O Marquês


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Há quem se impressione com o número de crimes imputáveis a José Sócrates pelo Ministério Público mas, depois de assistir a esta entrevista, onde se terão enumerado os pontos fundamentais da acusação, apenas consegui adensar as minhas dúvidas sobre a sobrevivência deste processo judiciário com tão pouco de judicioso. Não sendo a televisão um tribunal, muito embora tenha funcionado, nestes 3 anos de preliminares, como palco para um julgamento que já terá sido efectuado pelo público – ninguém quer acreditar que Sócrates não meteu dinheiro ao bolso -, o certo é que a representação do MP feita pelo jornalista de serviço apenas permitiu que o actor principal tenha dado um passo seguro para reconquistar o seu direito à presunção de inocência junto da opinião pública. Não se esperava que Vítor Gonçalves, que luta contra o estigma das suas supostas simpatias políticas, aguentasse o embate com este ex-primeiro-ministro, e nem mesmo que dominasse as 4.000 páginas da acusação (que trouxe ao ecrã para dar substância e clamor ao libelo, supõe-se…), como naturalmente o demonstrou fazer José Sócrates. Mas este espectáculo, a que mais uma vez assistimos neste campo, teve como único resultado a severa goleada de Sócrates ao Ministério Público.

Numa sonolenta e demasiado óbvia associação de ideias, dei comigo, a propósito dos nomes que as polícias gostam de arranjar para as suas operações, a recordar o Marquês, um cão que há algumas décadas os meu pais herdaram de um vizinho polícia quando este mudou de casa. O Marquês era um cão rafeiro com fama e proveito de bera, dizia-se que pelos maus tratos a que tinha sido sujeito pelo dono. Mordia amiúde a quem não lhe cheirava, preferencialmente deixando passar a vítima e atacando-a pelas costas. Rosnava e ladrava bastante, não se lhe aplicando portanto o ditado, e não deixava de fazê-lo mesmo quando e enquanto era sodomizado pelo Castanho, um cão mais corpulento que pela nossa rua gostava de passear a sua virilidade arbitrária. O Marquês mordeu-me algumas vezes, a mim que esporadicamente o alimentava, apenas reservando a sua fidelidade para a minha mãe, que era mais regular nesse empenho e que lhe limpava os dejectos. Na única fotografia que tenho do Marquês, ele está de quatro, agastado, preso por uma corrente e, como o nosso MP, a olhar suplicante para a câmara. Uma fotografia que me causa tristeza, embora pena nenhuma.

 

Comments

  1. João Manuel says:

    Este processo não poderia ser melhor apelidado “marquês”, diz um velho ditado: o marquês de bronze ganha dez gasta onze. Foi precisamente isso que aconteceu. Antes criticou a comunicação social de o condenar na praça publica vir agora fingir que concedeu uma entrevista à rtp para clamar antecipadamente a inocência onde, se duvidas havia quanto ao seu descarado envolvimento no processo as mesmas foram dissipadas. Evite ficar preocupado porque mesmo sendo condenado a prisão ira cumprir no mesmo estabelecimento prisional que o seu grande amigo Armando Vara está a cumprir os cinco anos que foi condenado.

  2. Rui Naldinho says:

    A boa parte da comunicação social na sua ânsia de querer demonstrar que Sócrates é diferente de todos os outros, tem caído numa armadilha, querendo-se substituir aos órgãos de soberania para isso mandatados, muito pela falta de ética jornalística, dever de imparcialidade, e, acima de tudo, por estar arregimentada aos ditames do dono. Os donos sabemos quem são e onde votam.
    O engraçado é que José Sócrates tem transformado todo este processo contra si, mais até do que os outros acusados, num julgamento político. E goste-se ou não, tem-no conseguido. Até aqui nos comentários do Aventar se percebe isso. Mas se formos para outros blogues é igual.
    A cada fuga de informação ao processo escarrapachado nos jornais do Grupo Cofina, ou à entrevista feita ao juiz Carlos Alexandre, no Expresso, ou a questões levantadas por Rosário Teixeira, transcritas nos meios de comunicação social, veio logo a seguir uma conferência de imprensa dada pelos seus advogados ou mesmo por Sócrates. Por vezes, uma entrevista ao próprio na TSF, na TVI ou na RTP.
    A primeira coisa que a comunicação social ainda não percebeu, é que Sócrates pretende levar este julgamento para o patamar da política pura, como uma espécie de ataque ao seu legado como governante. A comunicação social tem contribuído para isso, de forma consistente.
    Por outro lado, ainda não perceberam o óbvio. Sócrates a ser condenado face à acusação construída pelo MP, e que está em cima da mesa, irá acompanhado de Ricardo Salgado. Isto no mínimo. Mas também irão Zeinal Bava, Henrique Granadeiro e Armando Vara.
    Se pensarmos que Ricardo Salgado, foi por exemplo, um dos interlocutores no negócio dos submarinos, imaginem o homem a “dizer mais qualquer coisinha sobre o assunto”. Mas há mais dossiers para além desse, que porventura nós nem imaginamos.
    A acontecer, um Salgado perdido por cem perdido por mil, a pôr a boca no trombone, seria bom. Duvido é que isso aconteça.
    Só aí perceberemos como a corrupção em Portugal atravessa todos os partidos do arco da governação, e aqueles que se querem armar em justiceiros de Sócrates, rapidamente enfiarão a viola no saco, e voltaremos ao silêncio do costume.
    Não percebem que não é possível de todo criar uma espécie de cordão sanitário como fizeram com Hélder Bataglia, isolando Sócrates de Salgado, prendendo apenas Sócrates e Vara, que é no fundo, aquilo que salta à vista de todos.
    Eu até acredito que Sócrates pudesse ser preso, caso o agente corruptor fosse um sucateiro ou o administrador do Grupo LENA. A minha dúvida é:
    – Estando Ricardo Salgado metido nisto até ao tutano, se a coisa a certa altura não empena e pára de vez, a meio do processo, por falta de “provas consistentes”? (as aspas são propositadas)
    – Ou se a meio do percurso entre a condenação em primeira instância e o recurso, o Supremo Tribunal da Relação, não manda começar aquilo tudo de novo, levando isto para as calendas gregas.
    Quando o DDT cair, terá de arrastar consigo um tsunami de gente. Por um lado isso seria bom, estou certo.
    Não sei é se a certa altura os partidos que também estão instalamos nos órgãos de soberania com os seus maçons e afilhados, incluindo a Justiça, não dão ordem para travar a fundo, por a coisa não estar a resultar como elas esperavam.
    Eu só espero não usar fraldas de incontinência, isto se lá chegar, à espera de ver os acusados da Operação Marquês a entrar no dito purgatório.

    • Rui Naldinho says:

      Deverá ler-se, Supremo Tribunal de Justiça, e não da Relação.

    • Ferpin says:

      Não tinha pensado nisso, mas se quiserem prender o salgado ele pode propor um negocio a la Bataglia, e aí leva o cds e o PSD com ele. Além dos submarinos e portucale deve haver um monte de outros casos idênticos de que nada lemos nos media por razões óbvias.

    • JgMenos says:

      Sócrates existe pela política, não por qualquer outro meio ou aptidão pessoal.
      É de política que se trata. Se roubou, se perverteu instituições e empresas foi por acção política.
      É de política que se trata porque nada poderia ter feito sem cumplicidade política numa enorme escala, envolvendo dezenas, centenas de pessoas como elementos activos; e muitos mais como complacentes observadores do como a falta de honorabilidade está associada à acção política e tida como uma inevitabilidade.

      Proponho aos esquerdalhos uma acção patriótica e de esquerda:
      amnistia aos corruptores activos desde que apresentem provas contra os corrompidos em mais de 5.000 euros.
      O fundamento é simples: limpeza geral de coirões no serviço público.

      • ZE LOPES says:

        Não aprovo! V. Exa quer ser amnistiado? Credo!

      • ZE LOPES says:

        Passos existe pela política, não por qualquer outro meio ou aptidão pessoal.

        É de política que se trata. Se Tecnoformou, se Relvou instituições e empresas foi por acção política.

        É de política que se trata porque nada poderia ter feito sem cumplicidade política numa enorme escala, envolvendo dezenas, centenas de militantes como elementos activos; e muitos mais como complacentes observadores de, como a falta de honorabilidade, está associada à acção política e tida como uma inevitabilidade.

        Proponho aos Direitolhos uma acção patriótica e de Direita:
        amnistia aos corruptos activos desde que apresentem provas contra os curruptores em mais de 5 euros.
        O fundamento é simples: limpeza geral de coirões no serviço público, e no privado..

  3. JgMenos says:

    O grande Sócrates impante do extraordinário feito de: não ter o seu nome em nada senão em três empréstimos três; ter assinado nada; saber nada da vida do amigo a não ser que era vaca de dinheiro sem reservas nem documentos.
    Um vigarista que só tem uma pensão de deputado e distribui dinheiro como quem tem milhões.
    Uma goleada de descaramento e falta de vergonha.
    Um militante PS, a quem se espera que ainda venha a dar muitas alegrias.

    • ZE LOPES says:

      Quero chamar a atenção que Sócrates, agora, é um privado. E, na douta formulação de V. Exa e do SIlva do I erecto o problema da corrupção no setor privado não se coloca. Só há corruptos no Estado esquerdalho. Se chove dinheiro a rodos em certas urbanizações como a Quinta da Marinha, na Comporta ou em vastas zonas dos Algarves é porque eles são mais espertos. O problema está no Estado esquerdalho, que lhes atrapalha os negócios.

  4. JgMenos says:

    O Estado esquerdalho só abre caminho à corrupção.
    Sendo a penúria o seu estado natural ( há que comprar votos a toda a hora a título de promover a igualdade- essa espécie de gambozino da esquerda) mais dependente fica de que o investimento privado só seja atraído com grossa mama.

    • Abel Barreto says:

      Sei que dá gozo ser do contra, só porque sim, e muito mais quando o fazemos da forma mais irritante quanto possível.
      Mas no seu caso, e sem saber a sua idade ou ocupação, parece-me mais um caso de doença: só alguém doente ou afectado de alguma disfunção cognitiva, se dará ao trabalho de produzir todos estes comentários.
      Ao contrário do autor do post, o sr. não me causa tristeza, mas pena.

    • ZE LOPES says:

      Fico á espera do seu “ensaio” sobre o Estado Direitolho!

      Lá diz o povão: onde a esquerda põe o (…) alho, a Direita põe o (…).( não sou eu que digo! É o povão!).

      É só completar os espaços em branco! E preencher os em preto!

    • ZE LOPES says:

      V. Exa. tem de se dirigir rapidamente a um psicanalista! Essa fixação na mama – quando não é assim é na merda – tem certamente causas. Ainda por cima quando lhe chama “grossa mama”…Grossa?

      • JgMenos says:

        O humorista Lopes, revela que a ordinarice lhe é familiar.

        • ZE LOPES says:

          Desculpe V. Exa mas, mama e merda são termos que nunca usei. A não ser agora, por motivos óbvios.

          Realmente a ordinarice é-me familiar. Porque tenho, infelizmente, de lidar com pessoas como V. Exa.!

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