From Russia, with love #6 (Moscow – Saint-Petersburg)


Cheguei a Leninegrado,

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ou Petrogrado ou São Petersburgo, como lhe queiram chamar. Eram cinco e meia da tarde quando o Sapsan, ou ‘falcão peregrino’ parou na estação Moscovo. Mal saio da estação, onde contei com a boa vontade de estranhos, como sempre, para descer as escadas com as malas, vejo um reclame no alto de um prédio: город горой Ленинрадюю. Qualquer coisa como ‘cidade heroica Leninegrado’. Pareceu-me um bom prenúncio.
 

Em Moscovo era meio dia quando apanhei o táxi para a estação de Leninegrado, justamente. O taxista era simpático, não me tentou enganar e ainda me pôs as malas ao cimo das escadas antes de entrar na lindíssima estação. Como ia preocupada (com medo de não perceber nada daquilo e perder o comboio) nem lhe tirei uma fotografia, quero dizer à estação, não ao taxista, evidentemente. Na verdade tinha imenso tempo para o comboio que era só às 13h30, mas achei melhor ir uma hora e pouco adiantada. Além de bonita a estação de Leninegrado em Moscovo é confusa. Não é evidente para onde temos de ir. Perguntei a um senhor fardado, que só falava russo. Na língua impossível do costume lá o entendi e consegui encontrar uma rampa, na lateral da estação para subir com as malas. Por milagre, as plataformas do Sapsan eram mesmo ali e respirei de alívio. Bebi tranquilamente um café. As portas da plataforma abriram ainda faltava imenso para a hora do comboio e eu entrei sossegadamente, passei o controlo e pus-me a fumar. Estavam dois funcionários dos caminhos de ferro a fumar também. Meteram conversa comigo por causa da caixinha que tenho para guardar os cigarros. Um deles quis mesmo vê-la com as mãos. A caixinha não é nada de especial, mas o homem encontrou-lhe graça.
 
A seguir perguntou-me naquela língua inexistente e impossível de onde eu era. Lá lhe disse. Depois quis saber quanto custava um maço de cigarros no meu país. Ficou entre o incrédulo e o indignado quando lhe disse o preço em rublos, numa conversão mal amanhada. Mais do dobro do que na Rússia. Disse-me que eu devia comprar 10 volumes e levar para casa. Disse-lhe que infelizmente só me deixavam levar um. De novo se indignou (e eu também estou indignada, vá). A seguir disse-me que ia em breve de férias para o Egipto e que ía levar um monte de volumes. E que adorava viajar. Eu também. Olhando-me para as malas, acrescentou que ele só viajava com uma mala pequena. Mas olhando para mim, sorriu e disse: ‘pois, mas eu sou homem, as mulheres levam mais coisas’. Concordei. Despedi-me dos homens para ir mais para a frente na plataforma, visto que a minha carruagem seria das últimas. O homem mais curioso atirou-me ‘talvez nos vejamos por aí’. Seguramente, pensei eu, é que se está mesmo a ver. Embora o mundo seja pequeno, não creio que isso venha a acontecer. Pensei, mas não lhe disse, afinal era simpático.
 
Entrei na carruagem 3 do Sapsan muito antes da hora da partida e instalei-me. Ía cheio. A paisagem passava vertiginosamente do outro lado da janela. Logo ao início há uma parte do percurso feito por uma estreita língua de terra no meio de um grande lago e a paisagem é tão bonita que é uma pena que seja impossível (enfim, para mim) tirar uma fotografia decente. O Sapsan é realmente rápido e em 4 horas coloca-nos em São Petersburgo. A viagem passa-se bem, ainda que não se possa fumar. Alguns passageiros, talvez mais viciados do que eu, aproveitam os brevíssimos minutos que o comboio pára em algumas (muito poucas) estações para fumar. Eu não.
 
De maneira que, quando saio na estação de Moscovo, em São Petersburgo, tenho muita falta de nicotina. Mal consigo sair da estação, fumo um cigarro aliviada. Olho para a rua, cheia de carros, com um trânsito caótico e penso, obviamente, em apanhar um táxi. Depois do cigarro fumado, aproximo-me dos táxis que ali estão parados. Um homem pergunta para onde quero ir, mostro-lhe o papel da reserva do hotel. 1000 rublos, diz-me. Digo-lhe que é muito caro. E é. 800, diz ele. Continua a ser caro, digo eu. E ele vai-se embora. Fico para ali a pensar que não posso ir com as duas malas a pé 5 km, mais ou menos. Está um senhor com ar bonacheirão ali ao pé, com um cartão que diz ’táxi’. Aproximo-me e digo para onde quero ir, ou melhor, mostro. Diz-me 800. Digo-lhe 600. E não se fala mais nisso. O senhor é realmente simpático e vai todo o caminho a falar uma mistura de russo com inglês, a tal língua impossível. Entendemos-nos bem. Apresenta-me aos monumentos por onde vamos passando. Fala pelos cotovelos e eu também. Metade da conversa suponho que nem eu nem ele a entendemos, mas que raio pode isso interessar?
 
Deixa-me à porta do hotel. Leva-me as duas malas até lá. Recebe o seu dinheiro e não me tenta convencer a pagar mais. Toco a campainha e ninguém atende. O taxista não arreda pé dali. Toca ele mesmo a campainha. Nada. Diz que vai chegar o carro mais à frente e regressa. Finalmente alguém abre a porta. Ele agarra nas malas e coloca-as dentro do pátio. Digo-lhe ‘Spasiba, you are so kind!’. E era. Tenho esta teoria, que já partilhei várias vezes nos postais que escrevo das cidades que visito: uma cidade conhece-se imediatamente pelos seus taxistas. Sendo assim, senti-me extremamente bem vinda em São Petersburgo. A sensação mantém-se quando chego ao hotel. Pequeno, simpático. Com um pátio no último andar com uma vista soberba sobre os telhados da cidade. O quarto é amoroso. As pessoas da receção bastante amáveis.
 
Deixo tudo no hotel, arrumo a roupa que ainda tenho limpa nos cabides e vou fumar um cigarro ao terraço. Choveu e está frio, mas o terraço é encantador. Saio para a rua em busca da Catedral do Salvador do Sangue Derramado. É logo ali, a menos de 5 minutos. Quando lá chego suspendo a respiração. É linda. E não sei dizer mais que isto. É de uma beleza estonteante, com as suas pinturas, os seus arcos delicados, as suas cúpulas magníficas. Fica à beira de um dos muitos canais de São Petersburgo (não é por acaso que lhe chamam a Veneza do Norte) e é, já o disse, imensamente bela. Ando à volta da igreja um bom bocado. Depois vou pela outra margem do canal, onde há um pequeno mercado. Numa banca estão centenas de bonecas russas. Vejo uma enorme com a cara do Putin. A senhora mostra-me… as bonecas contam, da maior à mais pequena, a história da Rússia, através dos seus governantes máximos. O Estaline e o Lenine são minúsculos. Digo à senhora, que fala um inglês perfeito, que não gosto nada que o Putin seja o primeiro e o maior. Diz-me que não há problema e mostra-me a coleção de bonecas com a história da Rússia a começar com o Estaline (um adorável estaline, devo dizer) e outra com o Lenine. Em ambas, Vladimir Putin pouco mais é que uma cabeça de alfinete. São geniais. Depois vejo umas bonecas adoráveis, perfeitas, que hei-de comprar para a minha coleção de matrioskas. Tenho muitas, mas mais uma coleção nunca é demais. E aquelas são lindas, mesmo perfeitas. Digo à senhora que voltarei na quinta ou na sexta, antes de me ir embora. Ela garante-me que me fará um preço especial. No fim aperta-me a mão.
 
Encontro um senhor que toca um serrote de forma fenomenal, quase como se fosse um violino. Tem umas longas barbas brancas e fica bem nas fotografias. Fico um bocado a ouvi-lo. Chego ao fim do canal, em frente à deslumbrante Catedral de Nossa Senhora de Cazã, com a cúpula perfeitamente iluminada pelo sol que resta deste dia. Respiro. É verdade que cheguei a São Petersburgo e sou contente.

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