Isto é sobre a TAP, mas podia ser sobre outra coisa qualquer

Uma vez na Grécia, um estudante a quem eu disse – depois de saber que não se pagam propinas naquele país – que era privilegiado, respondeu-me o óbvio (que na verdade eu sabia, porque óbvio desde sempre para mim, mas usei mal a palavra) – «não é um privilégio, é um direito».

Mais nada! É só isto. Aplicado a tanta coisa, não apenas à educação. Ao trabalho e aos direitos dos trabalhadores. Aos serviços e aos direitos dos consumidores. À saúde e aos direitos de todos nós a ela. E por aí fora.

Estou a ficar cada vez mais marxista, é verdade, com o confinamento (queeuaindanãodesconfineiesabedeusseequandovoltareiafazê-lo). Mas tenho esta noção ou princípio, como queiram, de que temos direitos. E os direitos não são privilégios. São isso mesmo. Direitos. Andamos cegos de capitalismo. Tão cegos que em vez de atacarmos os privilégios de facto de uma minoria que ganha milhões à nossa custa, atacamos os trabalhadores, nossos iguais, pelos seus direitos. Tão cegos que há serviços públicos, que nem sequer têm de dar lucro – por isso se chamam serviços públicos – relativamente aos quais usamos a cartada dos prejuízos para justificar a sua extinção ou – o que vai dar ao mesmo – a sua privatização. Tão cegos que fechamos os olhos aos contratos de quinze dias que abundam por aí. Tão cegos que achamos justo (porque o mérito… e tal e coiso) que uma pessoa ganhe milhões a administrar uma horda de trabalhadores que ganham 600 euros por mês. Tão cegos que achamos normal que alguém ganhe 600 euros por mês. E consiga viver com isso. Tão cegos que nem nos envergonhamos.

Não defendo a ditadura do proletariado, até porque os proletários são já bem poucos. Nem a ditadura popular, porque basta abrir a caixa de comentários de um qualquer jornal para perceber o que é o povo (de que faço parte, bem entendido embora não tenha o hábito de comentar em caixas de comentários de jornais). Mas defendo, como sempre defendi (e não é apenas um princípio) um mundo mais justo, onde se ache natural que um médico ganhe tanto como um varredor de rua. Onde se reconheça que em todas as funções existe responsabilidade e capacidade. E que se a capacidade não é igualmente distribuída, isso se deve menos aos indivíduos e mais ao coletivo. Defendo um mundo onde se reconheçam e estimulem os direitos de todos e não os privilégios de uns poucos. Onde o dinheiro só traga a felicidade de vivermos, todos, uma vida digna e com qualidade. Dizem-me que não é realista. Que são ‘princípios’, como se os princípios não fossem aquilo que deve nortear a nossa acção concreta e a realidade que vamos construindo. Tive sorte, reconheço, nunca tive de abdicar dos meus princípios. Nem dos meus direitos. Mas também nunca tive fome. Nem ganância.

Comments


  1. após ler este artigo, e à míngua de umas quaisquer assertivas palavras correspondentes, pensei para com os meus botões: hoje já ganhei o dia ~

  2. Miguel Bessa says:

    “onde se ache natural que um médico ganhe tanto como um varredor de rua.” Das maiores estupidezes que li na vida!

    • POIS! says:

      Pois tá bem!

      Qualquer pato-bravo ganha mais que um médico. Alguns mais que todo o corpo clínico de um hospital médio. Pelos vistos tal já não será estúpido para muitos. É o mercado a funcionar e a premiar o “sucesso”.

    • POIS! says:

      Pois, mas já houve pior!

      Foi aquela de uns brasileirotes liberaleiros terem apoiado um tal Bolsoneiro, um tipo que elogiou publicamente um tal Coronel Ustra conhecido por torturar homens e mulheres em frente aos filhos crianças! E terem colocado no poder um gajo que é já responsável pela morte de milhares de brasileiros pobres, muitos deles sem qualquer arremedo de assistência médica. Essa é que foi uma das maiores estupidezes de que há memória. Não foi, Xô Bessa?.

      • POIS! says:

        Claro, mas eu apenas me referia ao facto de o Sr. Bessa considerar estúpido que um “varredor de ruas” ganhe o mesmo que um médico mas isso já não valha para patos-bravos e outros empreendeiros parasitários.

        É que, se eu não estou enganado o Sr. Bessa é o mesmo que já por aqui andou há uns tempos e depois desapareceu. Desapareceu pouco depois da desgraça Bolsonara. Não sei se regressou ao “paraíso verde-amarelo”. Temo que não.

    • Filipe Bastos says:

      Sendo justo, POIS!, há muitos médicos com rendimentos excessivos, alguns obscenos, entre público e privado. Sobretudo no privado.

      Há uma máfia médica que mama muito e bem na teta da saúde. Uma corporação de mercenários que julgam que estão na América, onde a mama é em roda livre.

      Há também, claro, óptimos médicos que não são mercenários, que ainda enobrecem a profissão. Mas parecem uma minoria. Uma minoria cada vez menor.

    • brasuca pro brasil says:

      “Das maiores estupidezes que li na vida!”

      Bessa, és Ucraniano ?

      Não, deves ser brasuca, pois os ucranianos escrevem e falam melhor o português

    • Julio Rolo Santos says:

      E porque não?

  3. Filipe Bastos says:

    Concordo a 100% – algo raro – com isto:

    Andamos cegos de capitalismo. Tão cegos que em vez de atacarmos os privilégios de facto de uma minoria que ganha milhões à nossa custa, atacamos os trabalhadores, nossos iguais, pelos seus direitos.

    Com isto:

    Tão cegos que há serviços públicos, que não têm de dar lucro – por isso se chamam serviços públicos … Tão cegos que achamos justo que uma pessoa ganhe milhões a administrar uma horda de trabalhadores que ganham 600 euros por mês … ou que alguém ganhe 600 euros por mês.

    E com isto:

    Como se os princípios não fossem aquilo que deve nortear a nossa acção concreta e a realidade que vamos construindo. Tive sorte, reconheço, nunca tive de abdicar dos meus princípios. Nem dos meus direitos. Mas também nunca tive fome. Nem ganância.

    Obrigado por este post. É mesmo isto. A p… da ganância.

    • luis barreiro says:

      Estás sempre contra os directores da função pública, qual o problema deles ganharem mais que os outros? Qual o problema de um director público ganhar mais 5x que os que estão abaixo?


  4. «Mas também nunca tive fome. Nem ganância.»
    Fica uns dias sem comer e logo conhecerás a ganância por uma côdea de broa.

    Mais de estares a ficar marxista estás a ficar estúpida.

    • POIS! says:

      Pois realmente!

      JgMenos, nota-se, também não tem tido fome. Aliás exagerou e esteve um bocado obstipado, daí a sua ausência desde há dias.. Pelos vistos já resolveu o assunto, com uma receita à base de banana.


  5. Fazia tempo que não lia uma crónica tão boa!!

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