170808_102250

Aveiras de Baixo, 8 de Agosto de 2017

Nótulas: Não sei onde pus o Day Out of Days e há duas colectâneas enfiadas em caixotes, certamente.. Quando todo este acervo for encontrado, actualizarei as fotografias. Mas não há pressa, I never have to be anywhere suddenly (*9), escreveu o Shepard. Não sei se há tradução em português do Day Out of Days e há traduções consagradas das citações dos filmes. Por esse motivo, para já, neste texto, ficam por traduzir. Acerca das traduções de José Vieira de Lima (JVL) e de Margarida Periquito (MP), repito o que escrevi há tempos: não critico traduções na praça pública.

Vejamos então as traduções: (*1) No sexto take, irrompo por aquilo adentro; descubro o cadáver; paro por um segundo; vou direito ao rádio; paro de novo; depois dou um murro no rádio, que se desfaz no chão. Arrumo com o filho da puta de uma vez por todas (trad. JVL); (*2) Há um pequeno letreiro de cartão feito à mão pendurado por cima das asas de galinha fumegantes, onde se lê: A VIDA É O QUE TE ESTÁ A ACONTECER ENQUANTO ESTÁS A FAZER PLANOS PARA OUTRA COISA QUALQUER (trad. MP); (*3) Havia emergências mais urgentes do que a minha (trad. JVL); (*4) Tinha-me esquecido de que tinha uns dentes horríveis (trad. JVL); ( *5) Ela disse-me que tinha acabado de receber uma chamada de um homem chamado Esteban e que o meu pai fora encontrado morto na pequena cidade de Bernalillo. Não propriamente encontrado morto, porque tinha morrido na ambulância a caminho de Albuquerque e vivera ainda o tempo suficiente para se identificar; mas morto estava, em todo o caso. Atropelado por um carro (trad. JVL); (*6) Deixaram de ouvir a emissora Navajo, cerca de sessenta milhas a leste de Gallup, na auto-estrada 40; (*7) Passei por Azusa, depois por Duarte. Tomei um duche frio no Best Western Motel, em Arcadia, mesmo junto à auto-estrada; (*8) Parecia irreal que a vida de todos os dias continuasse a ser vivida, à nossa volta, nas ruas. Gente à espera de autocarros. Gente que comecava o seu dia, segurando nas marmitas com o almoço, com os jornais dobrados debaixo do braço. Nos pertencíamos a um mundo separado. Desligado. Marginal. Um mundo fechado dentro de cada um de nós e daquela que seguia na ambulância à nossa frente (trad. JVL); (*9) Eu nunca tenho de estar em sítio nenhum subitamente (trad. JVL).

***

Comments

  1. Joaquim Marques says:

    Eu era contra o Maduro da Venezuela, mas desde que o Maradona disse o que disse eu já sou a favor do Maduro.
    Viva o Maradona.

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