Manifestações do ego liberal


Pouco antes da meia-noite daquele dia 19 de Novembro, o líder do partido liberal alemão (FDP), rodeado pelos seus prosélitos, após deixar pasmados e consternados os membros dos outros três partidos sentados à mesa das negociações, saiu porta fora e com toda a pompa e circunstância anunciou à comunicação social que o seu partido dava por encerradas as negociações para a formação da coligação Jamaica (CDU/CSU, Liberais e Verdes). À matador, leu meia dúzia de declarações de carácter geral e foi-se impante de razão, seguido pelo seu séquito, depois de finalizar com a frase que se tornou o slogan do partido e a coqueluche do momento: “É melhor não governar do que governar mal.” Nos dias seguintes, proliferaram extrapolações sarcásticas, como esta, no Twitter: “O meu filho perguntou-me hoje: pai, não será melhor não fazer os trabalhos de casa do que fazê-los mal? Obrigado, Sr. Lindner!”

Há indícios, e disso o acusam tanto políticos como analistas, de que esta aparatosa saída de palco já estivesse tacticamente preparada desde o início desse dia de deadline para a conclusão das negociações.

Indícios como o facto de a interrupção das negociações não ter sido precedida de qualquer aviso que permitisse aos outros partidos reagirem (foi ponto final e porta fora), ou de o anúncio à comunicação social sobre o fim das negociações não ter sido feito pelos líderes dos quatro partidos em conjunto (Lindner fez questão de ser o espadachim da noite), ou ainda o facto de o discurso de Lindner estar escrito de imediato e de, poucos minutos depois do anúncio, já a estilosa imagem com o novo slogan dos liberais estar disponível no Twitter.

Já durante o mês de intensas e intermináveis reuniões de negociação, Lindner vinha avisando: Não temos medo de novas eleições. Bom, face ao irresistível estilo alfa de Lindner (enfim, gostos…) e à sua acentuada veia populista, não custa nada acreditar que se de alguma coisa ele tivesse medo seria de que se chegasse a um consenso e a bom porto jamaicano. Ora, naquela noite, isso estava a um passo de  acontecer – como todos os outros partidos afirmaram depois.

Sem dúvida, as posições dos quatro partidos são fortemente díspares, em especial, quanto aos temas imigração e energia. Mas sabendo que o fracasso das negociações iria criar uma situação extremamente difícil para o país, todas as partes foram fazendo compromissos, engolindo sapos.  Lindner, porém, com o seu ego ferido depois de uma derrota eleitoral que em 2013 catapultou o FDP para fora do Bundestag durante quatro anos, nunca poderia pôr razões nacionais à frente de razões próprias.

Sinceramente, entre a nada-morta coligação Jamaica e a que se está agora a delinear, pressionando o SPD para abdicar de se manter na oposição – conforme o seu líder convictamente anunciara logo que foi conhecido o resultado das eleições -, não me parece haver uma diferença realmente significativa. Mais coisa menos coisa, vai continuar a política amiga da finança e da indústria, que produz pobres até num dos mais ricos países do mundo e que dá cabo do ambiente.

O mais interessante na novela das últimas semanas foi ver o vir ao de cima de uma característica muito própria dos actuais (neo)liberais: são, acima de tudo, egocêntricos. O que faz todo o sentido, é uma questão de coerência programática.

Surpresa Lindner: Montagem do programa satírico “Heute Show”, do 2° canal público de TV

Comments

  1. …”.vai continuar a política amiga da finança e da indústria, que produz pobres até num dos mais ricos países do mundo e que dá cabo do ambiente.”
    e …” uma característica muito própria dos actuais (neo)liberais: são, acima de tudo, egocêntricos. O que faz todo o sentido, é uma questão de coerência programática.”

    …e nós = por cá, Ana ! obrigada pelas suas contribuições a ficarmos atentos ao que nos ameaça !
    / abraço solidário

  2. Rui Naldinho says:

    Talvez mais a manifestação do ego populista. A ver se pega.
    O FDP têm sido umas vezes muleta, outras vezes têm sido o escravo do voto útil, para uma maioria da CDU. Há boa maneira do nosso CDS, o FDP no passado também andava de Táxi.
    Não me espanta esta atitude.
    Por outro lado, o legado dos partidos sociais democratas e socialistas europeus têm sido um desastre, nas últimas duas décadas. Os resultados estão à vista de todos. Se excluirmos deste “retrato”, todos os outros partidos europeus, cuja situação é ainda mais dramática do que na maior economia da zona euro, a começar pela Grécia, e acabando na por exemplo, na Holanda, diríamos que mesmo na “infalível Alemanha”, os resultados dos sociais democratas são desastrosos.
    A Sra Merkel da CDU vai para o seu quarto mandato consecutivo, apenas com uma maioria absoluta da CDU/CSU, no período 2009 a 2013, isto se não me falhar a memória. É obra, meus caros! Nos outros três mandatos esteve sempre em coligação com o SPD, por não ter alcançado a maioria absoluta. Sim os sociais democratas estão à oito anos no Poder, não esqueçamos. E nos últimos dezasseis anos estiveram lá doze. Apenas com um senão. Quem manda é Angela Merkel e o Sr. Schauble, nas Finanças.
    Se considerarmos que estamos a falar da maior economia europeia, a mais pujante e dinâmica do velho continente, apetece-me perguntar qual a razão para tão grande fragmentação do eleitorado? Em especial à esquerda.
    Se o fenómeno da imigração tem um peso significativo na opinião pública, e consequentemente no eleitorado de ascendência germânica, “os alemães gostam deles para trabalhar”, mas não se sentem muito à vontade ao perceber que dentro de uma década eles poderão também “começar a mandar”, isso por si só não explica tudo.
    Daí só posso intuir que há um conjunto alargado de cidadãos que não se sente representado pelas ideias do SPD.

  3. ZE LOPES says:

    O partido “liberal” alemão é uma produção de engenharia política: um partido destinado a fazer coligações com outros partidos, de modo a manter e eternalizar a pázinha alcançada desde a Guerra.

    É (ou era?) o tal partido “simpático”, com malta gira (mas curioso: até onde me lembro só vi homens…) produto do segundo voto posto à disposição dos eleitores, para que alcançassem os tais 5 por cento que lhes permitiam, mesmo com tal míngua, governar, seja com o SPD, seja com os outros.

    Era o que se chamava “um partido de quadros”, na acepção de Maurice Duverger. Paulo Portas quis replicar o esquema em Portugal, mas teve azar porque, aqui, não há segundo voto.

    Depois de terem passado as passas de Berlim (que eu saiba, lá na RFA, não há Algarve, por isso é que se precipitam para aqui…), lá voltaram a ter uns segundos votos. Pois!

    Só que a “engenharia”, produto da existência de vários partidos “tipo FDP”, deixou de funcionar. Porque os tais “grandes” estão cada vez mais pequenos.

    E o gajo, o tal Lindner, que se julga, ao espelho, LIndner como o milho, achou que agora há outro mercado. O da extrema-direita. Por isso, pensa que lhe será fácil lançar uma OPA sobre a AfD. Se correr bem, muito bem! Se não, não há problema, já que um gajo destes tem sempre a ilusão de ser um grande nadador, principalmente em oceanos cheios de trampa.

    Em relação aos “verdes” nem quero falar! O melhor é deixarem de insultar a cor, mudando para castanho. Ou outra cor, de preferência escolhida pelo Rui Tavares!

    • Ana Moreno says:

      “E o gajo, o tal Lindner, que se julga, ao espelho, LIndner como o milho, achou que agora há outro mercado. O da extrema-direita. Por isso, pensa que lhe será fácil lançar uma OPA sobre a AfD.” Na mouche essa da OPA, Zé Lopes 🙂 segundo vários órgãos de informação (incluindo o prestigiadíssimo Süddeutsche Zeitung), na fase final das negociações o FDP terá tentado ultrapassar o CSU “pela direita” no que toca à política de reagrupamento familiar dos refugiados; o que – e isto agora já é interpretação na perspectiva da OPA, não consta no jornal – o colaria à AfD…

  4. Luís Lavoura says:

    Apesar de ideologicamente eu não estar nada alinhado com a Ana Moreno, não deixo de considerar os seus posts como os melhores deste blogue.
    Incluindo este, claro.

    • Ana Moreno says:

      Puxa, obrigada Luís Lavoura, fico contente que goste e mais ainda se não somos alinhados ideologicamente 🙂

  5. partido liberal alemão (FDP)

    Bom… esta sigla em tugês seria um fartote de 😆

    De resto, continuamos na mesma! Continuar a VOTAR em salafrários (tanto faz a sigla) e esperar que algo de justo e equilibrado surja!

    Vamos embora fazer outra festa democrática e mais umas cruzes numas folhas de papel… Agora é que vai ser 🙄

  6. ZE LOPES says:

    Mais só uma coisita:

    Não vale a pena fazer um partido com a sigla FDP em Portugal! Estou apenas a avisar os tolos liberalóides! Basta ver o que vai acontecer…

    Até porque existiu um partido chamado MMS (Movimento Mérito e Sociedade) que depois se tentou intitular Partido Liberal. Era chefiado por um senhor chamado Eduardo Correia, ao que consta professor do ISCTE.

    Que já tentou acabar com o partido duas vezes, e não conseguiu! Não teve mérito…

    E, recentemente, deve ter mandado às malvas o mérito e…tornou-se membro do “governo sombra” da Teresa Leal ao Coelho na Câmara Municipal de Lisboa.

  7. José Feliciano Cunha de Sotto Mayor says:

    liberais a serem liberais. ainda por cima agora vão publicar aqui no tugão o livro das imbecilidades de ayn rand.

  8. JgMenos says:

    «vai continuar a política amiga da finança e da indústria, que produz pobres até num dos mais ricos países do mundo e que dá cabo do ambiente»

    A indispensável frase ‘para reconhecimento de seita’.

    • ZE LOPES says:

      O que é que o impressiona? A produção de pobres? Já se cá sabe que só é pobre quem quer porque quer e que, ainda por cima, se reproduzem. Que tal impor a esterilização de todos os pobrezinhos?

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