Quem se mete com a Igreja leva!

A perda da minha fé já tem mais de trinta anos. Saí da Igreja, mas, como é evidente, nem toda a Igreja saiu de mim, como nunca poderá sair de nós, filhos da Bíblia e do catecismo, mesmo que tenhamos saído de casa dos pais. Ou de casa do Pai. Ou mesmo que nunca lá tenhamos entrado, porque a língua, a linguagem e o pensamento, faces da mesma vida, são também muito católicos.

Ao longo destes anos, tenho vivo tranquilamente e tenho tido o privilégio de conhecer muita gente interessante, dentro e fora da Igreja, padres e ateus (só me falta um padre ateu), sportinguistas e portistas, de esquerda e de direita. A Igreja e as suas criações não têm deixado de me deslumbrar, através de actos, palavras e missões, em gestos genuinamente bondosos, textos magníficos ou templos já quase celestes.

Resisto, sempre com muita dificuldade, à tentação de condenar a Igreja toda pelos crimes que muitos cometeram em nome de Deus. A Igreja, por ser humana (seria melhor se fosse divina?), é feita de imperfeições, é tribal, por ser humana, e cruel, por ser tribal.

Acredito que se adaptou à democracia e à liberdade religiosa por instinto de sobrevivência e não por isso estar na sua natureza. A Igreja vive, ainda, traumatizada por ter perdido, sucessivamente, o poder de dominar a política, de controlar a moral e de calar a ciência. Muitos discursos disfarçam mal o desejo de regressar ao passado ou o desejo de continuar aí a viver.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa recomendou aos católicos recasados sem que o anterior casamento tivesse sido anulado que se abstivessem de ter relações sexuais, que vivessem como irmãos. O espírito é divino e o corpo é demoníaco, especialmente no que se refere à actividade sexual, essa coisa tão malvista porque até os bichinhos gostam e porque quem gosta é bichinho.

Um casal recasado mais crente (ou mais crédulo) terá, assim, de sofrer as agruras de um desejo contido, gastando muita água e poupando no gás, até ao dia em que um deles atacará o outro (ou, ao mesmo tempo, que o desejo tem coincidências do diabo) e, perante a breve hesitação, já pouco vestidos, um dirá:

  • Mas, e o Cardeal?
  • A esta hora, e com este frio, já está a dormir. – responderá o outro.

  • Seja o que Deus quiser, então!

Ao mesmo tempo, em Espanha, Daniel Serrano foi condenado a pagar uma multa de 480 euros à Irmandade da Amargura de Jaen, por ter feito uma fotomontagem com a sua cara num Cristo crucificado. Foi condenado por delito contra os sentimentos religiosos, o que fez com que a divulgação da história e da fotografia aumentasse, gerando outras montagens solidárias (a realidade, virtual ou não, é sempre cruel com quem quer apagar histórias). Num mundo ideal, a Igreja, a propósito de brincadeiras com Jesus ou mesmo com Deus, deixaria escapar um sorriso sereno, segura de que o Pai e o Filho estão acima dos divertimentos dos homens, mas falta-lhe sentido de amor.

Espero que nunca nenhum tribunal condene Rodrigo Moita evidentemente de Deus por delito contra os sentimentos docentes, porque não gostaria de ver a minha classe confundida com uma instituição sem sentido de humor, que é outra maneira de amar ou de não fazer verdadeiramente mal àqueles de quem não gostamos, o que já não é mau.

Em Portugal, o casal de recasados, ainda mal saciado de tanta fome, ao saber da notícia da condenação de um jovem espanhol, jurou que não contaria a ninguém que tinha desobedecido à Igreja. E Deus condenaria Daniel ou os os sôfregos recasados?

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O senhor Cardeal não estava à espera que eu me recasasse, para continuar a tocar à punheta o resto da minha vida?
    Santa paciência!

  2. Luís Lavoura says:

    Resisto, sempre com muita dificuldade, à tentação de condenar a Igreja toda pelos crimes que muitos cometeram em nome de Deus

    Faz mal em resistir.

    Porque se trata da Igreja, uma instituição unitária.

    Nas outras religiões monoteístas não há Igreja. Há crentes que, naturalmente, ocasionalmente pecam. Há judeus pecadores, há muçulmanos pecadores. Mas não há uma instituição que acolha e justifique os seus pecados, porque nessas religiões não há Igreja.

    Se há uma instituição que se disponibiliza para justificar e acolher o pecado, essa instituição deve ser condenada.

    • Rui Naldinho says:

      A Igreja é feita de pessoas, tal como os países são feitos de povo. Até pode ser mais do que um.
      A doutrina social da Igreja, a Bíblia, os actos litúrgicos, as profecias, as encíclicas, as bulas, tudo isso foi obra dos homens.
      Tentar dissecar a instituição Igreja dos seus protagonistas, os crentes, mas em especial os que a tutelam, como o cardeal patriarca de Lisboa, como se a Igreja como entidade religiosa fosse algo que transcende a realidade, e não apenas e só a fé de cada um nós, caso a tenha, isso é o mesmo que acreditar em nada.
      A pretensa fé do ser humano é algo que se circunscreve a ele, como ser racional. A Igreja é algo que ultrapassa o domínio da crença, pois interfere com a realidade física dos homens. Caso contrário não havia vitimas da Inquisição, ou da perseguição religiosa aos crentes.

  3. Mas esperem lá! Mesmo os que casaram só pela primeira vez, segundo a igreja católica, não podem só pinar para obrigatoriamente ter filhos, sem recurso a preservativos, pípulas e outros contracetivos? Então qual é a novidade?
    Posto isto, eu pergunto-me é se todos os católicos, que só tiveram um ou dois filhos, se só pinaram, uma ou duas vezes durante toda a vida…

    “O pecado, diga-se mais uma vez, essa forma de autopoluição do homem par excellence, inventou-se para impossibilitar a ciência, a civilização, toda a elevação e nobreza do homem; o sacerdote reina graças à invenção do pecado.”
    (O AntiCristo / Nietzsche)

    • Carlos Almeida says:

      Boa tarde Konigvs

      O seu post, que subscrevo, fez-me recordar uma cena caricata em que depois do deputado do CDS João Morgado, meu vizinho em Lamego, ter atacado a despenalização do aborto que na altura se discutia, com o argumento de que «O acto sexual é para ter filhos», Natália Correia respondeu-lhe com o poema seguinte:

      Já que o coito – diz Morgado –
      tem como fim cristalino,
      preciso e imaculado
      fazer menina ou menino;
      e cada vez que o varão
      sexual petisco manduca,
      temos na procriação
      prova de que houve truca-truca.
      Sendo pai só de um rebento,
      lógica é a conclusão
      de que o viril instrumento
      só usou – parca ração! –
      uma vez. E se a função
      faz o órgão – diz o ditado –
      consumada essa excepção,
      ficou capado o Morgado.

      (Natália Correia – 3 de Abril de 1982 )

      Podem encontrar o artigo em

      http://www.esquerda.net/dossier/o-coito-do-morgado

      • Por acaso é muito curioso que, ainda ontem, uma amiga minha, enviou-me um “print screen” de uma conversa acalorada que teve com o seu antigo padre no Facebook (ironicamente o Vaticano decretou que o uso da internet é um dos “novos pecados”!) e o senhor, quase dez anos depois da lei ter sido aprovada, teve a lata de afirmar algo tão cristão como desejar a morte a quem aprovou essa lei.

        Ora, isto vindo de um padre, que é homem e que nasceu com um pénis, acaba por ser muito aberrante que, alguém de quem se diz que é o “representante de deus na terra”, faça precisamente contrário do que o seu deus disse: “Crescei e multiplicai-vos”.

        Mais. Sendo um padre também um homem, com pulsões sexuais como todo e qualquer homem, porque raio os padres, quando são ordenados, não são castrados para evitar que cometam o pecado da luxúria, e pior, não cometam crimes como o da pedofilia?

        E muita gente diz que “a Igreja deveria atualizar-se” mas, quando as religiões cristãs, têm por base uma conjunto de escritos a que chamam “palavra de deus” não há qualquer espaço de atualização, porque atualizar-se significaria mostrar que a “palavra de deus” se tornou obsoleta.

      • Muito bem lembrado!

  4. Bento Caeiro says:

    Por não saber e procurar como saber, o homem encontrou as crenças e os deuses que o descansaram enquanto não soubesse. Quando, já sabendo, e procurou avançar, muitos daqueles que o queriam dominar, acharam por bem criar as religiões e assim pela culpa, pela castigo, pelo medo e pela força dos seus representantes e aliados – sacerdotes, feiticeiros, forças dominantes e governantes – conseguiram condicioná-lo e dominá-lo.
    É verdade que, com mais conhecimento, o homem tem-se conseguido libertar das crenças e de muitos dos deuses que as suportavam e justificavam; também o conseguiu fazer em relação aos sacerdotes e cleros que diziam representar esses deuses. No entanto, algumas das religiões, pelas crenças e princípios que adoptaram, pelas circunstâncias em que nasceram e pela forma como se desenvolveram e implantaram entre as populações, acabaram por se tornar determinantes para a vida em sociedade – porventura, pessoal – do homem. Entre estas estão as nascidas sob o princípio da culpa e do pecado por algo não praticado (aquelas das crenças hebraicas). Como podemos ver, à luz deste princípio, o homem estaria, para todo o sempre, tramado. E, agora, basta aos sacerdotes, aliados ao poder, afirmar, incrementar e convencer o homem que assim deverá ser para todo o sempre.
    O homem progride, no geral, mas como, no particular – porventura, inseguro -, poderá manter-se igual ou, mesmo, regredir, as religiões e os seus representantes não desistem de o condicionar para tentar manter-lo sob o seu domínio – tal é o caso da reacção islâmica dos últimos decénios e também do clero católico – como é agora o caso.
    Mas uma coisa é certa, esta instituição – igreja católica – e seus princípios, nascida do contra-poder e reforçada pelo poder, continua a mostrar que tem dificuldades em sobreviver e desenvolver-se harmoniosamente sem o amparo do poder. Daí que, numa manifestação de fraqueza – quando deveria sê-lo de franqueza – se apresente como contra-social; defendendo princípios e comportamentos incomportáveis – que mais não são que disparates -, como esta da abstenção sexual.

  5. JgMenos says:

    Lá que se rezasse um terço depois de cada queca, ainda me pareceria terapêutico, assim só me parece estúpido.

    • ZE LOPES says:

      Terço? Ná! Para V. Exa teria de ser um rosário completo. E sexo, só ao som do terço e da benção na Rádio Renascença. Sendo a abstinência obrigatória quando há Liga dos Campeões!

  6. antero seguro says:

    Cristo, já tarda, em vir cá outra vez, expulsar os vendilhões do Templo.

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