A dança do glifosato e o KGB


Os bons olhos com que a comissão europeia vê a Monsanto, levaram-na, em Junho de 2016, a propor o prolongamento da licença de utilização do glifosato por quinze anos, o prazo máximo permitido pelo direito comunitário; perante massivos protestos e um posicionamento nem pró nem contra do conjunto dos estados-membros, a CE acabou por adiar a decisão por um período de 18 meses, que terminará a 15 de Dezembro próximo. Nem a proposta seguinte da CE, de prolongar a licença por dez anos, nem a mais recente, por cinco anos, reuniram suficiente apoio dos estados-membros – a decisão voltou recentemente a ficar empancada na reunião de peritos do Comité Permanente da Cadeia Alimentar e da Saúde Animal e foi de novo adiada, agora para 27 de Novembro. Será então apresentada ao comité de recurso, uma instância destinada a apoiar a tomada de decisões “em casos sensíveis e problemáticos”.Foram 14 os estados-membros que votaram a favor da nova proposta (representando 36,95% da votação) e nove os que votaram contra (Bélgica, Grécia, França, Croácia, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta e Áustria). Os restantes cinco abstiveram-se (Bulgária, Alemanha, Polônia, Portugal e Romênia). Vá lá, vá lá, Portugal (representado no comité por um técnico da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária) absteve-se; mas tendo em conta que é o país europeu com maior contaminação, bem podia ter votado contra, tal como onze associações ambientalistas e agrícolas exigiam ao governo. E vá lá, vá lá também a abstenção da Alemanha (que representa 16% da população da Europa), decorrente de um braço de ferro entre os seus ministérios da agricultura e o do ambiente, invocando este, e bem, o princípio da precaução.

Para a aprovação ou rejeição da proposta da Comissão Europeia é necessária uma maioria qualificada de 55% dos estados-membros que representam 65% da população da União Europeia. Que a licença vai ser prolongada, não restam dúvidas; se não for pelo comité de recurso – submetido a pressões hercúleas para chegar a um resultado favorável à Monsanto – será a própria comissão europeia a fazê-lo. A França já declarou que favoreceria o prolongamento por três anos, mas que consentiria por quatro anos.

É já longa a luta cívica contra o glifosato, este herbicida total que mata tudo o que é vida e que foi classificado de “provavelmente cancerígeno” pela OMS. As suas funestas consequências são tais que mobilizaram cidadãos a nível internacional para, num processo de julgamento simbólico, darem voz e visibilidade a essa terrível realidade. No Tribunal Monsanto, após a audição de casos dramáticos, juízes de renome internacional consideraram a multinacional culpada de violar os direitos humanos, danificar o ambiente e de ecocídio.

Nos EUA, está a decorrer uma queixa colectiva em que milhares de cidadãos exigem à Monsanto compensações por linfomas causados pelo glifosato do herbicida Roundup.

Ontem, representantes da Iniciativa de Cidadania Europeia pela proibição do glifosato  – que em menos de seis meses reuniu 1,3 milhões de assinaturas de cidadãos europeus – apresentaram perante deputados e várias comissões do Parlamento Europeu, bem como membros da CE, argumentos e provas contra o glifosato, exigindo também uma reforma que torne o processo de aprovação de pesticidas na UE mais transparente e metas vinculativas para uma redução do uso de pesticidas na Europa.

Na intervenção que era suposta ser a final, o porta-voz da ICE mencionou os Monsanto Papers, a influência da Monsanto em pareceres de referência e a ameaça da Monsanto de avançar com uma acção judicial multimilionária contra a UE, caso a licença não seja renovada.

Nessa altura, o comissário europeu para a Saúde e Segurança Alimentar, o lituano Vytenis Andriukaitis, resfolegou e fez questão de voltar a intervir para responder: “Eu fui encarcerado pelo KGB. Eu não me deixo pressionar por ninguém. A Monsanto é menos poderosa que o KGB.”  Pois, de facto nem precisa de ser pressionado, Sr. comissário, é conhecida a sua ânsia de prolongar a licença do glifosato por mais 10 anos. Quanto à ameaça de acção judicial, não desmentiu… e aliás, se ela viesse, quem a pagaria seríamos nós. Porque haveria o Sr. de se sentir pressionado???

Comments

  1. Agradeço a Deus que vos iluminou, Ana por nos permitir conhecer mais este crime contra a Humanidade. Fico feliz de ver o seu trabalho.

    • Ana Moreno says:

      Obrigada António, fico contente por saber que pode ser útil e agradeço (parto do princípio de que está a ser sincero, mas de iluminação nada tenho…). Andarmos informados dá, realmente, uma trabalheira. Mas necessária. Não falo daqueles cuja luta pela sobrevivência é tão dura e básica que não dá mesmo. Mas há uma boa camada de gente que bem podia pensar menos em “topos de gama” ou telenovelas e mais em saber para onde nos estão a levar – e, onde possível, em dar a sua pequena contribuição para remar contra as marés que nos estão a levar ao fundo.

    • : ) e eu também Ana, a felicito sempre por seu empenho incansável e dedicado a causas como esta que são de todos nós, daqui estre abraço cordial de sempre.
      E já agora, se é que vale ainda a pena, quanto à ratificação pelo presidente Marcelo do CETA cujas teias perversas estão tb neste emaranhado de interesses, que já aconteceu ou irá acontecer pela certa ? que tal ir enviando para o seu gabinete informações destas que o possam deixar incomodado ? que de abraços a sem abrigos e outras coisas que tais de protagonismo deve saber e conhecer e interessarem-lhe bem melhor ?

      • Ana Moreno says:

        🙂 Olá Isabela, continuamos à espera de ver em que vai dar a ratificação e, enquanto isso, enviámos o segundo pedido de audiência, subscrito por 15 organizações da sociedade civil portuguesa… acho que, por agora, é aguardarmos serenamente…

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      Faço minhas as palavras do António Medeiros. Espero que os países que estão contra não se deixem “intimidar” e imponham a nega à Monsanto. Depois venha lá o processo da Monsanto, e deixemos a justiça actuar.

      Acho até que seria interessante, e uma boa amostra do que por aí pdoerá vir com a aprovação dos “Acordos de Comércio Livre” (onde o “livre” aqui está nitidamente a mais, excepto se significar, onde não há leis que valham).

  2. Cara Ana… volto ao castigo! 😉

    “Monsanto is now dumping more than a billion dollars into a production facility that will distribute dicamba, the new chemical that will likely be replacing glyphosate.”

    Para esta gloriosa corporação já pouco diferença lhes deve fazer se o glifosato é interditado na Europa! Podem escoar o stock que eventualmente ainda têm para outros miseráveis.

    Dado que já está a ocorrer num volume acima do aceitável a apelidada “resistência” por parte das aborrecidas ervas daninhas, a própria gloriosa corporação já está há anos a preparar terreno para substituir o nosso amigo glifosato por outro, igualmente cancerí… digo, amigo químico, que de resto tem um nome mais engraçado… dicamba!

    Há uns tempos atrás sugeri aos salafrários que aquecem cadeiras na A.R. que fizessem testes à urina para verificar se os maravilhosos deputados da nação tuga estão contaminados com o útil glifosato. Em caso de 100% de casos positivos pelo menos a situação serviria para nós, povo boçal, nos rirmos deles!

    Continuemos crentes na ilusão de que o animal umano é capaz de MUDAR especialmente quando a mudança implica PERDA DE LUCRO!

    De resto PODEM FICAR TRANQUILOS! Os bacanos da bata branca asseguram que dicamba é seguro! fonte

    Vamos lá então dicambar até ao ∞…

    Be 😎

    • …”Há uns tempos atrás sugeri aos salafrários que aquecem cadeiras na A.R. que fizessem testes à urina para verificar se os maravilhosos deputados da nação tuga estão contaminados com o útil glifosato. Em caso de 100% de casos positivos pelo menos a situação serviria para nós, povo boçal, nos rirmos deles! ” …

      !! boa! o pior é que riria o roto do remendado, uma vez que :
      o português menos contaminado tem três vezes mais glifosato que o pior caso alemão.!!! Quantos se não todos nós não teremos já esses “mínimos” ?!
      pois que teremos que fazer algo e sermos interventivos em acções de cidadania activa, sim, ou …vamos deixar que nos cosam ( f….) em lume brando ?

    • Ana Moreno says:

      Olá caro voza0db, também não duvido de que já estão a providenciar a substituição do dito. Por isso é que a ICE exigiu não só a proibição, mas também transparência nos futuros processos de aprovação, bem como metas de redução da aplicação de pesticidas nos estados-membros. A França está a ser pioneira neste campo.
      A sua sugestão aos salafrários é mesmo boa 🙂

  3. Sabes qual é o nosso azar?

    É que a MONSANTO não é RUSSA… porque se fosse já tinham proibido a venda!

    Temos de pedir aos Russos para ajudarem o Povo Europeu (que merece pouco ou nada, mas enfim) comprando a MONSANTO, nem que para tal tenham que recorrer da preciosa ajuda da Família Clinton!

    • Ana Moreno says:

      A Monsanto não é russa mas está a caminho de ser engolida pela Bayer, o que me parece bem mais assustador. https://aventar.eu/2016/09/22/ha-que-proteger-os-monstros/

      • 🙄 são os alemães que mandam neste CIRCO! Desde o Banco Comunista Europeu (tcp Bundesbank) até à salsicha…

        • Ana Moreno says:

          Mandam até certo ponto, sem dúvida, mas os outros também se deixam mandar. Olhe lá se conseguiram mandar alguma coisa no que toca às quotas de refugiados… O grupo de Visegrado disse não e nada feito. Não foi por falta de pressão alemã…
          Neste momento, andam à nora a ver se conseguem formar governo e já há vozes vindas de Bruxelas a advertir que é preciso uma Alemanha estável para que a UE possa avançar com as mudanças necessárias…

          • Acabaste a reforçar a noção de que é a Alemanha que manda no circo!
            De resto os países de Leste estão na UE mais porque muitos dos merdíticos receberam luvas e bons empregos, e porque assim ficava mais fácil alastrar a Organização dos Terroristas do Atlântico Norte (OTAN/NATO) do que propriamente porque esses Povos queiram realmente entrar para o CIRCO!

            Pelo que vejo a moda actualmente é quanto menos soberanos formos e mais irresponsáveis conseguirmos ser, melhor.

  4. Bento Caeiro Godinho says:

    Monsanto, nos pesticidas, as Sete Irmãs nos combustíveis, tudo fazem e tudo mandam. Em prejuízo da Terra, enquanto sistema, e de todos nós, enquanto população da mesma. Contudo, o mais importante para alguns, em seu benefício, mesmo que tenham de envenenar o Planeta e a sua população.

  5. Ana Moreno says:

    Reforcei até três coisas, caro voza0db: que ela manda, que há quem queira que ela mande e que quando se juntam outros e não deixam que ela mande, não manda mesmo 🙂
    e tb. acho que essa moda que diz está a pegar.

  6. Como nunca te ofereci nada, e como te estou sempre a incentivar… Pega lá uma prenda!

  7. Ana Moreno says:

    Até acho graça ao incentivo, caro voza0db, gostei da prenda, obrigada (com o pequeno senão de que um 1/4 da duração já teria chegado para perceber e concordar… sou avara no que toca ao tempo).
    Pois a descrição é certeira, mas eu é que não desisto de estrebuchar, por uma questão de feitio. Depois há outra coisa, uma profunda aversão a elitismos, pretenciosismo e, sobretudo, injustiças. Eh lá voza0db ! Já conseguiu fazer-me avançar mais do que interessa aqui para o caso…:-)
    Fiquemo-nos pelo glifosato, ou pelo dicamba. Segui a sua indicação e fui ver; como às tantas o glifosato deixa de funcionar (a natureza resiste, coitada) a Monsanto resolveu negociar com a BASF e adquirir a titularidade do dicamba; este, por sua vez, destrói plantas que não sejam geneticamente modificadas (como são as da Monsanto) e por ter problemas de volatilidade, passa para campos vizinhos e tem dado cabo de grandes extensões de culturas. Daí que nos EUA já tenham sido também apresentadas milhares de queixas jurídicas contra o dicamba.
    “O programa segue dentro de momentos…”

    • De facto o programa seguiu…

      Não adiantou o milhão de assinaturas, não adiantou todo o acumular de provas de corrupção via Monsanto Papers, não adiantou o Parlamento Europeu ter pedido restrições, não adiantou a ausência de critérios para avaliar a desregulação endócrina, nada adiantou nada.

      Depois não se admirem de o cidadão comum se sentir atraiçoado pela classe política convencional e se deixar atrair pelo radicalismo.

      Votos – Portugal foi a única abstenção:

      A favor (18): BG, DE, CZ, DK, EE, IE, ES, LV, LT, HU, NL, PL, RO, SV, SK, FI, SE, UK
      Contra (9 ): BE, EL, FR, HR, IT, CY, LU, MT, AT
      Abstenção (1): PT”

      Transcrição de um texto escrito por uma escrava boçal iludida 🙄

      Resta-me continuar a CONTEMPLAR e 😆 😆

      Queres ir festejar ou fica para depois?! 😉

Trackbacks

  1. […] pronto, acabou a dança, via livre para dar continuidade à destruição da biodiversidade vegetal e animal, à […]

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