A fortuna de Evo Morales e outros crimes sem importância

Há pouco mais de uma semana, um dos temas quentes na imprensa portuguesa foi o estratosférico saldo bancário acumulado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, que passou de 21.276 mil dólares, em 2006, ano em que foi eleito pela primeira vez, para os actuais 58.681. Apesar de não faltarem em Portugal presidentes de junta que em menos de um ano desviam bem mais do que esse valor, através de ajustes directos para família, amigos e esquemas que revertem para os próprios ou para futuras campanhas, às claras e perante o silêncio generalizado da esmagadora maioria da população, a fortuna de Evo Morales foi por cá motivo de grandes discussões filosóficas e linchamentos virtuais que duraram vários dias.

Mais discreta tem sido a cobertura do julgamento do director de campanha de Donald Trump nas presidenciais de 2016, Paul Manafort. A informação na imprensa nacional é tão escassa que quase não damos por ela. Segundo a Business Insider, Manafort, que desempenhou um papel central na eleição de Trump, enfrenta 18 acusações que incluem os crimes de evasão fiscal, fraude fiscal e fraude bancária. E estas são apenas as acusações que estão actualmente a ser julgadas, uma vez que existem 12 outras acusações, entre elas branqueamento de capitais, que começarão a ser julgadas no Outono.

Com boas relações em Washington, onde desde cedo se dedicou ao negócio obscuro do lobby, Manafort tem no currículo serviços de assessoria política prestados a ditadores tão distintos como Mobutu ou Ferdinand Marcos, famosos pelos seus regimes marcados pela brutalidade e pela corrupção, o que ajuda a explicar o que Trump viu nele. Em 2004, Manafort tornou-se um dos principais conselheiros do antigo presidente ucraniano Yanukovych, próximo do Kremlin, que em 2014 reprimiu violentamente uma manifestação em Kiev, onde morreram 53 pessoas. Manafort era ainda seu conselheiro em Fevereiro, quando Yanokovych ordenou o massacre de Kiev. Numa série de mensagens de texto trocadas pelas filhas de Manafort, despejadas na darkweb após o telefone de uma delas ter sido alvo de piratas informáticos, Andrea Manafort terá dito à irmã que (tradução minha) “o dinheiro que temos está manchado de sangue”.

As ligações à Federação Russa, porém, não ficam por aqui. Entre dívidas astronómicas a oligarcas ligados ao Kremlin, existentes à data em que começou a trabalhar na campanha de Donald Trump, e um contrato anual de 10 milhões de dólares firmado com Oleg Deripaska, um magnata próximo de Vladimir Putin, a Associated Press revela que, em 2005, Manafort foi responsável pela elaboração de um plano para influenciar política, negócios e cobertura mediática nos EUA e na Europa, no sentido de favorecer o governo russo.

Na semana passada entrou em cena Rick Gates, outrora braço-direito de Manafort. Em tribunal, Gates confessou ter cometido e ajudado Paul Manafort a cometer vários crimes de fraude bancária, evasão fiscal e ocultação de contas bancárias em paraísos fiscais. Confessou inclusive ter roubado o próprio Manafort, o que diz muito sobre os mercenários que gravitam em torno desta administração. Não admira, portanto, que em 2017, já depois de Manafort ter sido afastado da campanha de Donald Trump, Rick Gates tenha recebido dezenas de milhares de dólares de entidades próximas do presidente norte-americano, para aconselhar a nova administração.

O julgamento de Manafort e o testemunho de Gates são agora centrais na investigação à interferência russa nas eleições americanas de 2016, liderada por Robert Mueller. Uma investigação que, apesar das tentativas de obstrução à justiça, protagonizadas por Donald Trump, continua a apertar o cerco ao presidente dos EUA e respectiva entourage. O conluio, que começou por ser veementemente negado, para hoje assistirmos a um volte-face bizarro, com a rede de propaganda desenhada para manter a administração a salvo do seu presidente a afirmar agora que o conluio poderá ter acontecido, mas que não é crime, é cada vez mais evidente. A reunião entre o filho de Trump e representantes do governo russo, também veementemente negada, não só aconteceu como teve direito a reunião preparatória, algo que não era do conhecimento público, mas que o entertainer Rudy Giuliani fez questão de revelar. Mas nada disto importa. Qual mal tem se o líder da superpotência mundial se rodeia da mais reles escumalha criminosa ou conspira com representantes de uma ditadura para manipular o processo eleitoral? E que importância mediática tem isso? Escandaloso é ver um perigoso esquerdalho, como Evo Morales, ser dono de uma fortuna de 58.681 mil dólares. Mais 12 anos e talvez consiga subornar uma actriz porno.

Comments

  1. JgMenos says:

    «Evo Morales é “o primeiro presidente do mundo” a publicar as suas contas de forma voluntária na internet, segundo a Unidade de Investigações Financeiras da Bolívia»

    Porque só sobra a vitimização como substituto de sucessos, tudo serve para para o choradinho esquerdalho.

    • Paulo Marques says:

      O sucesso é fácil, basta ter um pai rico.

      • ZE LOPES says:

        Um pai, ou uma mãe. tenha cuidado Paulo, de outro modo sujeita-se a que a dupla Almeida & Menos, Caçadores de Hipócritas Lda. lhe venha exigir a devida coerência.

    • ZE LOPES says:

      Eis JgMenos a cantar o conhecido “Fado do Trolla”. Não há nada de mais comovente ao cimo da terra, meu deus!

  2. JgMenos says:

    «desde cedo se dedicou ao negócio obscuro do lobby»

    A alternativa à passeata, a palavra substituindo o grito, o emissário substituindo a malta costumeira…muito obscuro!

    • Paulo Marques says:

      Se é por baixo da mesa, é às claras, como a Tecnoforma.

      • O tribunal de Coimbra disse que estava tudo bem, mesmo que a União Europeia diga o contrário não interessa, as decisões da jurisprudência de Coimbra são divinas, olhem o respeitinho que é muito bonitinho.

  3. JgMenos says:

    E se Manafort/Trump merecem tudo o que vem dito, partir daí para exaltar a modéstia (na conta que mostrou:::) do Evo é … não havia necessidade!

  4. Quem é de esquerda tem de fazer voto de castidade e de jejum, mesmo que Morales tenha sido os elevados princípios morais do poupadinho e de pensar no futuro de uma direita retograda que se veste de moralidade e superioridade. A notícia é digna de um órgão de propaganda de direita, o jornalista a soldo poderia fazer um pesquisa de 5 minutos e feito umas contas (nada de complicado). Sem tomar em conta variações históricas, que as houve mas é mais complicado de saber quais foram, aqui vai. O salário anual do presidente na Bolivia é cerca de 35 000 Euros, https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_salaries_of_heads_of_state_and_government (câmbio de hoje e valor do salário pode ter variado), o que dá cerca de 2900 Euros/mÊs (nºao pretendo ser rigoroso apenas aproximado, os “juristas” que pupulam em Portugal tirem já o cavalinho da chuva). O total poupado ao longo dos anos foi de 37045, o que dá assumindo 11 anos completos cerca de 130 Euros/mês. Ora, o homem parece poupar em média menos de 5%, digamos menos de 10% do salário pois deve ter sido menor o salário no passado. Não sei as despesas dele, mas estou a ver mais potencial de crítica por aqui, parece-me um bocado esbanjador. Mas era preciso contas, e neste país de boyzada e juristas foleiros isso é considerado demasiado avançado, deve ser assim que se ensina na Universidade de Coimbra. A minha análise vale o que vale, mas suporta a mensagem implicita da notícia, que Morales é um esbanjador….

  5. Manuel Lopes says:

    Presidentes de junta que embolsam mais do que Evo Morales? Não fala bobagem… Essa só mesmo para os incautos inocentes.

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