A Barbara Mandrell e o Acordo Ortográfico de 1990

THE OLD MAN: I am actually married to Barbara Mandrell in my mind. Can you understand that?

EDDIE: Sure.

THE OLD MAN: Good. I’m glad we have an understanding.

— Sam Shepard, “Fool for Love

***

Poderíamos reproduzir (ou adaptar) esta conversa entre o Eddie (o Sam Shepard deixou-nos há poucas semanas) e o The Old Man (o Harry Dean Stanton deixou-nos hoje, soube há pouco pelo nosso António Fernando Nabais), com o AO90 a servir de Barbara Mandrell (coitada da Mandrell), da seguinte forma:

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS NOVE DA RTP: Eu escrevo segundo o AO90. Percebe?

UMA PESSOA QUALQUER QUE TENHA LIDO E PERCEBIDO O AO90: Claro!

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS 9 DA RTP: Ainda bem que estamos de acordo.

Para banda sonora, se não houver L’idiot, se não houver City of New Orleans e se não houver os meus dilectos Ao Soldado Desconfiado ou The Phoenix, então pode ser o Comboio  ou então o Noutro Lugar. Não escolham o Depois de ti, mais nada, sff. Obrigado. Adaptações?  Start Me Up é fixe, mas prefiro Love Removal Machine.

Agora, vamos àquilo que interessa:

 

Há uma grafia rasca em Portugal

Quem te não viu anda cego

Zeca Afonso

DOC: Symptoms, ma’am, symptoms.

SALEM: Symptoms!

SONNY: Things that show on the outside what the inside might be up to.

— Sam Shepard, “La Turista

O penalty é penalty.

— Rodolfo Reis. 27/8/2017

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Durante as férias, depois dos arredores de Putzu Idu, algures em Portugal, porque era efectivamente sábado e se calhar havia vento de Gibraltar,

Algures em Portugal, Agosto de 2017

apareceu-me este texto de Vítor Serpa, director do jornal da irresponsável resistência silenciosa.

En passant, acho deliciosa a avaliação “excelente”,

feita pelo director do jornal A Bola, de um trabalho “apresentado com rigor”, [Read more…]

O Sam Shepard era o maior

-— Ecco l’America — disse il signor Melfa.

— Leonardo Sciascia, “Il lungo viaggio

… down to Tucumcari, picking up 40 West, paralleling the fabled and long-abandoned Route 66—the highway he grew up on. The highway that shaped his youth.

— Sam Shepard, “Williams, Arizona (Highway 40 West)

On the sixth take, I burst in the door; discover the corpse; pause for a second; cross to the radio; pause again; then I smash the radio to the floor with my fist. I just cold-cock the sonofabitch.

— Sam Shepard, “Winging It” (*1)

There is a little handmade cardboard sign hanging over the steaming chicken wings that reads: LIFE IS WHAT’S HAPPENING TO YOU WHILE YOU’RE MAKING PLANS FOR SOMETHING ELSE.

— Sam Shepard, “Living the Sign” (*2)

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A decisão sobre o aspecto deste texto começou a ganhar forma durante a semana passada, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda.

Dois dias antes, ao chegar ao hotel, ligara o telemóvel e respondera ao Dario: estava sem condições técnicas para escrever e publicar sobre Passchendaele, ele que tratasse disso. De repente, algures nas notificações, a notícia do Público. Dois dias antes, ligado ao Feicebuque, precipitara-me e prometera um texto para o fim-de-semana. Dois dias antes de este texto começar a ganhar forma, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda. Acabou por ser adiado para terça-feira. Exactamente: para hoje. There were more urgent emergencies than mine (*3), citando o Shepard.

© Bruce Weber (http://bit.ly/2wyXcia) Sam Shepard with his Hermes typewriter, in New York City

Para o Shepard, tudo começou aos 19 anos em NYC. Para mim, começou também mais ou menos por essa idade, na mesma latitude, mais coisa menos coisa, mas num consultório médico, no Porto, mais concretamente, na rua Arquitecto Marques da Silva.

— Boa tarde, consultório médico. Com certeza, dê-me só um minutinho — disse a Fernanda, que conhece a minha familia desde que o Dr. Mena Matos tratou a minha bisavó — Sim, sim, só um bocadinho, não desligue — virando-se para mim — Miguel, hoje, o senhor doutor tem muitos doentes e isto é capaz de demorar. Se calhar, em vez de ficar aqui a apanhar seca, ia ali abaixo, tomava um cafezinho… [Read more…]

Contra o Orçamento do Estado para 2017

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© Rui Gaudêncio (http://bit.ly/2dhUUdi)

Well I keep seeing this stuff and it just comes a-rolling in
And you know it blows right through me like a ball and chain

— Robert Allen Zimmerman, “Brownsville Girl

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Eis um Governo que sorri e encolhe os ombros, enquanto “aguarda serenamente“, mas depois é apanhado a entregar documentos de duvidosa qualidade técnica. Aliás, na senda daquilo que aconteceu com o OE2012, o OE2013, o OE2014, o OE2015 e o OE2016.

Antes de passarmos ao Relatório do Orçamento do Estado de 2017, debrucemo-nos muito rapidamente sobre exemplos da Proposta de Lei: [Read more…]

Se os fatos novos forem de molde a excluir o candidato

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Photo: Alamy (http://bit.ly/1X7qfUl)

HALIE. Language! I won’t have that language in my house! Father I’m—

— Sam Shepard, “Buried Child”

STANLEY: In Laurel, huh? Oh, yeah. Yeah, in Laurel, that’s right. Not in my territory. Liquor goes fast in hot weather.

— Tennessee Williams, “A Streetcar Named Desire”

CORA–(teasingly) My, Harry! Such language!

— Eugene O’Neill, “The Iceman Cometh”

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DRE662016

Efectivamente: excepcionais

RTP excepcionais

There were more urgent emergencies than mine.

Sam Shepard

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Esta imagem, do Prós e Contras de ontem, merece três breves comentários (*):

  1. Depois de ‘selecção‘, de ‘Egipto‘ e de ‘pára‘, voltamos a verificar que o AO90 não é nem adoptado, nem necessário.
  2. Devido ao AO90, em português europeu, é criada a grafia ‘excecionais‘ e eliminada a grafia ‘excepcionais‘— contudo, em português do Brasil, a grafia ‘excepcionais‘ mantém-se.
  3. Octávio Ribeiro é o autor da frase:

A nova ortografia só se estenderá a todos os textos do jornal, respectiva primeira página e manchete, caro Leitor, quando já ninguém estranhar a palavra “facto” escrita sem cê.

Continuação de uma óptima semana.

(*) O ‘contra-natura’ da frase de Ribeiro é extremamente interessante, mas neste momento há “more urgent emergencies”.

Diálogo sobre a intervenção directa no processo de avaliação

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© 2006 La MaMa production (http://bit.ly/toothofcrime1)

Hoss: How could this happen?
— Sam Shepard, The Tooth Of Crime

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– Explique-me, por favor: quem é que intervém directamente na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL?

– É muito simples. Na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL, intervêm directamente quer o Avaliado, quer…

– O Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho?

– Sim, o Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho. Leia o Regulamento de avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL e perceberá: “Intervêm directamente no processo de avaliação do desempenho: a) O Avaliado; b) O Diretor do Departamento…”…

– O Diretor?

– Exactamente: o Diretor.

director

– Está a insinuar que o Diretor do Departamento intervém directamente na avaliação do desempenho? O Diretor intervém directamente? Desde quando é que um Diretor intervém directamente? Qualquer dia, temos [Read more…]