O seu pai era duas pessoas

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

                                                     Alberto Caeiro

Confesso que não tenho problemas com humor. Quando se trata de rir, não tenho nada sagrado. Consigo rir até daquilo que me revolta: acho imensa piada a Sócrates, a Passos Coelho e até a Cavaco Silva, por exemplo, mesmo sabendo que são três dos grandes problemas do país.

O cartaz do Bloco de Esquerda está a dar que falar e ainda bem, que a vida não pode ser só foras-de-jogo mal assinalados ou penalties por marcar. A piada sobre a dupla paternidade de Jesus não é das piores, mas já vi melhores. No que respeita a humor sobre Cristo ou sobre religião, é difícil sequer alguém aproximar-se de  A Vida de Brian ou do poema de Caeiro de que retirei um excerto para servir de epígrafe a este texto.

Felizmente, vivemos num país em que a liberdade de expressão ainda vai reinando, o que permitiu a muitos comentar o cartaz. Bom sinal.

Se Deus existir e se Jesus for seu filho, estaremos na presença de seres tão poderosos e tão infinitamente misericordiosos que se limitarão, no máximo, a encolher os ombros e a sorrir, diante de qualquer piada sobre as suas próprias pessoas ou entidades. A heresia é uma invenção humana. Como agnóstico, digo mais: se a heresia tiver origem divina, Deus até pode existir, mas, por causa disso, nunca acreditarei n’Ele. Não me espantaria, aliás, que, a haver um Juízo Final, Jesus aparecesse a chicotear todos aqueles que se serviram do seu nome ao longo dos séculos para infernizar a vida de multidões de desgraçados.

mota_soaresDo ponto de vista do marketing, talvez seja má ideia um partido correr o risco de perder eleitores, num país tão católico, mesmo que pouco praticante. Se este cartaz é pouco cristão, que cristianismo existe em permitir ou incentivar a exploração de seres humanos? Se tiver de optar entre um cartaz herético e um governo demoníaco que se benza, venha o cartaz, porque é o segundo que me ofende.

A conferência episcopal mostrou-se indignada, porque se preocupa mais com cartazes do que com governos, porque o manso e o calado são os melhores. No Observador, o extraordinário padre Portocarrero exerce o seu direito à liberdade de expressão, criticando o exercício de liberdade de expressão do Bloco de Esquerda, acusando o partido de tentar coarctar a liberdade de expressão, chegando ao ponto de inserir este cartaz num longo historial de perseguição aos cristãos, que, como se sabe, nunca perseguiram ninguém.

Em conclusão, e roubando uma expressão aos adolescentes de hoje: menos!

Comments

  1. Konigvs says:

    De facto o cartaz está errado. Jesus teve não teve dois pais. Vou fazer um desenho. Há a Santíssima Trindade certo? São três em um: Deus, o BES & Filho. Se Jesus também é Deus, como o BES também é Deus, então Jesus também é Deus e consequentemente pai.
    Concluindo, Jesus é filho do carpinteiro, filho do BES que emprenhou a Maria pelos ouvidos, (e que desde o século 19 deixou de ser mulher e passou a ser uma extra-terrestre que engravidou, teve um filho e continuou virgem) e ainda é filho de Deus, ou seja, filho de si mesmo.
    Jesus não teve dois, teve sim três pais.

    Quanto às técnicas de vendas, não é preciso fazer um curso superior, nem mesmo entrar para um rancho folclórico e pedir equivalência numa qualquer universidade fantasma para saber que toda a publicidade é boa. Ser falado é bom, toda a polémica é boa, todo o tempo de antena (muito caro hoje em dia para os partidos de esquerda) é bom, mesmo quando (aparentemente) não é pelos melhores motivos.

    Venham mais cartazes. Desde os tempos do PSR em que o Louça atirava bosta ao Le Pen que os cartazes do Bloco têm andado fraquinhos.

    Por último. – Aventar: Não éramos todos Charlie?

  2. Luis Manata says:

    Este poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) foi escrito em 1914 e que se saiba não houve polémica. Logo a seguir ao que foi transcrito no post vem a parte que diz que Maria foi barriga de aluguer (Maria foi a mala de transporte). Agora no sec XXI e depois de andar quase tudo por aí a clamar :”Je luis Charlie” é que fica quase tudo ofendido? Vão-se fo—-er. Eu fico lixado é que a malta do bloco agora quase que vem pedir desculpa, até a gaja que queria ser presidente da república. Parece-me que já se estão a acomodar. Afinal parece que é verdade que o poder corrompe.

  3. atento às cenas says:

    a parte mais triste desta alegre história foi o pedido de desculpas do be

    • Konigvs says:

      Concordo. É uma desilusão quererem ser provocadores e depois não assumirem a provocação, e pior, ainda virem pedir desculpa! Ainda por cima quando o cartaz não diz mentira nenhuma. E não é bom sinal quando se fala consoante o sabor dos “(des)gostos” das redes sociais.
      O BE desenhou o Maomé, alegou liberdade de expressão, mas depois já vem dizer que foi longe de mais e que o respeitinho é muito bonito. Que vergonha.
      Ainda bem que perderam o meu voto nas últimas legislativas, se não hoje ia pegar no cilício e bater até fazer sangue.