Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia).

Chegamos às fake news, isto é, aos falsos vídeos comprometendo figuras públicas, adulteração de imagens ou declarações, e boatos fabricados por centrais de propaganda ou intoxicação, replicados ad infinitum acefalamente por quem neles veja vantagens para a guerra ideológica.

Dêmos de barato que há uma diferença de essência, e não apenas de grau, entre isto e a comunicação social tradicional. Mesmo assim, assistimos à derrocada dos jornais, e não apenas os impressos. Por mim, intuo que é um caminho sem retorno, e que portanto no futuro ligaremos as lareiras unicamente com acendalhas, e guardaremos as castanhas assadas em cartuchos de papel pardo.

Um outro senador da opinião (diferente dos demais, e logo das duas sumidades acima referidas, por alicerçar os seus raciocínios e teses numa solidíssima bagagem cultural e histórica, iluminá-los com rasgos de intuição e senso, e servir o conjunto em prosa admirável) dizia-me há tempos que não senhor, os jornais em papel não estão condenados. Talvez.

Seja como for, a opinião pública está a ficar sem filtros ou mediações. E como o mediador era dantes o comentador residente, o fazedor ocasional de opinião, o jornalista e o director do jornal, não é de estranhar que quase toda esta gente ande assustada e indignada, reclamando medidas.

Que medidas? Trata-se nominalmente de combater o discurso de ódio, o racismo, a disseminação de informações falsas, o sexismo, e toda uma panóplia de desvios do pensamento aceitável, defendendo ao mesmo tempo o direito de autor, e a opinião assinada e devidamente arregimentada numa das capelas políticas e de pensamento que os que estão acham toleráveis.

Tudo isto a operar por agências governamentais, ou subcontratando aos operadores o trabalho de censura, sob ameaça de cominações. Porque é de censura que se trata: os cidadãos não podem ser expostos ao vendaval de manipulações que a liberdade sem controlo origina, precisam de quem lhes poupe a informação falsa e a opinião inaceitável à luz dos mais sãos princípios da modernidade esclarecida. E, já agora, é urgente que a concorrência desleal das redes seja coarctada, a benefício dos meios de comunicação tradicionais. É ou não verdade que o preço que o utilizador paga para ver conteúdos de graça é ser exposto à publicidade não solicitada e insidiosa? Isto não pode ser, os poderes públicos velam.

É altura de uma declaração de interesses, não em causa própria mas em abstracto: Não acredito que o autor, o opinante, o ensaísta que valha a pena tenha a recear a concorrência; as pessoas não são tão estúpidas, nem tão amorfas, que na floresta caótica da opinião não identifiquem as melhores; o empregado de comércio, ou o funcionário, ou o intelectual de Freamunde que entope as redes com as suas explosões furibundas não tem mais eco do que nas tribos ensimesmadas a que pertence; as notícias falsas combatem-se com desmentidos e provas, e com o tempo todas, falsas e verdadeiras, serão encaradas com saudável cepticismo; e nunca, em lado nenhum, nenhum governo teve outro interesse em controlar a opinião pública senão para garantir a sua sobrevivência.

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Finalmente, alguém que escreve sobre um assunto verdadeiramente importante, e diz algo inteligente. Parabéns, e seja bem vindo.

  2. Paulo Marques says:

    Não é que as críticas não tenham qb de razão, pelo menos vindo de quem usa o cérebro como PP. É que a alternativa em Portugal é, como diz, um bocado fraquinha. Ao de 40 anos de TINA, qualquer pessoa olha para o empobrecimento permanente, a ascensão de famílias privilegiadas e o ecocídio do planeta e percebe o disparate da coisa.

  3. Luís says:

    O “negócio” dos “fazedores de opinião” profissionais vai mal e vai daí toca a dizer mal da concorrência.
    Na verdade eu não sou lá muito adepto das redes sociais mas gosto de ler os comentários dos leitores nos jornais on-line.
    Por aí, se soubermos distinguir os comentaristas “paus mandados” do leitor (cidadão) comum, podemos enriquecer a notícia ou comentário com essas opiniões.
    (Isto apesar de alguns jornais on-line, mormente o Público, censurarem os comentários que violem o “politicamente correcto”).
    Prefiro isto a ouvir o Pacheco Pereira a debater com corruptos, o Miguel Sousa Tavares a defender o compadre ou os comentaristas futebolistas da TVI a trabalharem para a “Gestifoot”.


  4. O José Meireles Graça é um dos autores convidados a propósito dos 10 anos do Aventar e este texto é um excelente exemplo das suas qualidades. Estou particularmente à vontade para dizê-lo porque, como ele sabe, estou muitas vezes em desacordo com o conteúdo dos seus textos, o que não me impede de apreciar, e até invejar, a forma.

  5. ZE LOPES says:

    Eu acho é que as redes ainda virão a ser policiadas por uma força especial. Serão os chamados “Guarda-redes”.

  6. JgMenos says:

    Tantos anos a construir o corretês, e agora, que o palco está disponível para os seus mais estrénuos contribuintes, vêm as redes e as caixas de comentários afectar a Nova Ordem?
    É de ir às lágrimas!

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