Fom Russia, with love #8 (Saint-Petersburg)


‘What’s left when everything’s gone?’

 

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Suponho que as memórias. O registo dos momentos que inexoravelmente se transformam em passado. O que é que temos a não ser esses momentos? O que é que fica quando tudo acaba, ou se vai embora, ou deixa de ser?
Hoje visitei um museu extraordinário e tive uma experiência fora do comum. O museu chama-se Erarta*, descobri-o quando pesquisei ‘museus de arte contemporânea em São Petersburgo’. Fica na ‘ilha’ Vasileostrovsky, do lado de lá do Neva, a 5,3 quilómetros do sítio onde me encontro. Apanhei o trolley nº 10 (mas também podia ser o 11 ou o 7) e lá fui eu. Em cerca de 20 minutos e por 40 rublos parei quase à porta deste belíssimo museu, o maior de arte contemporânea da Rússia.

Antes de apanhar o trolley nº10 na avenida Nevsky, à beira da Praça dos Palácios, tenho a dizer que acordei tarde. Dormi bem e muito e estava a precisar. Na primeira noite em São Petersburgo estranhei a cama e dormi bastante mal e pouco, pelo que estava a precisar mesmo de dormir muito. Assim, levantei-me um bocado antes do meio dia e, tendo perdido o pequeno almoço (que também não é grande coisa, há-de ser o único senão do Sky Hotel) resolvi tomá-lo no meu (já) café preferido – o Civil. Esperei imenso tempo pela comida. O café estava cheio de gente a tomar o pequeno almoço a horas tardias. Quando finalmente me pus a caminho de qualquer sítio já passava largamente da uma da tarde.
Fui até à Nevsky e atravessei para o lado da catedral de Cazã. É imponente por fora e por dentro. Quando entrei na catedral estava um mar de gente. A princípio não percebi a razão, mas depois compreendi. Actuava (completamente de graça, não se paga para entrar nesta catedral ortodoxa) um coro e a música (bonita) ecoava de forma envolvente pela nave da igreja quando acendi cinco velinhas muito estreitas e fiquei a vê-las arder, como sempre faço em qualquer igreja em que entre. Um senhor ao ver-me embasbacada a olhar para aquilo explicou-me em russo a razão do formato da igreja. Por causa do som. Ele explicou-me em russo e eu compreendi na língua universal que é aquela de quem apenas presta atenção. Deixei-me ficar a ouvir a música e a embasbacar-me com a altura dos tetos. Depois saí pelas traseiras e dei com um pequeníssimo jardim onde um rapaz tocava (muito mal) ‘Feelings’ no saxofone.
Depois caminhei muito devagar para a Catedral de Santo Isaac. Não tirei, embora pareça, o dia para ver igrejas, apenas me organizei desta maneira, não sei explicar porquê. De qualquer forma, apesar de esta catedral ser, ao que leio, a maior e mais sumptuosa da cidade, não a visitei exatamente, embora a tenha podido apreciar um bocadinho pelos vidros da ‘torre’ ou ‘abóbada’ ou não sei como lhe hei-de chamar. A minha intenção era outra. Não visitar a igreja e o museu. Mas subir os 262 degraus até ao cimo da cúpula (aquilo não é de facto uma torre, chamam-lhe ‘colonnade’ mas não sei como traduzir). Comprei o bilhete para subir, numa das maquinetas do átrio, não sem antes admirar a gigantesca porta, toda trabalhada em relevos.
Havia à entrada da ‘colonnade’ um dístico que avisava que deficientes motores e pessoas com problemas cardíacos não deveriam subir. Não tenho, ao que sei, problemas de coração, mas tenho uma perna difícil, digamos assim. Ignorei, no entanto, o aviso, lembrando-me das mil torres de igrejas e castelos que já subi na vida. E fui escada acima. Os primeiros 200 degraus não custam nada a subir. As escadas são em caracol, mas largas e os degraus baixos. Foi só quando atingi a ‘rua’ que me assustei. Da primeira ‘plataforma’, ao nível dos sinos, para a segunda, a ‘colonnade’ propriamente dita, a escada é por cima dos telhados da catedral e a pique. Uma estrutura de metal (suponho que ferro) a pique sobre os telhados. Uma estrutura em que ainda por cima os degraus têm uma parte de rede. Imaginam o que senti, eu que tenho vertigens, apesar de gostar de subir a torres, quando olhei para as escadas.
Decidida a subir até ao cimo, pois se já tinha feito 200 degraus, lá fui eu, olhando sempre para cima, resistindo à tentação de olhar para baixo, para os telhados, para os sinos, para as torres mais pequenas e sobretudo para a rua, para os carros e as pessoas minúsculas. Alcancei o topo e respirei de alívio. Mas rapidamente me dei conta que teria de descer novamente por aquelas escadas inclinadas, suspensas, entre a cúpula da igreja e o seu telhado, para me poder ir embora. Confesso que fiz um esforço para não pensar nesse momento e, digamos, a vista dali de cima distraiu-me bastante. Vê-se toda a cidade. E se não tivesse subido não teria dado conta da belíssima Catedral da Trindade, com as suas cúpulas azuis cheias de estrelas brilhantes. Amanhã mesmo lá irei. Fica também a uns bons 5 quilómetros daqui, mas há autocarros e trams e trolleys e ‘marshrutka’.
Desci com muitas dificuldades, não físicas, mas mentais. Um degrau de cada vez, procurando olhar apenas para o próximo degrau e abstraindo-me do que estava à volta. Quando cheguei ao pé do sino, fui a pessoa mais feliz do mundo e descer os 200 degraus restantes não custou nada. Pareceu-me. As minhas pernas neste momento pensam extamente o contrário, sobretudo depois de andar às voltas no Erarta.
Quando saí da catedral de Santo Isaac, fui pelo jardim do Admiralteyskiy, muito verde, cheio de pombos. Depois apanhei o trolley e atravessei a ponte Dvortsoviy para Vasileostrovsky. 10 paragens e lá estava eu, diante do museu. O Erarta tem um espólio de cerca de 2300 obras. Nem todas estão em exposição, naturalmente. Na ala direita está a exposição permanente, na esquerda, as exposições temporárias. Pelo meio, nos seus 5 andares, estão salas de concertos, de cinema, cafés vários e lojas que vendem obras de arte. As pessoas da bilheteira são do mais simpático que pode haver. A entrada custa 500 rublos (7,5 euros) e vale muito a pena. Fiquei apaixonada pela obra de Elena Figurina. Revi ‘Last supper’ de Andrei Filippov que já havia visto em Paris, no Pompidou há cerca de meio ano. Estava a adorar o museu, quando dei com portas que diziam ‘U space’. As portas tinham coisas escritas: ‘Loading’, ‘Infinity’, ‘Cloud Nine’. Fiquei curiosa com o que estaria por detrás e tirei um panfleto. Havia mais ofertas como ‘Origins’, ‘Childhood’, ‘My house, my fortress’, ‘Cherry Orchard’ e a que me cativou mais ‘ What’s left when everything’s gone’.
‘U Space’ é uma série de instalações que devem ser experimentadas individualmente. Atrás de cada porta está uma instalação que supostamente provoca no visitante sentimentos diversos e, pensei eu, inquietantes. A experiência dura 15 minutos e custa 200 rublos (3 euros). Fiquei tão intrigada que comprei 15 minutos sozinha na instalação ‘What’s left when everything’s gone’. Podemos marcar a hora. Marquei para as 20h. Na entrada há um relógio que vai contando o tempo. Quando chega a hora, colocamos o bilhete numa maquineta e a porta abre-se, Quando entrei vi uma cena do passado. Não o meu, mas o de uma criança qualquer. Havia brinquedos no chão do quarto, um quadro de uma cama, uma cadeira com roupas infantis e um boné ‘soviético’. Havia pequenos jogos infantis, antigos. Um comboio de madeira, uma cadeira de baloiço, um relógio de parede e candeeiros. Havia uma porta para um longo corredor escuro. Podia tocar nos objectos, sentar-me. Sentei-me na cadeira de baloiço primeiro, depois num pequeno banco. Mexi nos soldadinhos, abri a porta para o escuro corredor. Em fundo o tic-tac de um relógio, primeiro lento, depois acelerado, como a marcar o tempo da existência de alguém. A lenta infância, a precipitação da vida adulta até à morte. As luzes apagaram-se indicando que a minha experiência chegara ao fim. O relógio deixou de tic-tac-tear. Carreguei no botão e a porta abriu-se.
Nunca tinha feito nada assim e gostei muito. A apreciação da arte, em todas as suas formas, é geralmente uma experência muitíssimo pessoal e no Erarta tiveram esta ideia genial (creio eu, que nunca a vi em nenhum dos muitos museus que já visitei em muitas cidades do mundo) de por o visitante sozinho perante uma instalação. De o deixar sozinho sentir o que tem a sentir. Apreciei genuinamente a experiência e se fosse mais cedo (o museu fecha às 21h) teria visitado sozinha mais instalações por trás de mais portas.
Quando estava dentro da minha experiência ‘U space’, nos meus 15 minutos de outra vida, pensei em muitas coisas. Da infância até às escadas a pique sobre os telhados da catedral de Santo Isaac, de que tive tanto medo. A linha da vida, desde a infância até ao fim é frágil e percorre-se num instante. O melhor é fazer tudo o que se pode, o melhor que se possa, e depois, aquilo que tiver de acontecer, acontecerá.
*ver informações sobre o Erarta aqui

Comments

  1. Benjamin Campos Ferreira says:

    Proletários de todos os países,
    vinde passear a Saint-Petersburg
    que é tão bonito!

  2. Sandrina says:

    Fom Russia, without love #1

    Alguns crimes cometidos na União
    Soviética durante os regimes de Lenin e Stalin como corolário
    das ideias do grande Karl Marx:

    1-As execuções de dezenas de milhares de reféns e prisioneiros e de centenas de milhares de operários e camponeses rebeldes
    entre 1918 e 1922.
    2- A grande fome russa de 1921, que causou a morte de 5 milhões de pessoas.
    3- A deportação e o extermínio dos cossacos do Rio Don em 1920.
    4- O extermínio de dezenas de milhares em campos de concentração no período entre 1918 e 1930 ( que serviram de inspiração aos Nazis na 2º Gerra Mundial).
    5- O Grande Expurgo, que acabou com a vida de 690 000 pessoas.
    6- A deportação dos chamados “kulaks” entre 1930 e 1932.

    7-O genocídio de 10 milhões de ucranianos – conhecido como “Holodomor” – e de 2 milhões de outros durante a fome de 1932 e 1933.
    8- As deportações de polacos, ucranianos,
    bálticos, moldavos etc entre 1939 e 1941 e entre 1944 e 1945.
    9- A deportação dos alemães do Volga.
    11- A deportação dos tártaros da Crimeia em 1943.
    12- A deportação dos chechenos em 1944.
    13-A deportação dos inguches em 1944.

    Durma tranqilamente e gose as suas descanssadas fériaz.

    Sandrina Kozlov

  3. #peloamordasanta 😀

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