E a Festa do Avante, pá?

Num ápice, a Festa do Avante deixou de ser tema. E só voltará a sê-lo, apenas e só, caso seja identificada alguma cadeia de contágio que possa ser comprovadamente associada à festa comunista. E porque deixou a Festa do Avante de ser tema, assim, num ápice, depois de meses a fazer manchetes atrás de manchetes, a alimentar indignações de Rui Rio e outros notáveis militantes do PSD e do CDS-PP, para não falar na fachosfera, para gáudio de uma certa turba embrutecida? Porque o Santuário de Fátima conseguiu fazer incomparavelmente pior que o PCP, que, apesar de tudo – e estou perfeitamente à vontade para o dizer, visto que me opus à realização da Festa do Avante – foi exímio a organizar a sua festa. Já o Santuário de Fátima meteu tanta água, no passado 13 de Setembro, que, a meio das cerimónias, viu-se obrigado a impedir a entrada de fiéis no recinto do Santuário, que se acumularam no exterior, gerando mais um foco de confusão e de potencial contágio.

Ao PCP bastaria que a Festa do Avante tivesse a mínima falha para ser crucificado e queimado no fogo do Inferno. Em Fátima, as imagens falaram por si. Milhares de pessoas, grupos de peregrinos de França, Itália e Espanha, zonas de ajuntamentos que não respeitavam minimamente as regras de distanciamento social, repletas de idosos e de outros integrantes de grupos de risco, zonas envolventes sobrelotadas, em particular a partir do momento em que a gestão do Santuário determinou que não poderiam entrar mais fiéis no recinto, o que, como poderão imaginar, não os fez desaparecer, e inúmeras pessoas que optaram por não usar máscara, o que não admira, ou não estivessem naquele espaço centenas ou milhares de pessoas que acreditam, convictamente, que a sua fé funciona como vacina para a covid-19, um dos aspectos mais assustadores de todo este triste espectáculo.

Com excepção de alguns cronistas mais corajosos, e houve-os à esquerda e à direita, a reacção da imprensa e do comentário político nacional ao que aconteceu em Fátima, no passado 13 de Setembro, foi um belo festival de hipocrisia, que acabou por ser extremamente útil para perceber o que moveu os hardliners da direita portuguesa, a opinião publicada e o comentário televisivo, globalmente críticos da realização do Avante, a optar pelo silêncio cúmplice, cobarde e politicamente correcto sobre o que se passou em Fátima: tratou-se, única e exclusivamente, de um ataque político ao PCP, sem ponta de preocupação com questões sanitárias, por parte de pessoas que, repito, se estão nas tintas para o problema sanitário.

O que também ficou muito claro, foi a questão do poder. Afinal, a secular Igreja Católica continua a ocupar uma posição de privilégio, incomparável com a de qualquer partido, que lhe permitiu passar por entre os pingos da chuva nesta situação, como de resto lhe vai permitindo influenciar e doutrinar muitos aspectos da vida pública portuguesa, sem grandes indignações ou abaixo-assinados. Ao contrário de qualquer instituição, a Igreja Católica continua a viver numa bolha de privilégio e opacidade, não paga impostos, poucas contas presta, influencia e intromete-se na vida política e de várias instituições públicas e privadas, tem um forte ascendente sobre todas as forças vivas de concelhos mais pequenos e conservadores e ainda está protegida pela Concordata, um acordo incompreensível num Estado dito laico. Chama-se poder.

Que fique bem claro que isto não é um ataque à fé de ninguém. Tal como criticar a realização do Avante não é uma forma de anticomunismo ou criticar Luís Filipe Vieira não é um ataque ao SL Benfica. E nunca é demais sublinhar este aspecto, que as religiões tendem a toldar o discernimento a muito boa gente, principalmente nestes tempos em que um sacerdote que pede mais justiça social é apelidado de comunista, ao passo que um outro, que parte pão com fascistas ou escreve crónicas a apelar ao regresso do Index – sim, aconteceu em Portugal – são destemidos paladinos numa batalha desigual contra o politicamente correcto e mais não sei o quê. Todo o cuidado é pouco. Principalmente num país onde a instituição religiosa – não confundir com a fé dos Homens – tem histórico de conluio com autocratas e torturadores.

Agora é esperar para ver como se desenrolará o 13 de Outubro. Conhecendo a Igreja Católica como conheço, estou convencido de que não a veremos cometer o mesmo erro duas vezes seguidas. Fico a aguardar para saber se Marcelo irá exigir conhecer em detalhe o plano de contingência do Santuário e as medidas impostas pela DGS, se os furiosos anticomunistas voltarão a rasgar as vestes, para depois nos brindarem com pérolas alucinadas do estilo “estamos protegidos por Nossa Senhora, o vírus não entra aqui” (sim, houve gente com responsabilidades políticas a dizer barbaridades destas), e o que dirão a imprensa e os analistas, todos eles dominados pela esquerda, claro está, tão lestos que eles foram a esmiuçar e trucidar a Festa do Avante. Uma coisa é certa: sabemos hoje, objectivamente, quem são aqueles que se estão literalmente nas tintas para a saúde dos portugueses, privilegiando a chicana política em detrimento da razoabilidade. Lembrem-se disso, quando os ouvirem, muito moralistas, falar de responsabilidade e sentido de Estado.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Um dos instrumentos que a direita dispõe para alcançar o poder, chama-se Igreja. Como instituição, claro. Ao longo dos séculos fomos percebendo que a Igreja sempre foi utilizada pelas elites como instrumento de manipulação de massas. Até para umas elites destruírem outras.
    Eu sei que havia uma minoria da plebe que tinha acesso à escrita, à leitura, à cultura e ao conhecimento das leis, através da Igreja. A História está cheia de exemplos. Mas ainda assim não deixava de ser uma minoria. Mesmo muito pequena. Aliás, era precisamente essa minoria que depois virava cacique, nos locais onde emergia. Basta olharmos quantos Presidentes de Câmara, Alcaides, isto para não falarmos de deputados da Nação, passaram pelos seminários, abandonando a vida eclesiástica à postériori, para depois abraçarem a política como forma de vida.
    Contrariamente, o PC e os comunistas em geral, independente da sua praxis maioria das vezes ser aterradora, quando alcançam o poder, são para a direita uma espécie de maldição, que se introduz na classe operária para regatear uma vida digna para os mais desfavorecidos. Ora, isso é inadmissível, para essas elites. “Se já existe o Banco Alimentar contra a fome, porquê pedir melhores condições de vida?”

    Mas alegrai-vos, irmãos:
    – Jesus já abençoou a Festa do Avante. E isso para mim basta-me.
    – Vindo de quem vem, só pode ser verdade! 😃😂🤣

  2. POIS! says:

    Pois já lá dizia o Mestre, segundo um conhecido best-seller::

    “aquele que de vós nunca foi contaminado que atire o primeiro covide”.

    Sem dúvida que vivemos tempos apocalípticos. As revelações de João estão na ordem do dia: guerras, catástrofes, pandemias…E já está em curso a segunda vinda de Jesus, a caminho da Luz.

  3. Filipe Bastos says:

    Pois, João Mendes, pois. Olhe, novamente claro clarinho:
    — o PCP e seus fãs são hipócritas;
    — a Igreja e seus fãs são hipócritas;
    — o Avante é uma festarola de mama e fuga aos impostos;
    — o Benfica e restante futebol profissional é um esgoto de mama, carneirismo, corrupção e fuga aos impostos.

    “Que fique bem claro que isto não é um ataque”… pois devia ser um ataque. É por estas trampas que jamais passamos de uma bandalheira corrupta e acarneirada em forma de país.

    E esta mania de não ofender estes ou aqueles carneirinhos só perpetua este triste estado de coisas.

  4. Luís Lavoura says:

    o Santuário de Fátima meteu tanta água, no passado 13 de Setembro

    Não meteu água nenhuma.

    O Santuário organizou um evento religioso, similar aos que sempre organizou ao longo dos anos. Esse evento teve mais afluência do que o que era esperado. O Santuário não tem culpa nenhuma da afluência inesperadamente alta. Não tem culpa de que peregrinos tenham decidido vir de França, Itália, etc.

    Perante a afluência excessiva, o Santuário tentou, a meio da cerimónia, limitar o acesso, e fez muito bem.

    O Santuário nunca transformou os seus eventos em cerimónias de entrada registada e bilhete pago. Pode talvez passar a fazê-lo. Mas não pode ser culpabilizado por terem vindo mais peregrinos do que o que era expectável.

    • Rui Naldinho says:

      Lá está você a malhar em ferro frio.
      O que o autor do texto pretende demonstrar, não é mais di que a hipocrisia de uma certa direita retrógrada e conservadora, moralista da treta, coadjuvada como sempre pelos seus escribas de serviço, na CS de reverência ao poder que a sustenta, mesmo com prejuízos enormes, nas críticas ferozes à Festa do Avante e no silêncio sepulcral, quanto a este Evento Religioso.
      Que eu tenha conhecimento, a direção do Santuário de Fátima no evento de 13 de Maio e no de 13 de Agosto, do corrente ano, mesmo sem bilhete pago, mesmo com peregrinos de toda a parte, mesmo com o Verão à porta, resolveu ela própria condicionar as visitas com ajuda da Comunicação Social, das autoridades e da própria autarquia de Vila Nova de Ourém. No caso presente não se passou nada disso.
      Quais as razões, desconheço. Mas imagino.

    • Paulo Marques says:

      Claro, era completamente imprevisível que os frequentadores habituais lá fossem na primeira data significativa possível! Pode lá ser!
      E agora ter cadeiras e controlar entradas, a igreja não ganha para isso, imagine-se.

  5. Rui Naldinho says:

    Lá está você a malhar em ferro frio.
    O que o autor do texto pretende demonstrar, não é mais di que a hipocrisia de uma certa direita retrógrada e conservadora, moralista da treta, coadjuvada como sempre pelos seus escribas de serviço, na CS de reverência ao poder que a sustenta, mesmo com prejuízos enormes, nas críticas ferozes à Festa do Avante e no silêncio sepulcral, quanto a este Evento Religioso.
    Que eu tenha conhecimento, a direção do Santuário de Fátima no evento de 13 de Maio e no de 13 de Agosto, do corrente ano, mesmo sem bilhete pago, mesmo com peregrinos de toda a parte, mesmo com o Verão à porta, resolveu ela própria condicionar as visitas com ajuda das autoridades e da própria autarquia de Vila Nova de Ourém. No caso presente não se passou nada disso.
    Quais as razões, desconheço. Mas imagino.


  6. Nada como uma falsa pandemia para a merda vir à tona…

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