Circo a mais, pão a menos

[Santana Castilho]


A 22 e 23 de Março, sob organização conjunta da OCDE, do nosso ministério da Educação e da Internacional da Educação, reuniram-se em Lisboa governantes e sindicalistas de cerca de 30 países. A cimeira (assim foi apodado o encontro)  quis apurar o que fazer para que os professores se sintam bem no trabalho. Como se tal não estivesse, há muito, sobejamente identificado. 

A propósito do acontecimento, Tiago Brandão Rodrigues afirmou ser “a ocasião para levar mais longe o nosso empenhamento com os co-autores das nossas políticas de educação, os professores”. Como se os professores fossem autores de políticas de que discordam e não simples executores, obviamente coagidos.

Num comunicado recentemente tornado público, professores socialistas exprimiram perplexidade perante o comportamento do Governo no actual contencioso com os sindicatos, comportamento esse que, afirmaram, não teve em conta “a necessidade do PS recompor as relações do Governo com os professores portugueses, depois de anos de ataque” aos mesmos. Estes professores referiram que o Governo não honrou o compromisso assinado em 18 de Novembro de 2017 e lembraram a resolução nº1/2018, aprovada na AR pelo PS, BE, PCP e PEV, que lhe recomendou a contabilização de todo o tempo de serviço. Mas o patusco Tiago não ouviu.

Também a propósito do acontecimento, Andreas Schleicher, Diretor de Educação da OCDE, disse que Portugal constituía “um excelente exemplo de como os sistemas escolares podem progredir rapidamente para resultados educacionais melhores e mais equitativos, investindo nos seus professores”. É preciso não ter vergonha para dizer isto, depois de dois governos consecutivos que mais não fizeram que desinvestir e malhar nos professores e sentado ao lado de um ministro que lhes quer agora amputar das carreiras uma década de trabalho efectivamente prestado.

Nos últimos anos, nas suas habituais análises aos sistemas educativos, a OCDE começou a estabelecer conexões entre os resultados dos alunos e o bem-estar dos professores. No seu último inquérito sobre o tema, de 2013, Teaching and Learning International Survey, só 10% dos professores portugueses consideravam que a profissão era valorizada pela sociedade em geral. Mais recentemente, em 2016, a Fundação Manuel Leão apurou, também em inquérito, números preocupantes: um terço dos inquiridos deixaria de dar aulas, se pudesse; 35%, falando da sua relação com o trabalho, disseram-se exaustos e desesperados; 60% afirmaram que a desmotivação dos alunos cresceu. Igualmente em 2016, o oficial “Perfil do Docente” mostrou que 39,5% dos professores das escolas públicas tinham mais de 50 anos e só 1,4% estavam abaixo dos 30. A tudo isto acresce que 30% dos docentes portugueses são considerados sob burnout, devido à desmotivação e indisciplina dos alunos, à desconsideração profissional por parte do poder político e da sociedade em geral e ao agravamento das condições de trabalho, designadamente o elevado número de alunos por turma, o excesso de carga horária, a pressão para a obtenção de resultados a qualquer preço e o acumular de tarefas burocráticas sem sentido. Mas o distraído Andreas Schleicher disse o que disse. Porque não importa o pão, desde que se alimente o circo.

A diplomacia (ou a hipocrisia politicamente recomendável) a que os protocolos obrigam não chega para justificar o sorriso cúmplice e inapropriado exibido durante a cimeira pelo sindicalista que, na véspera, disse do Governo o que Maomé não disse do toucinho. Muito menos deixou bem o ministro anfitrião, que se comportou do mesmo modo, quando acabou de negar um regime especial de aposentação aos professores e lhes quer reduzir a dois dez anos de trabalho efectivo.

E lá ficaram, da cimeira em análise, mais três compromissos para cumprir o ritual das inutilidades hipócritas. Três compromissos (apoio às comunidades desfavorecidas, mais investimento e mais autonomia para as escolas e para os professores) que sim, se fossem cumpridos, mudariam muito. Mas que não, nada mudarão, porque apenas alimentam o circo, mas não dão pão.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    Circo a mais, pão a menos.
    Como os professores saberão, alguns saberão, outros não e outros não estarão para aí virados, Pão e Circo, porquanto atitude normalizada a que o povo romano foi conduzido pelos poderes que assim os queriam manter, ditaram o fim da grandeza de Roma.
    Pelo que, se a atitude dos professores for apenas aquela que a frase indicia – Pão e Circo – e que algumas forças políticas, pelos mesmos motivos dos poderes romanos, agora defendem – tal como o PCP – então também não dou muito pela vossa causa. Aliás se muito do que se passa já não é culpa pessoal de muitos professores que por aí andam, o certo é que a situação em que se encontram, para além das políticas em vigor nas últimas décadas, é grandemente vossa culpa.
    Sobre isto e pela vossa atitude de mais Pão e Circo, parece-me que estarão a receber o que pediram. Por quê agora as queixas?

    • António Fernando Nabais says:

      Vai desculpar-me, mas, sinceramente, não percebi: a culpa é dos professores, do PCP, dos dois?

      • Bento Caeiro says:

        “Pelo que, se a atitude dos professores for apenas aquela que a frase indicia – Pão e Circo – e que algumas forças políticas, pelos mesmos motivos dos poderes romanos, agora defendem – tal como o PCP – então também não dou muito pela vossa causa.”

        Em termos de mentalidade e de atitude política – de todas as profissões e formações políticas que acham e promovem o princípio de que ao Estado cabe tudo e que para obter basta exigir – assim procedem os professores e, obviamente, o PCP à cata do voto. Não esquecendo o funcionalismo público.
        Basta atentar nos cartazes por aí espalhados pelo PCP para perceber que o seu ideal seria mesmo uma política e atitude de “Pão e Circo”, à custa do Estado.
        Mas também os sucessivos governos não ficam isentos de culpa por toda esta situação, com a política de ensino e para o ensino que têm vindo a promover.

        • Paulo Marques says:

          Para mim, parece-me que a culpa é de quem aceita acéfalamente que o dinheiro existe para financiar capitalistas e não para criar riqueza. Agora ficam sem estado todos contentes.

          • Bento Caeiro says:

            Financeiros e despesa pública. Duas atitudes, duas ideologias, dois comportamentos políticos com os seus defensores, mas uma mesma finalidade: parasitar, vivendo à sombra e à custa do Estado, em detrimento da criação de riqueza.

          • Paulo Marques says:

            A educação, que é muito mais que debitar slides durante uma hora, não cria riqueza agora?

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