Diálogo imaginário com Rodrigo Moita de Deus


Rodrigo Moita de Deus, tal como David Dinis, José Manuel Fernandes e Catarina Carvalho, puxou dos seus galões de “especialista” em Educação e, entre televisão e blogue, veio explicar tudo a todos. Como é habitual no mundo da comunicação social, não dominar um assunto é o primeiro passo para emitir opiniões sobre esse mesmo assunto. Rodrigo Moita de Deus preenche os requisitos.

Assim, resolvi simular um diálogo com o simpático ignorante, resumindo as declarações do programa O Último apaga a luz e aproveitando um texto do 31 da Armada.

 

 

Rodrigo: O PCP soltou Mário Nogueira da jaula em que estava fechado e disse “Ataca, Mário!”

Eu: Ó Rodrigo, tanto chá que o menino bebeu e vai tratar assim um adversário político? É feio, não é? Lá no fundo, o menino sabe que sim. É claro que o menino, para além de deselegante, quer deixar claro que pensa que isto é tudo uma questão partidária e que os professores, no fundo, são uns joguetes nas mãos dos comunas.

Rodrigo: A greve de professores prejudicou milhares de alunos.

Eu: Duas greves de um dia incomodam, com certeza, e o menino sabe que é um exagero falar em prejuízo, mas sempre gostaria que explicasse como é que se faz uma greve sem incomodar ou mesmo prejudicar. Talvez os professores devessem fazer greves só a partir da meia-noite.

Rodrigo: Pois, mas os professores são uma corporação que domina o sistema de ensino.

Eu: Ui, ó menino! A quantidade de gente que já disse isso! Há uns anos, uns amigos seus escreveram um livro e disseram o mesmo, tentando propagar o mito urbano de que os professores, ou os sindicatos dos professores, mandam no ministério da Educação. Deve ser por isso que os professores, tal como muitos outros, tiveram carreiras congeladas e salários cortados. Deve ser graças a esse poder que os muitos avisos acerca de questões curriculares e administrativas são completamente desprezados, como, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma ou a criação de mega-agrupamentos ou a municipalização (deveria dizer-se caciquização) das escolas.

Rodrigo: Mas quando discutimos Educação, só falamos dos professores.

Eu: Não é bem assim. É outra coisa; o Rodrigo é que só discute Educação, quando os professores reclamam. Pode ser distracção minha, mas não conheço a sua opinião sobre muitos dos problemas que afectam a vida das escolas ou dos alunos.

Rodrigo: A verdade é temos escolas novas, com boas condições.

Eu: A qualidade das instalações escolares deveria ter sido avaliada caso a caso, mas José Sócrates preferiu a festa da Parque Escolar, uma festa que serviu para que dinheiros públicos caíssem nas mãos de privados, com consequências perniciosas ainda hoje nos orçamentos das escolas, nomeadamente no que se refere aos gastos energéticos.

Rodrigo: De qualquer modo, temos um professor para cada 11 alunos.

Eu: Os meninos ignorantes, como o Rodrigo, gostam muito do célebre ratio professor/alunos, como se um dado bruto como esse quisesse dizer alguma coisa. Faz tanto sentido como dizer que uma turma com trinta alunos e seis professores dá cinco alunos por cada professor, quando o problema está no facto de que os trinta alunos estão presentes em todas as disciplinas.

Rodrigo: Os resultados são miseráveis.

Eu: Permita-me que cite o seu texto: “O que disse sobre a questão do ensino não é uma opinião. Não é um acho. Os resultados dos alunos nas escolas públicas são miseráveis. Ponto.” Ó Rodrigo, o menino até pode estar cheio de razão, mas um adjectivo como “miseráveis” configura uma opinião, um “acho”. Curiosamente, os resultados de testes internacionais têm revelado uma evolução consistente. Até o seu amigo José Manuel Fernandes escreveu que houve “uma evolução muito positiva dos nossos jovens nos rankings internacionais que medem as suas aptidões a Matemática ou no uso da língua materna”, mesmo não aceitando que os professores tenham desempenhado algum papel nisso. Seja como for, combine lá com o seu companheiro do Observador se os resultados são miseráveis ou se houve uma evolução muito positiva, que uma pessoa, às vezes, não percebe a direita. De qualquer modo, penso que percebi: se os resultados forem miseráveis, a culpa é dos professores; as melhorias, se as houve, ocorreram apesar dos professores.

Rodrigo: Imagine-se que até há aulas para explicarem aulas.

Eu: Aqui, ó Rodrigo, tenho de confessar que o menino me apanhou de surpresa. É a primeira vez, em trinta anos de serviço, que ouvi falar destas aulas. Estou tão confuso que estou a pensar pedir que alguém, na minha escola, me venha explicar as aulas que eu dou, que já não vou para novo. Talvez o Rodrigo esteja a referir-se a aulas de apoio ou a salas de estudo, em que os alunos com mais dificuldades possam ser apoiados, mecanismos, aliás, que poderiam existir em maior número, se as escolas não tivessem cada vez menos créditos de horas. Seria isto, Rodrigo? Vá lá informar-se melhor. Ou informar-se, pronto!

Rodrigo: Agora, há a figura do explicador, os professores recomendam que os alunos vão à explicação, todos os meninos vão à explicação.

Eu: O Rodrigo é um comediante com tanto jeito que até o Joaquim Vieira, que, pelo menos, reconhece que não percebe nada de Educação, ficou convencido de que o Rodrigo sabia do que estava a falar. Uma pessoa mais desprevenida, lá em casa, diante da gravatinha do Rodrigo, até pode pensar “Tu queres ver que a escola tem o explicador e explicações e o puto não me disse nada? Já vais apanhar!”

Rodrigo: Há escolas em que não há dinheiro para resmas de papel ou para papel higiénico. Para onde é que vão os meus impostos? Para os salários dos professores e para a recuperação da carreira.

Eu: Quer dizer: partindo do princípio de que os salários e os gastos com papel (higiénico ou não) podem sair das mesmas rubricas, vivemos num país que tem de optar entre pagar aos professores ou ter papel higiénico. Às escolas tem sido retirado dinheiro que não falta nos bancos, nas parcerias público-privadas e em muitas privatizações que continuam a onerar o Estado, mas a culpa, claro, e mais uma vez, é dos professores. A conversa dos “meus impostos” é muito usada pelos meninos como o Rodrigo, como se os professores não pagassem impostos e se limitassem a sugar os dos outros, autênticos vampiros fiscais.

Rodrigo: Quem tem dinheiro põe os filhos nos privados, porque não está para aturar greves sucessivas, não está para aturar resultados miseráveis.

Eu: Ai, Rodrigo, Rodrigo, greves sucessivas, menino? Nada exagerado, pois não? Dos resultados miseráveis já falámos há bocadinho. A carta que o Rodrigo escreve aos professores indignados das redes sociais é uma confirmação da sua ignorância e da sua raivinha a quem reivindica direitos.

É fácil, não é? A responsabilidade de tudo o que está mal na Educação é dos professores. Os vários governos foram absolutamente virtuosos e não retiraram progressivamente condições de trabalho aos professores. Os professores nunca chamaram a atenção para muitos outros problemas que vão muito além dos seus problemas laborais. Atenção, Rodrigo, estava a fazer uso da ironia.

Tanto haveria para comentar, mas o Rodrigo tem muito sono, eu sei. Limito-me a dizer o seguinte: quando vou a um hospital, por exemplo, parto do princípio de que a esmagadora maioria dos médicos é competente. Caso contrário, viveria em terror constante. Fazendo um paralelismo com um princípio legal, acredito, aliás, que qualquer profissional é competente até prova em contrário. O Rodrigo, no entanto, tão bem informado acerca das aulas para explicar aulas e da figura do explicador, sabe que os bons professores são uma excepção. É muita sabedoria, muita areia para a minha camioneta já com trinta anos de muitas escolas e alunos e colegas e cargos e níveis de ensino.

Uma das provas da superioridade da democracia consiste em permitir que até os ignorantes se sintam no direito de exprimir opiniões. O Rodrigo é um produto da nossa democracia e defenderei o seu direito a não saber do que fala. Fico, ainda, contente por saber que os meus impostos servem para pagar a sua terapia ocupacional na televisão pública, porque sociedade é solidariedade. Até à próxima.

Comments

  1. ZE LOPES says:

    O Rodrigo tem um problema que atinge todas as famílias ilustres e monárquicas: a falta de lógica dos apelidos! Francamente: o que é que faz Deus atrás da moita?

    • António Fernando Nabais says:

      Ora essa: Deus está em todo o lado. Por maioria de razão, está também atrás da moita.

      • ZE LOPES says:

        Tenho de concordar! Também deve estar. Quanto mais não seja, por modéstia.

      • www.ruptura vizela.blogs.sapo.pt says:

        Os comentários do RMD “no último apaga a luz” fica atrás do Joaquim Vieira (não é grande pistola) generalidades sobre superficialidades, conversa de café.

  2. Rui Naldinho says:

    No pretérito ano 2016 e uma boa parte do corrente ano, os ideólogos e escribas desta direita cada vez mais burra, clamavam por Mário Nogueira, como quem apela à Virgem por chuva, criticando o comedimento do PCP face às reivindicações dos professores, por exemplo. Achavam que o atual governo não tinha direito a um minuto que fosse de paz social, pois o mesmo não tinha acontecido com o de Passos Coelho. Esqueciam-se propositadamente que este governo contrariamente ao anterior, tinha começado por estancar a hemorragia. Como é óbvio até para um cego, em tudo era diferente.
    Hoje, abertas as hostilidades entre a FenProf e o Governo, pela integração de professores nos quadros, pela reposição das carreiras num lugar que ao menos não lhes fruste completamente as expectativas, os mesmos opinadores atiram-se ao Mário Nogueira. Só e apenas por ter sido sempre o mesmo tipo de pessoa. Um sindicalista. Uma espécie de Bruno de Carvalho do sindicalismo, mas que não se deixa embarcar em malabarismos vários, muito comum na acçao .
    Talvez se pegassem para o debate, na hipocrisia de outros sindicatos associados ao PS e PSD, que no passado jamais ousaram lutar pelos seus direitos, prestassem sim, um contributo maior.
    E resumo, gosto de ver estes especialistas em nada a dissertar sobre todo e qualquer tema, a fundo, como se para eles houvesse um estatuto pré definido que os iluminasse nas suas análises enviesadas. Podiam ficar-se por umas generalidades, mas não. Enterram-se na lama que eles próprios vão babando, até já ninguém lhes dar crédito. O seu “género literário” preferido não é a luta de classes, entre ricos e pobres, entre o bem e o mal, o crente e o pagão, o lucro e o prejuízo, entre o culto e o inculto, mas mais entre o público e o privado. Eu diria mais, entre aqueles trabalham diretamente na dependência do Estado, e aqueles que trabalham maioria das vezes, indiretamente na dependência das benesses que esse mesmo Estado vai facultando para que eles consigam viver.
    O problema deles nunca foi a qualidade da escola, nunca foi o sucesso do aluno, nem nunca foi o bem comum. O problema deles foi sempre o desprezo pelo trabalho dos outros. E se for pago condignamente, pior ainda.

  3. Excelente António. Obrigado pela tertúlia. Aguardemos o comentário do “André do Insurgente”, quer dizer do jgmenos. 😀

  4. Isabel Castro says:

    Palmas, palmas e mais palmas! Belíssimo texto. É por professores assim que tenho orgulho em também eu ser professora! Parabéns, António Fernando Nabais!

    • Isabel Castro says:

      Não conheço o percurso académico deste “senhor”, mas gostava! Quase aposto que nunca frequentou uma escola pública, porém enche-se de autoridade para falar do que não conhece. Deve fazer parte daqueles que mal acabaram os cursinhos tinham um lugar à espera e um ordenado chorudo. Tal e qual como acontece com os professores da escola pública…! Deus lhe valha, que ele não sabe nem o que diz nem o que faz!

  5. Mário Martins says:

    – Parabéns, Nabais!

  6. paula says:

    O sr. Rodrigo Moita de Deus, devia pensar antes de falar sobre assuntos que desconhece. Tanta revolta numa pessoa que pensa que muito sabe. Devia voltar à escola publica nas duas condições: como aluno e como professor. Como não tem habilitação como professor, terá que ser como aluno e aprender os significados de idiota e ûtil.

  7. Sr. Rodrigo Moita de Deus, para que não volte a fazer figura de idiota muito bem pago e miserável nada útil, recomendava-lhe explicações de Matemática, até perceber que o número total de alunos a dividir pelo número total de professores não lhe permite perceber quantos alunos diferentes um professor terá, nem quantos alunos existem em média em cada sala de aula.
    Estou disponível para lhe explicar ,gratuitamente e com uma linguagem muito simples o significado de «um professor para cada 11 alunos» ,
    Tal como o sr que não percebe de números, eu também não percebo de psicologia ou psiquiatria, pelo que fica-me fácil concluir que deve ter tido um grande trauma, ainda por ultrapassar, com alguns dos seus professores.
    Fico a aguardar que use a mesma tónica e o mesmo meio de comunicação para assumir o seu erro.
    E já agora, concordando consigo na necessidade de maior exigência, se o sr. fosse responsável pelas contratações da RTP não concorda que deveria excluir um comentador que alarve tamanhas enormidades? Melhor seria que o Sr. concluísse sozinho que deveria ir pregar para outra freguesia…

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