Antes Cristas que Bolsonaro

O título deste texto é inspirado num comentário escrito no facebook por um amigo meu que é comunista dos sete costados, numa polémica em que desafia um centrista a pronunciar-se sobre a opinião de Assunção Cristas.

A líder do CDS, instada a escolher entre Bolsonaro e Haddad, numa hipotética situação em que seria eleitora brasileira, declarou que votaria em branco (na verdade, declarou que não votaria), colocando ambos os candidatos no mesmo nível, quando se sabe que Bolsonaro defende abertamente a ditadura, com direito a tortura, censura e outros mimos, elogiando, pelo meio, Brilhante Ustra. Haddad, independentemente de todos os defeitos ou erros do PT, faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo.

O argumento usado para não votar em Haddad é extraordinário: “A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura.” É extraordinário porque admite que ainda não se chegou à ditadura. Entre um que não admite senão a ditadura e outro que ainda não chegou à ditadura, Cristas encolhe os ombros.

Entretanto, não defendendo a corrupção, o salto que chega daí à ditadura é um vazio argumentativo. Por outro lado, tenta deixar, implicitamente, a ideia de que a corrupção, no Brasil, é toda de esquerda.

Na verdade, Assunção Cristas, ao colocar ao mesmo nível dois candidatos tão diversos, põe-se ao lado da ditadura, mas terá vergonha de o confessar. As redes sociais, no entanto, estão cheias de gente declaradamente saudosa de Salazar e que suspira por bolsonaros, gentinha perigosa que mina a democracia muito mais do que a corrupção.

 

Comments

  1. Manuel Silva says:

    De um cartaz numa manifestação no Brasil (publicado pelo Jornal de Letras):

    «A formiga, com raiva da barata, votou no insecticida.
    E todo mundo morreu.
    Inclusive o grilo, que se absteve no voto.

  2. Virgílio says:
    • António Fernando Nabais says:

      A nova narrativa simplória que tenta explicar o renascimento da extrema-direita consiste em atribuir as culpas todas à esquerda. Por outro lado, a democracia não nos impede de criticar a maioria ou os que forem eleitos por maioria. A democracia está em perigo no Brasil, porque a maioria está pronta a eleger o Bolsonaro.

      • ZE LOPES says:

        “A nova narrativa simplória que tenta explicar o renascimento da extrema-direita consiste em atribuir as culpas todas à esquerda”.

        Ora, nem mais António! Já viu que dissemos o mesmo praticamente à mesma hora? Depois há quem não acredite em telepatia!

    • Manuel Silva says:

      Virgílio:
      Ao deixar o link presumo que goste do seu conteúdo.
      Se estiver certo, acho estranho que concorde com afirmações do autor do texto sobre Lula, que a sua prática de 10 anos como presidente, mais os da Dilma não confirmaram, mas não esteja preocupado com as afirmações racistas, extremistas, fascistóides do Bolsonazi.
      É curioso.

  3. Luís Lavoura says:

    Este argumento, de que a corrupção conduz à ditadura, é verdadeiramente extraordinário.
    Eu pensava que a Cristas possuía um mínimo de inteligência. Desengano-me.

  4. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Retiro do seu texto:
    (…) faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo (…)

    Tem mesmo a certeza disto ou está só a ser simpático?
    A democracia de Cristas é igual à de Cavaco, ou Passos Coelho ou Manuela Ferreira Leite que entendeu a certa altura que a dita democracia deveria ter um interregno …
    Esta gente é perigosa …
    De resto o problema do Brasil é o mesmo de Portugal. Uma justiça que não funciona, porque está completamente politizada. Todos o sabemos e Cristas, melhor que ninguém. Mandar “postas de pescada” sobre o Brasil, no caso de Cristas, faz-me lembrar a história da pimenta no cu dos outros …

    • António Fernando Nabais says:

      O exercício da democracia não livra ninguém de pulsões autoritárias. Se me pergunta se penso que Cristas, Cavaco ou Passos têm uma tendência ditatorial, um fascistazinho mal adormecido no interior, responde-lhe que sim, mas, até hoje, independentemente de tudo, respeitaram (ou o sistema obrigou-os a respeitar ou a fazer de conta que respeitam) o jogo democrático, por muitas perversões que existam, a começar pela ineficiência da Justiça. A política, no entanto, é a arte do possível (já não sei quem disse isto), o que me leva sempre a votar no mal menor, já que o ideal não existe. Aqui, em Portugal, felizmente, posso votar à esquerda, com o objectivo de, pelo menos, condicionar a deriva direitista do PS. Se tivesse de escolher (e espero que nunca me aconteça) entre Cristas e Bolsonaro, votaria, de caras, na primeira e iria votar nem que estivesse acamado.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Compreendo-o, só que se a situação chegasse ao ponto de ter que escolher entre um Bolsonaro fascista ou uma Cristas que nada tem na cabeça – basta ver o conteúdo das suas constantes afirmações feitas só para dizer que ainda por cá anda – eu pensaria em emigrar …
        Cristas funciona como o Correio da Mahã. O que importa é polemicar e aparecer com um ar agressivo a acusar tudo e todos com grandes parangionas. Não faz análises, apenas denuncia.
        O perigo é que Cristas, se tivesse poder, rapidamente desvirtuaria o sistema, por clara falta de liderança e de objectivos.
        É que Bolsonaro, pelo menos, sabe o que quer e Cristas não… E quando o poder cai no vazio o futuro é tão negro como o que Bolsonaro prepara para instituir no Brasil.
        Entre os dois, escolha o diabo. Eu votaria nulo, de caras.

        • Paulo Marques says:

          A Cristas seria uma testa de ferro da burguesia rentista, como de resto não só já é, como, em larga medida, é a raison d’etre do CDS.

      • Rui Naldinho says:

        Retiro do seu texto, a seguinte frase, entre parênteses:

        “ou o sistema obrigou-os a respeitar ou a fazer de conta que respeitam”

        A grande maioria dos nossos políticos, e mesmo muitos de nós, aceitam a democracia como uma barreira que nos é imposta pelo regime aos nossos próprios desígnios. Podíamos daqui inferir, o Estado de Direito.
        Se é verdade que a maioria interioriza a liberdade de expressão como uma forma de vida, e faz disso uma rotina, sem a contestar, há-os que o fazem a contragosto. E é aqui que muita desta gente se enquadra.
        Eles não são democratas por temperamento, mas sim porque são obrigados a viver num regime que lhes é imposto, e cuja correlação de forças, partidos, parlamento, tribunais, PR, (Legislativo, Executivo e Judicial) os impede de mudar a coisas a seu belo prazer.
        Cristas está para mim neste rol. Tudo fizeram na anterior legislatura para desequilibrar essa correlação.
        Por exemplo:
        O direito à greve está consagrado na nossa Constituição da República. Mas o normal é vermos gente a zurzir na greve, politicos ou não, como se todas elas fossem selvagens, enquadrando-as como um acto terrorista.
        Eu já aqui afirmei algumas vezes, haver uma elite que tem uma obsessão pelo dinheiro e bens materiais acima de quaisquer valores. A democracia para eles é um estorvo. Agarram-se a qualquer troglodita desde que este lhes garanta a renda. Depois vem uma segunda linha, mais titubeante, a classe média, na qual me insiro, para quem o consumo, em especial de marcas registadas, num velho cálculo aritmético do, “chapa ganha, chapa gasta”, deixa muito boa gente à beira de um ataque de nervos, quando vem uma crise económica. Se lhe juntarmos a isso o desemprego, a sua segurança física e mais alguns ingredientes, também se atiram de cabeça para as mãos de um qualquer Bolsonaro, convencidos que estão, de que algo vai mudar para melhor nas suas vidas.
        No Brasil temos uma mistura de tudo isso, com aquele enorme obscurantismo à qual as religiões evangélicas dão guarida e alimento.

      • José Peralta says:

        António Fernando Nabais

        “Se me pergunta se penso que Cristas, Cavaco ou Passos têm uma tendência ditatorial, um fascistazinho mal adormecido no interior, responde-lhe que sim, mas, até hoje, independentemente de tudo, respeitaram Se me pergunta se penso que Cristas, Cavaco ou Passos têm uma tendência ditatorial, um fascistazinho mal adormecido no interior, responde-lhe que sim, mas, até hoje, independentemente de tudo, respeitaram (ou o sistema obrigou-os a respeitar ou a fazer de conta que respeitam) o jogo democrático, por muitas perversões que existam, a começar pela ineficiência da Justiça.) o jogo democrático, por muitas perversões que existam, a começar pela ineficiência da Justiça”.

        (…) “ou o sistema obrigou-os a respeitar ou a fazer de conta que respeitam) o jogo democrático”.

        Pois ! É mais isso…é mais isso…”até hoje” ! Mas quando e se puderem…

  5. ZE LOPES says:

    Tem a certeza António? Não seria melhor fazer um sorteio informático?

  6. ZE LOPES says:

    Este tipo de declarações insere-se numa estratégia de comunicação mais global por parte da Dreita Liberaleira: quando se agravarem os problemas a culpa será atribuída à esquerda por ser “radical”.

    Depois vão recusar aliar-se aos anti-fascistas, antes procurando atrair os fascistas em alianças de poder para os “normalizar”. No final, quem vai ficar “normalizado” são eles.

    Um sinal possível é quando a Cristas aparecer de bigodinho e o Melo de cabelo rapado. Temos desgraça pela certa.

  7. Ricardo Silva says:

    Já toda a gente sabe que a esquerda portuguesa gosta de engolir sapos. Começaram em 1986, e nunca mais pararam.

    • Manuel Silva says:

      Quem engoliu sapos em 1986 foram os do PCP, que são uma minúscula parcela da Esquerda,.
      Neste momento pouco mais de 400 mil eleitores.
      Já quanto a vocês, da Direita, parece que preferem auroques.
      E conseguem engoli-los sem pestanejar nem se interrogarem sobre tão delicioso manjar.
      Aqui está a supremacia da Direita: paquidermes em vez de sapos.

    • Paulo Marques says:

      Pois, e correu tão bem como a Tsipras, Lula, Obama, Miterrand, Harold Wilson, ao SPD… grandes vitórias morais.

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