From Russia, with love #5 (Moscow)


‘Yo soy comunista’…

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disse-me um senhor basco que encontrei junto à estátua de Marx, esta tarde, pondo-me a mão sobre o ombro, erguendo o punho esquerdo e começando a cantar, em castelhano, a Internacional. Tive de lhe dizer que se erguia o punho direito, ‘mas em Espanha, erguemos o esquerdo’, e fez-me a vontade. Ergui eu também o punho, e fui cantando em português. A filha, uma miúda anarquista, segundo o pai, tirava fotografias e ria-se. Eu também me ri, como é evidente. Coisa mais inusitada, cantar em ‘portunhol’ a Internacional, diante da estátua de Karl Marx, ali ao lado da Praça Revolução, em Moscovo, às 5 da tarde.

O homem estava bem informado sobre Portugal. Perguntou-me ‘tu eres comunista?’ e logo a seguir: ‘em quem votaste nas eleições, no Costa?’. Disse-lhe que tinha votado no Bloco. Continuou a falar bem da solução encontrada em Portugal, sabia tudo, estava maravilhado. Pediu-me que cantasse aquela música, aquela tão bonita do cantor que já morreu, ‘como é que se chama a música?’… ‘a Grândola?’ perguntei eu. ‘Sim, essa, canta’. E eu lá cantei um bocado da Grândola, ali, às 5 da tarde, diante da estátua de Marx, em Moscovo, para um basco e a sua filha. Perguntou-me o nome, de onde era (‘Aveiro? A Venea Portuguesa?’, ‘Essa mesmo’), afinfou-me dois beijos e lá foi cada um à sua vida. Ganhei o dia, portanto, às cinco da tarde diante da estátua (que se calhar é a minha preferida em toda a Moscovo) de Marx.
Antes de cantar a Grândola a pedido de um basco, passei umas duas horas no Kremlin. Levantei-me tarde, para não variar, perdi de novo o pequeno almoço no hotel, comi qualquer coisa na rua e ala para o Kremlin. Hoje estava aberto e entrei passando à frente a fila infinita para os bilhetes. Comprei um bilhete apenas para ver as igrejas e os jardins. O Kremlin, tal como toda a cidade, estava cheio de gente, sobretudo de chineses que, estranhamente (para mim) falam muito alto. Acho que não tirei boas fotografias. Em qualquer uma delas (ou em quase todas elas) aparece sempre um chinês ou uma chinesa, ou uma pessoa (muitas, na verdade) de outra nacionalidade qualquer. É bonito o Kremlin, com os seus jardins bem arranjados, os seus edifícios bem conservados e, claro, as suas igrejas magníficas com as suas cúpulas redondas de que eu tanto gosto. Fartei-me de as admirar, em todas as igrejas.
Quando entrei, pela torre Kutafiya, assustei-me. Logo à entrada, já dentro do Kremlin um edifício muito feio, de arquitectura ‘soviética’. Pensei que talvez fosse encontrar mais alguns do mesmo género, mas, para meu sossego, não. As pessoas concentravam-se sobretudo na praça onde se encontram todas as igrejas: as Catedrais da Assunção, do Arcângelo e da Anunciação, a igreja dos doze apóstolos e (a minha preferida) a da Deposição do Manto de Nossa Senhora. Pequenina, colorida no interior, acolhedora e a menos visitada de todas. Talvez por isso gostei mais dela.
Além das Igrejas, o Kremlin inclui diversos palácios, incluindo o Grande Palácio do Kremlin e muitas torres ao longo dos seus muros. Inclui também, como já disse, um edifício muito feio – o Palácio de Estado. E inclui igualmente, como também já disse, belíssimos jardins e magníficas vistas sobre o rio Moscovo. Também se pode ver o canhão do Czar, imponente, e o sino do Czar, igualmente imponente, a que falta uma parte aparentemente devido a um incêndio. Diz-se que é o maior sino do mundo e nunca chegou, compreensívelmente, a tocar. O Kremlin é a residência oficial do presidente da Federação Russa, ou seja, neste momento, de Vladimir Putin. Chego a sentir alguma inveja dele, claro está. Mas passa-me depressa ao saborear um gelado comprado num dos quiosques que existem dentro dos muros do Kremlin, nos Jardins Secretos.
Saio pela torre Spasskaya, diretamente para a Praça Vermelha. Despeço-me devagar de cada uma das cúpulas da Catedral de S. Basílio. Do mausoléu de Lenine. Do Museu de História do Estado. Do GUM, onde entro a seguir. O GUM é, provavelmente, o centro comercial mais bonito do mundo. Tem um charme incrível e lojas caríssimas. É mais bonito por fora, é verdade, mas no interior todo o edifício transpira elegância. Vejo as montras. Não tenho dinheiro para nada daquilo que ali se vende (bom, talvez um gelado, ou coisa parecida) e saio para a Nikolskaya. Caminho até à Praça da Revolução, para me despedir da estátua de Marx, mas sobretudo para apanhar o autocarro para a estação de metro Mayakovskaya. Pode parecer estranho ir de autocarro para a estação de metro, sobretudo com uma estação de metropolitano logo ali, mas diante do meu recente pânico (descoberto em Paris, há uns meses) de descer (subir é sem problemas) pelas escadas rolantes e, dado que as estações onde fui não tinham nem escadas normais, nem elevadores), achei que esta era uma boa solução.
É então, antes do autocarro, que encontro o senhor e a filha. E que cantamos a Grândola e a Internacional. Uma bela despedida à estátua de Karl Marx. Uma bela despedida de Moscovo. Moscovo que não é uma cidade amável para os peões. É uma cidade enorme, com enormes avenidas, em obras em toda a parte, com pó em toda a parte e muito ruidosa. Moscovo é uma cidade para carros, principalmente. Carros topo de gama, quase todos, que andam depressa demais na maior parte das vezes, a não ser, claro (o que acontece com bastante frequência) quando há engarrafamentos. Mas Moscovo tem recantos encantadores, apesar do gigantismo. Ruas fechadas ao trânsito, mais estreitas, mais amáveis e humanas.
Quando saio do autocarro, entro na estação de metro Mayakovskaya. Desço as escadas normais para chegar ao átrio dos bilhetes e dou de caras com as temidas escadas rolantes. Pergunto se há outra maneira de descer e apanhar o metro. Que não. Desapontada, sobretudo comigo, saio para a rua. A pensar que perdi uma das atrações principais da cidade: o metro. As estações (algumas) de metro em Moscovo são uma obra prima e eu não verei essa obra prima porque me deu para ter medo de descer em escadas rolantes, sobretudo naquelas muito rápidas, como é o caso destas. Saio para a rua e olho a praça em frente. Nela se ergue uma bela estátua. É de Mayakvosky, naturalmente, o ‘Poeta da Revolução’. Sento-me num banco ao pé da estátua do poeta, a observá-la bem e a apreciá-la. Depois apanho o autocarro, esqueço as escadas rolantes do metro e vou jantar perto do hotel. Raparigas cantam novamente na rua e um rapaz toca violino. De repente há trovões e o céu enche-se de clarões. Cai uma chuva torrencial que transforma em rios as ruas, em poucos minutos. Molho-me até aos ossos ao regressar ao hotel. É uma chuva que limpa tudo. Ao contrário do que escreveu o belo Mayakovsky, o nosso planeta está preparado para o deleite e a alegria.

Comments

  1. Nefertiti says:

    Curioso como um comunista basco equaciona a votação bipolarizada.

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