Liga dos Últimos: a imprensa desportiva em Portugal

O FC Porto eliminou da Liga dos Campeões o Juventus, eneacampeão italiano (9x consecutivas campeão de Itália – 2011 a 2020), e segue para os quartos-de-final da competição, estando entre as oito melhores equipas da Europa. Fundado em 1893, o clube do Norte de Portugal conta, no seu palmarés, sete títulos internacionais (duas UEFA Liga dos Campeões (1987 e 2004), duas UEFA Liga Europa (2003 e 2011), dois Campeonato do Mundo de Clubes (1987 e 2004) e uma Supertaça Europeia (1987)). O segundo clube português com mais títulos a nível internacional é o SL Benfica, com duas UEFA Liga dos Campeões conquistadas na década de 1960. A diferença, a nível internacional é, como se vê, abismal.  

No dia do jogo – ontem, portanto – a imprensa portuguesa agiu como se nem houvesse qualquer clube português na maior competição do mundo de clubes; tanto, que nenhum dos três principais jornais desportivos fez manchete com o jogo. Essa tinha um denominador comum, para Record, A Bola e O Jogo: importante, importante, era a vitória do 4º classificado da Liga Portuguesa, o Benfica, frente ao 12° classificado, o B.SAD. Isso sim, era de extrema importância para os jornais portugueses noticiarem na primeira página com pompa e circunstância. Hoje, depois da vitória do FC Porto na maior competição de clubes do mundo, todos eles se lembraram que o clube nortenho jogou. Não só verificaram que jogou (víssemos as capas do dia anterior e, desatentos, perderíamos o jogo), como passou a eliminatória e, de repente, Portugal orgulha-se. Ou talvez não. Estranho verificar que o FC Porto jogava para o mundo ver, mas que só em Portugal esse facto passava ao lado. 

Se tudo isto não bastasse para atestar o desprezo e o desrespeito (e, por que não, a isenção) com que o país trata o clube português com mais títulos internacionais e, por conseguinte, o clube português que melhor representa Portugal fora de portas, no fim do jogo, nenhum jornalista português…repito, para não haver equívoco: no fim da vitória do FC Porto frente ao eneacampeão italiano e consequente passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, nenhum jornalista português endereçou perguntas ao treinador do FC Porto, Sérgio Conceição. Nenhum. Jornalista. Português. Zero. Nada. Nicles. Niente.  

O que seria feito e dito se outro clube português carimbasse esta passagem a mais uma eliminatória da competição que todos querem jogar? Quantas manchetes de jornais se encheriam para fazer parar o país? Quantos dias se falaria do assunto, até à exaustão, carregando em ombros jogadores, equipa técnica e presidente? Quantos louvores se ofereceriam aos Deuses e a Jesus? Pergunto: quantos? É típico. Um país que, desportivamente, vive a invejar um clube regional, pequeno na sua expressão face ao poder Capital, e que, historicamente, se habitou a enviar manguitos, na forma de vitórias inequívocas, do Porto para Lisboa e para o resto do território nacional. Somos pequenos demais para o nosso próprio país e grandes demais para o resto do mundo do futebol. Somos Porto.

FOTO: VALERIO PENNICINO

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Chocante, João Maio, chocante.

    Não via tão grave discriminação desde… olhe, desde a entrevista da pobre Meghan e do pobre Harry à pobre da Oprah.

    Também eles são vítimas; também eles são desprezados pela Lisboa lá do sítio. O mundo chora com eles. E com o Porto.

    Pobres mamões futeboleiros ignorados pelos media. Como gozarão agora as mansões e os Ferraris? Impossível. Impossível, João.

    ‘Somos Porto’. Pois são. O João, o Francisco Figueiredo, o Moreira de Sá, o Pintinho, o Conceição, os adeptos, os multimilionários e tatuados jogadores, são todos uma grande família de heróicas Meghans a lutar contra a família real, que neste caso somos nós, os canalhas de Lisboa. Já pensaram em ir à Oprah?

    • João L. Maio says:

      Como consegue viver com tanto ódio e rancor?

      Também ficou de cotovelo engelhado pela vitória do FC Porto? Ou não se pode gostar de futebol porque eles ganham muito dinheiro? Será que se pode gostar do desporto e não gostar do negócio?

      O Filipe, já vou percebendo, é capaz de ter uma vida triste. Mas força nisso: terá sempre o Maio, o Mendes, o Figueiredo ou o Sá para o irritarem. Afinal, de cá não sai.

    • Francisco Figueiredo says:

      Acho que está tudo muito certo, por isso até faço questão de dizer:
      VIVA AO FUTEBOL CLUBE DO PORTO!

    • Filipe Bastos says:

      “Afinal, de cá não sai.”

      Vejo que tenho de lembrar o acordo tácito dos blogs.

      V. escreve para ser lido; quem comenta também. Com a possível excepção de diários, listas de supermercado ou mentirosos, ninguém escreve para si mesmo.

      Os comentários tendem a ser diatribes, desabafos ou opiniões que raramente coincidem com as do autor. Quem concorda cala-se, quem discorda não. É geralmente assim.

      Quando cá venho espero discordar, de contrário nada teria a dizer. Então sou crítico e sarcástico e tal, mas só me dou ao trabalho porque aprecio o blog, os autores e quem cá comenta – o POIS, o Paulo, etc. De contrário não vinha.

      Qual a alternativa melhor? Um clube de yes-men sempre de acordo, a dar palmadinhas nas costas uns dos outros?

      • João L. Maio says:

        E tem todo o direito a isso tudo. E diz bem: eu escrevo para ser lido.

        Até lhe agradeço, ao menos vem e diz de sua justiça.

    • Filipe Bastos says:

      Será que se pode gostar do desporto e não gostar do negócio?”

      A menos que fale de jogar à bola com os amigos, desporto e negócio são inseparáveis. O desporto profissional, sobretudo o futebol, é três vezes nocivo:
      — distrai a carneirada do que importa;
      — normaliza a desigualdade extrema;
      — ajuda a promover e a branquear mamões.

      V. não é de esquerda? Acha normal este post, estas prioridades, esta mama obscena, esta adulação duma máfia impune?

      • João L. Maio says:

        Eu concordo com tudo isso que diz, não se engane nem pense o contrário.

        E, se ler com atenção, percebe que até este texto que acha “anormal” até é uma crítica indirecta a isso. Sim, desporto e negócio, no mundo de hoje, são indissociáveis.

        No entanto, ainda consigo gostar do jogo. Joguei futebol muitos anos, a nível amador. Fui fanático até certa idade. Deixei-me disso porque, como o Bastos diz e bem, sou de esquerda; rapidamente percebi que as prioridades, no desporto em geral, estão trocadas. Mas, como disse, continuo com o bichinho de gostar de ver a bola tocar na rede… pronto, crucifique-me por isso, eu aceito.

      • Filipe Bastos says:

        Compreendo. Em novo era do Sporting. Vi muitos jogos com amigos do Benfica e do Porto. Ainda me lembro da carraspana do 6-3, cortesia do João Pinto.

        Admito que passe por chato, amargo, desmancha-prazeres, mas não consigo conciliar. Tenho genuíno asco à bola, não pelo desporto em si, por tudo o resto.

    • Paulo Marques says:

      Não, não é a mesma coisa. A mesma coisa era se os média diferenciassem Middleton de Markle por ser divorciada, ou das colónias, ou outra porcaria qualquer sem interesse nenhum a não ser na aristocracia. Podíamo-nos rir de como é belo o sonho de poder ser princesa desde que se seja famosa e rica o suficiente, como nos rimos de tantos adeptos felizes por meterem o dinheiro deles ao bolso.
      Mas, sabe-se lá porquê, não foi isso que aconteceu na imprensa britânica. Um mistério porque terá sido, numa imprensa tão bem cotada.

    • Filipe Bastos says:

      Paulo, ouça-se a si próprio. Que raio interessa os media? Tudo na monarquia está mal. Tudo.

      Na bola: que raio importa que o Porto ganhe? Na política: que importa que seja PS ou PSD se servem os mesmos donos? Nos EUA: o que realmente muda se for Trampa ou Obama?

      Distracções e foguetório. Como aquele jogo das conchas onde os incautos tentam adivinhar onde está a bola: enquanto olham para as conchas, o tipo leva a bola entre os dedos.

      Markle é mestiça. Harry é branco. Ambos mamam. Ambos querem continuar a mamar. Não olhe para as conchas, Paulo, isso é para onde eles querem que olhe.

      • Paulo Marques says:

        Nada interessa, porque nenhum dá nada ao Bastos. Só isso é que era importante. O que custa aos outros, às aspirações dos outros, à liberdade dos outros, isso não interessa nada.

  2. Luís Martins says:

    É a mesma imprensa que escreve, tipo “nota de rodapé”, o facto do ciclista do Porto ter perdido as duas voltas por uso de doping.
    Fosse de um clube de vermelho e o banzé que seria por parte dessa mesma imprensa.

    • João L. Maio says:

      Isso é relativo. Comparemos:

      Houve jogadores de futebol do tal “clube vermelho” apanhados com doping é isso nunca foi propriamente um caso.

      Logo, nesse caso, é coerência.

  3. Daniel says:

    “a imprensa portuguesa agiu como se nem houvesse qualquer clube português na maior competição do mundo de clubes…”
    “Se tudo isto não bastasse para atestar o desprezo e o desrespeito (e, por que não, a isenção) com que o país trata o clube português com mais títulos internacionais…”
    Eh lá… o fanatismo da religião “bola” não pára de me surpreender!…
    3 jornais desportivos são a “imprensa portuguesa” ou representam o país?!
    Eu não ligo nada à bola (e muito menos a jornais da bola), mas ainda há pouco estive com o JN e, advinha qual era capa?
    Pois… essa noticia da bola e uma foto igual à que está no texto!!

    • João L. Maio says:

      Fico feliz que tenha lido o texto, mas triste por não ter estado atento à leitura.

      A parte “No dia do jogo – ontem, portanto (…) nenhum dos três principais jornais desportivos fez manchete com o jogo.” escapou-lhe?

      Fanático pela “bola” não sou, longe disso. Já tive treze e quatorze anos, o tempo da euforia futebolística desmesurada passou com a idade. Apenas fiz questão de constatar o óbvio.

      O Daniel não percebeu o texto, mas chegará lá se o voltar a ler.
      Hoje todos os jornais fazem manchete com isso, a questão é que, ontem, o FC Porto e o seu jogo na maior competição de clubes do mundo eram uma nota de rodapé nas capas dos TRÊS principais desportivos.

      A acrescer a essa vergonha, o facto de nenhum jornalista português ter feito perguntas ao treinador vitorioso, na conferência, no fim do jogo. Mau demais para o jornalismo português, cada vez mais pela hora da morte.

      • Daniel says:

        Como referi antes, não ligo NADA à bola, portanto não sei nada dessas “novelas”; sei que o FCP fez notícia de capa do JN de hoje (e ontem à noite, repetidamente nos canais de noticias – nomeadamente na SIC Notícias).
        Se os jornais desportivos não servem, é fazer como eu faço, por exemplo, relativamente à CMTV: não vejo/leio!

    • João L. Maio says:

      “3 jornais desportivos são a “imprensa portuguesa” ou representam o país?!”.

      É que nem por o título do artigo ser “a imprensa desportiva em
      Portugal” e a crítica explícita no texto ser aos TRÊS jornais desportivos mais significativos? Francamente, Daniel. Sei que consegue ver além, force um bocado os olhos.

      • Daniel says:

        “Se tudo isto não bastasse para atestar o desprezo e o desrespeito (e, por que não, a isenção) com que o país trata o clube português com mais títulos internacionais…”
        Continuo sem perceber a referência ao país – 3 jornais (supostamente) desportivos não representam o país!!
        A futebol é muito sobrevalorizado e tem demasiado tempo de antena e isso não é bom para ninguém!…

  4. Daniel says:

    [IMG]imgs.vercapas.com/covers/jornal-de-noticias/jornal-de-noticias-2021-03-10-d4735e.jpg[/IMG]

  5. Rui Naldinho says:

    Vamos lá ver se a gente se entende, sem sermos tão caprichosos no orgulho e na desforra, após a brilhante passagem da eliminatória, alcançada acima de tudo pela garra e o querer dos jogadores do FC Porto contra a Juventus, ou na azia, para alguns, claro, que acham tudo aquilo incompetência da Juventus, com especial ênfase para Cristiano Ronaldo.
    Aquela equipa que uns dias antes estava com pouco mais de meia hora de jogo, a levar 3-0 do Sporting de Braga, foi a mesma equipa que resistiu estoicamente ao poderio da Juventus, após estar a ganhar por 1-0, na primeira parte. Jogou com menos um jogador durante mais de sessenta minutos.
    A polémica levantada pelo Fernando Moreira de Sá e pelo João Maio, virão outros(?), sobre a forma como a imprensa escrita e falada se focou no pretérito jogo do FC Porto contra a Juventus, nomeadamente quem notícia o quê, quem promove ou glorifica quem, quem omite o evento X, ou Y, faz-me lembrar aquela treta do marxismo cultural de que a nossa direita se queixa no que concerne aos costumes cá na Tugalândia.
    Há um predomínio de notícias nalguns jornais desportivos, nomeadamente no jornal A Bola, talvez um pouco menos no Record, sobre os clubes de Lisboa. Sejam os feitos desportivos, sejam transferências de jogadores, sejam até as desgraças.
    Toda a gente sabe que a Bola é um jornal gerido por Benfiquistas. Tal como o Record é ou foi gerido por gente muito próxima do Sporting, sem que no entanto possam ser tão facciosos como A Bola, pois caso contrário tinham tiragens insignificantes.
    Recordo que no passado um grupo de pessoas próximas do Sporting criou um jornal desportivo chamado Gazeta dos Desportos. Depois de catorze anos de vida, com muitos altos e baixos, escafedeu-se das bancas.
    Os jornais vendem aquilo que as clientelas desejam ler ou ouvir. Sem assinantes ou pagantes não há jornais desportivos. Quanto aos outros jornais, as coisas colocam-se de outro modo.
    Não me admira pois, que uma diarreia do Jorge Jesus, por causa do Covid 19, seja mais importante do que uma notícia de qualquer outro clube, mesmo ganhando um jogo, para A Bola.
    Tal como o FC Porto, também o AS Milan é o clube com mais títulos internacionais de Itália, nomeadamente 6 Ligas dos Campeões // Taça dis Campeões Europeus. No entanto a Juventus com mais títulos nacionais, bem acima dos rivais, incluindo o AS Milan e o Inter, é o clube mais badalado, mais amado e mais odiado, ao mesmo tempo, de Itália.
    O futebol é um fenómeno em que a irracionalidade vive de mãos dadas com a emoção e a genialidade dos intervenientes em campo, para gáudio de multidões de fantásticos.
    Pensar que ali pode haver equidade, fair play, altruismo e generosidade, mesmo no jornalismo, é como acreditarmos no Pai Natal.
    O futebol é uma indústria e cada um tenta safar-se como pode. Quem estiver mais próximo do Poder, safa-se melhor.

    • Paulo Marques says:

      Não peço que os jornalistas sejam isentos, isso não existe. Exijo que sejam claros para que lado tendem, e aí estamos muito mal. E antes fosse só no futebol, onde só consome quem quer.

    • João L. Maio says:

      Rui, eu percebo tudo isso e sei que é assim.

      No entanto, isso não se pode sobrepor à deontologia da profissão. Ter públicos-alvo é legítimo. Ignorar o peso jornalístico de X notícia em comparação com Y, é que não.

      Hoje em dia os jornalistas já não mandam nos jornais ou nos tele-jornais. São as empresas de capital quem controla e, como tal, quem lá põe o dinheiro é que decide o que sai, como sai, porque sai. E isto é válido para o jornalismo em geral, não só no que concerne ao desporto.

      Há uns anos, numa palestra na Faculdade de Letras, um jornalista da RTP explicou como funciona hoje o jornalismo: há dinheiro, há lobbies e, como tal, já não é a notícia em si que importa.

      • Rui Naldinho says:

        Claro que tudo isso é verdade. Mas é o que temos.
        Que venha o B. Dortmund. Talvez o mais acessível ao tipo de jogo praticado pelo FC Porto.
        Cumprimentos

        • João L. Maio says:

          Evitando, nesta fase, Bayern e Manchester City, penso que é possível atingir as meias-finais (o que já seria um enorme feito).

          O Borussia engana! Não queria nada…

          Cumprimentos!

  6. luis barreiro says:

    Foda-se tanto a imprensa escrita como as tv´s de Espanha, França, Itália e Inglaterra, pelo menos a que vi, realçam o facto de pela 1ª vez, mais uma,… caso inédito, um treinador classifica-se para as 8 melhores equipas da europa e na conferência de imprensa nenhum jornalista português faz perguntas, o treinador vitorioso senta-se e após 30 segundos levanta-se pois não há perguntas, até via zoom.
    São os próprios estrangeiros que escandalizados afirmam, senão queriam fazer perguntas nem um a felicitá-lo?
    Mas para as mentes acima cheias de tudo é normal.

  7. Pimba! says:

    ERRATA CORRIGE
    “Fundado em 1906, o clube da capital do Norte de Portugal”

    Ou então
    “Fundado em 1906 (pelo menos até 1996, quando começaram a patranha de que o fundador do clube, José Monteiro da Costa, afinal näo o fundou), o clube da capital do Norte de Portugal”

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