Postais da Raia #3 e #4 (Sabugal e arredores)

«Ah, mas onde é que estão as aldeias todas?»*

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E podia ficar-me apenas por aqui, para resumir os últimos dois (mesmo três) dias. Não é que as aldeias não existam, mas a verdade é que estas aldeias (as históricas e as outras) não existem, ou já quase não existem. As razões são múltiplas, escrevi-o antes de antes de ontem e variam entre o abandono e a ruína e a transformação noutra coisa qualquer.

Conheço, mas não visito desde há mais de 20 anos, as aldeias que fazem parte da Rede de Aldeias Históricas de Portugal (RAHP). Muito mudou no aspeto destes territórios nestes anos todos, é verdade, mas o que encontro hoje,além desse ar lavado e enfeitado, continua a ser apenas abandono. Só em Sortelha se viram mais alguns visitantes. Em Castelo Rodrigo, Castelo Mendo e mesmo Almeida (as aldeias da RAHP que visitei até agora desta vez), nem visitantes, nem locais quase nenhuns. É estranho, ou talvez não seja, ter uma aldeia inteira, vazia, silenciosa, arranjada à nossa espera e aparentemente só para nós. É estranho que numa ou noutra, as pequenas lojas de artesanato, todas semelhantes, vendam as mesmas coisas e que essas coisas não sejam locais. Sabonetes de Torres Vedras, mel de Trás-os-Montes, meias de lã da China. É estranho que o desenvolvimento do turismo não tenha trazido turistas e não tenha contribuído para a promoção dos produtos locais. Ou talvez não seja, que há muitas maneiras de ver e, principalmente, de resistir.

As aldeias históricas de Portugal, assim como algumas das outras que não têm esse ‘selo de qualidade e genuinidade’, parecem-se, então, muito umas com as outras. As mesmas flores, as mesmas lojas, os mesmos produtos e, em algumas delas, ía jurar – exagerando, evidentemente – os mesmos castelos, os mesmos pelourinhos, as mesmas recuperações e regenerações de uns e de outros. Os mesmos anúncios das mesmas festas, mesmo que os santos sejam outros. Os mesmos carros com matrícula da île de France e as mesmas pessoas falando uma língua nova que mistura o português com o francês . Faltava apenas a estas aldeias (principalmente as da RAHP) terem portões e horários de visita para se assemelharem a parques temáticos onde os turistas vêm para ver os nativos e os seus costumes. Mas turistas, pelo menos nesta altura do ano, nem vê-los.

Há nestas aldeias (e algumas vilas), nestas que não foram abandonadas ainda, nestas que foram recuperadas, alindadas e – como já o disse antes – higienizadas – uma beleza evidente e isso é louvável, penso eu, esse arranjo e esse cuidado. Mas também há, naquelas outras que não têm qualquer selo ou marca que as torne um pouco mais atraentes, nas arruinadas e sem expectativa de recuperação, outra beleza, se calhar mais triste porque nos lembra o nosso passado de uma forma mais dura, mais bruta, sem os filtros da recriação e da encenação histórica, cultural e socioeconómica. Num caso e noutro, é cada vez mais evidente que estes territórios não existem já a não ser na nossa imaginação.

*parte da letra de O Ladrão, dos Madredeus – https://www.youtube.com/watch?v=uRjpldj1VLU
(Cró, 12 de agosto de 2018)

Comments


  1. ´Renovo as minhas felicitações à sua peregrinação que partilha connosco por este belo Portugal quase esquecido de rotas habituais de lazer de pessoas que preferem viajar por longes terras estrangeiras ou praias sempre as mesmas algarvices. e ás sua belas imagens sacadas por quem tem sensibilidade e cultura.
    Estranho que já anteriormente enviei os meus comentários positivos aos seus ” Postais da Raia” e não aparecem nas cx de comentários dos seus post, algo se passa de errado com o Aventar ?

  2. Elisabete Figueiredo says:

    Muito obrigada, Isabela. Eu também gosto de viajar para terras estrangeiras (e há para aí postais dessas viagens também). Eu vi os seus comentários no postal anterior, creio… acho que está tudo bem com a caixa de comentários do Aventar. Já lhe respondo num deles, para ver, sim?


  3. O K !

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