O Avante em tempos de Covid

Quero começar por dizer que, da parte que me toca, sou tão favorável à realização da Festa do Avante como a favor das praias a abarrotar sem controle algum, das portas escancaradas ao turismo no Algarve, com os seus holandeses e ingleses ela semear covid-19 no Algarve e o aeroporto de Faro a rebentar pelas costuras, das peregrinações em Fátima, dos concertos no Palácio de Cristal, das manifestações contra o racismo e a favor dele, ou até de algumas enchentes verificadas nas feiras do livro do Porto e Lisboa, para não falar nos comícios do Chega, onde a malta da extrema-direita, que ainda olha para o problema pela óptica bolsonariana da “gripezinha”, faz questão de se apresentar sem máscaras. Isto para vos dizer que, na minha opinião, qualquer organização, de qualquer natureza, que dê origem a grandes ajuntamentos não deveria ser permitida.

E não deveria ser permitida por um motivo que, parece-me a mim, é muito simples e óbvio: porque qualquer um destes ajuntamentos pode dar origem a novos focos de disseminação da pandemia. Pode dar origem a um aumento do número de infectados, sobrecarregar o SNS, prejudicar ainda mais a retoma económica ou, em última análise, levar a um aumento da mortalidade associada ao vírus.

Bem sei que as liberdades políticas e religiosas devem ser defendidas com unhas e dentes. Que a economia e as pessoas que a fazem precisam desesperadamente do dinheiro do turismo. Que centenas de agentes culturais enfrentam a extinção e que as nossas mentes, cansadas de tantos briefings diários e telejornais repletos de surtos, precisam deles. Mas o preço a pagar poderá ser elevado, e prolongar ainda mais o nosso calvário.

Posto isto, há um outro aspecto que merece ser mencionado. O PCP, constantemente ignorado pela comunicação social, que atribui mais tempo de antena e espaços de comentário político a partidos mais pequenos, como é o caso do CDS-PP, abre agora os noticiários e faz capa de jornais. O tema, claro está, é sempre o mesmo: a Festa do Avante. E o clima é de tal forma persecutório que até a SIC fez manchete com uma capa falsa do New York Times, em horário nobre.

Uma das consequências deste clima de guerra que se instalou em torno da realização da Festa do Avante foi a de retirar o foco da preocupação primordial: a possibilidade da Festa se transformar num foco de transmissão da covid-19. Ao invés disso, estamos a discutir disparates como o tratamento preferencial dado pelo governo ao único partido de esquerda que votou contra o orçamento suplementar, como se de um privilegiado se tratasse, depois de semanas de enchentes, aqui e ali, que, por um ou outro motivo, não geraram reacções tão histéricas ou histriónicas, como as já referidas no primeiro parágrafo, entre outras.

Parece-me evidente que existe uma agenda política por detrás destes protestos contra a realização do Avante. Mas nada, nem mesmo essa agenda, acaba por ser tão prejudicial para a imagem do partido como a insistência na realização da Festa. Efectivamente, a Festa do Avante é um evento político, não um festival de Verão. Porém, como uma qualquer queima das fitas, que também não é um festival de Verão, mas um evento académico, a Festa do Avante tem concertos pela noite dentro, quantidades industriais de álcool e milhares de indivíduos que o consumiram em excesso. E deixar milhares de indivíduos alcoolizados à solta, num recinto ao ar livre, quando o vírus continua a ceifar vidas todos os dias é de uma irresponsabilidade gritante. O PCP até pode garantir que vai cumprir todas as instruções da DGS, até nos pode surpreender na forma como vai gerir o gigantesco espaço da Quinta da Atalaia, mas, convenhamos, não se controlam 17 mil foliões com boas intenções.

E mesmo que o PCP consiga implementar medidas que garantam, em todos os momentos, o necessário distanciamento, algo que me parece pura e simplesmente impossível, a mensagem que passa, e que os seus adversários políticos agradecem, é a de um partido privilegiado, que colocou o interesse partidário à frente da segurança dos portugueses. Que desrespeitou o sofrimento e os condicionalismos em que muitos portugueses ainda vivem. Se isto não é um tiro no pé com um lança-rockets, não sei o que será.

Num tempo em que o partido vem perdendo terreno, quer a nível autárquico, quer a nível parlamentar, surgindo inclusive atrás do Chega em sondagens recentes (que valem o que valem, bem sei), insistir na realização da Festa, contra forte oposição popular, num país onde é constantemente “esquecido” pela imprensa, poderá ser fatal para um partido que comemorará o seu centenário no próximo ano. Estranho que um partido tão cerebral como o PCP tenha arriscado tanto. A ver vamos, as cenas do próximo episódio.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    qualquer organização, de qualquer natureza, que dê origem a grandes ajuntamentos não deveria ser permitida

    Portanto, o João Mendes é a favor da abolição das liberdades que teoricamente estão garantidas pela Contituição. O João Mendes é a favor de uma ditadura, na qual o governo, sob pretexto de uma suposta epidemia, pode suprimir as liberdades.


    • Tem toda a razão, trata-se uma de ‘suposta epidemia’, uma parvoeira colectiva, Morre gente mas ainda sobram muitos e o que é preciso é salvar o planeta!

      • POIS! says:

        Pois, mas V. Exa. ainda não se definiu!

        Está do lado dos que “sobram” ou dos outros? É importante que se defina! O povo está farto de meias-tintas!

    • Rui Naldinho says:

      O autor não quis “dizer” nada do que você pretende insinuar.
      Já agora, também está consagrada na Constituição o direito à vida. Aliás, sem ela não há liberdade cívica que nos valha. Daí estar lavrada naquilo a que por hábito chamamos e bem, Declaração Universal dos Direitos do Homem.
      Que eu saiba os mortos não se manifestam, mas os vivos sim. Preservar a vida dos outros parece-me um questão de cidadania, ou não?
      Uma coisa são as liberdades políticas de manifestação de cada um, mesmo em grupo, outra coisa são eventos culturais religiosos e políticos que concentram multidões de pessoas num espaço restrito, durante um período pandémico, as quais podem a jusante colocar em causa a vida dos outros, por efeitos de contágio. A não ser assim, cada um faz o que lhe dá na real gana.
      A principal vítima da Festa do Avante a médio e longo prazo, será o próprio PCP, se aquilo correr mal. A curto prazo poderá ser qualquer um de nós. E isso era bom de evitar.
      Também eu tenho algumas reservas sobre a Festa do Avante. Mas contrariamente à hipocrisia que ressalta de alguns escribas e comentadores locais, que nunca se preocuparam com outro tipo de ajuntamentos, Fátima, Feira do Livro, turismo de massas, etc, mas, pior ainda, na segunda feira criticam o número de internamentos e mortes por Covid 19 em Portugal, tentando esgravatar comparações patéticas, com outros Estados, na terça feira criticam os constrangimentos na economia em face da pandemia, pedindo abertura total, na quarta são capazes até de se tornar negacionistas, dizendo que tudo isto é uma cabala chinesa, na quinta são contra as vacinas, na sexta contra as máscaras e o confinamento, …
      Para eles o ideal era uma catástrofe, com uma mortandade grande e danos irreversíveis na economia, que justificasse sim, o fim das liberdades cívicas dos portugueses a pretexto de por o país nos eixos.
      Desses é que eu tenho medo.

  2. Filipe Bastos says:

    Se os foliões do Avante tiverem mais de 80 anos e/ou doenças crónicas graves, seria de facto prudente evitarem este ano. Fora esses casos, a atitude do João Mendes soa à histeria da pandemia que está em muito voga, mas não tem grande base prática.

    Mais bizarro é sugerir que o PCP é ignorado: estamos sempre a ouvir as tiradas do Jerónimo, quase sempre rematadas pelo intemporal clássico “governo patriótico e de esquerda”.

    Ainda mais cobertura tem o Berloque, muito mais que a sua expressão eleitoral. O CDS? Tirando a eleição do Chicão, nem me lembro de ouvir deles. O Chega é outra história, mas boa parte da culpa é da esquerda que demoniza tão reles chuleco.

    Na festa do Avante, o problema, além do injustificável privilégio de fazer a festarola em tempos de ‘pandemia’, é outro: a fuga aos impostos. O PCP não tem mesmo vergonha na cara, João?

  3. Que porra querem ? says:

    Zero mortos no Alentejo! Cá por mim, começava a testar, em humanos, uma vacina composta por açorda, vinho de Borba e coentros.

  4. Que porra querem ? says:

    Nunca vi uma merda ‘Made in China’ durar tanto!!!

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