Braga: por este Ricardo abaixo


[Costa Guimarães]

Os últimos comportamentos do presidente da Câmara Municipal demonstram o estertor ético da actividade político-partidária da maioria PSD/CDS/PPM em Braga. O povo diz, na sua secular sabedoria, que Ricardo Rio devia olhar por ele abaixo e, quando quer ser mais acutilante, sente pena do seu pai porque deve sentir-se envergonhado com o filho que tem.

Vamos aos factos.

  1. É conhecida de todos os bracarenses obsessão pela fotografia, fazendo com que a Câmara Municipal de Braga, nos últimos oito anos, gaste rios de dinheiro com publicidade nos jornais e rádios de Braga, do Porto e de Lisboa. Basta consultuar o site http://www.base.gov.pt/Base/pt/ResultadosPesquisa?type=contratos&query=adjudicanteid%3D3773, sempre por ajuste directo.

Soube-se em Dezembro que Ricardo Rio gasta 1.300 euros por dia em publicidade no Jornal de Notícias, através de um contrato de publicidade no valor de 52.800 euros (64.944 euros com IVA) com a empresa P95 – Agência de Publicidade Integrada, Lda, para a “aquisição de serviços-publicação de páginas” no Jornal de Notícias.

Este contrato tem como objetivo de divulgar eventos culturais e sociais do Município de Braga (cf. https://semanariov.pt/2020/12/02/braga-municipio-gasta-1-300-euros-por-dia-em-publicidade-no-jornal-de-noticias).

  1. Na última Assembleia Municipal, Ricardo Rio afirmou que até era conhecedor de tudo o que se passava na Câmara durante um famoso almoço com Mesquita Machado, após a sua vitória em 2013, a propósito do Eco-Monumental Parque das Sete Fontes que ainda não saiu do papel.
    Pois era, não esteve oito anos na Oposição?

Aos oito anos como vereador na Oposição, somam-se oito anos como Presidente da Câmara Municipal, mas apresenta aos bracarenses zero de obra feita, põe em risco a saúde pública e continua a responsabilizar o conviva daquele almoço há oito anos. Isto é completamente absurdo, senão criminoso. Ainda há quem o defenda com a repetição de promessas adiadas, desde a Confiança, ao Eco-Monumental Parque, ao Nó de Infias e outras bandeiras eleitorais, com as quais caçou o voto aos eleitores? Tem de haver consequências! Um panfleto com promessas não resolve nada.

  1. Que dirá de mim, o amigo leitor se eu for almoçar consigo, de coração aberto, franco, leal e de boa fé dar-lhe a conhecer os meus problemas, projectos e reais dificuldades e, passados uns tempos, vai contar a toda a gente o que se passou no repasto? (cf. https://diariodominho.sapo.pt/2021/03/31/mesquita-machado-reage-a-conversa-tornada-publica-por-ricardo-rio/).

O Eco-Parque Monumental das Sete Fontes é uma aspiração geral e uma das grandes ambições dos bracarenses, mas Ricardo Rio tentou chamar a si os louros do avanço que a decisão da Assembleia Municipal pôde, finalmente, proporcionar. Fê-lo da pior forma, ao revelar uma conversa privada que manteve com o antecessor, numa clara atitude de desrespeito e abuso da confiança face ao seu parceiro de diálogo e, por cima, com uma “censurável inverdade”.

Não quero que me dê a resposta, leitor. No mínimo pensará que eu não mereço confiança nem tenho palavra de honra. Não quero que pense pior de mim, porque isso bastará para me sentir corado, se eu tiver dois pingos de vergonha. E se eu tiver faltado à verdade sobre o que se passou naquele repasto? Não diga nada, caro leitor. Não quero escutar os seus impropérios contra a minha ética zero e saber estar em sociedade. Dirá, e bem, que a revelação pública, por um dos intervenientes, do conteúdo de uma conversa privada constitui uma atitude eticamente censurável que define o autor como pessoa que não merece confiança. Que condiciona a escolha de uma empresa para trabalhar? O que nos faz seguir um líder? Por quê manter a colaboração numa empresa em detrimento de procurar um novo desafio? O que influencia a escolha das pessoas que integram uma equipa? Sei que vai responder e bem: a confiança.

Além de grande deselegância de carácter, o que já não é pouco — dirá o leitor — este comportamento é inaceitável: desacredita o seu autor e a classe política a que pertence.

Assim, concluímos, o princípio da confiança, sofreu um duro revés, se não se quebrou mesmo.

A cena é de tal modo grave que, após oito anos notáveis de silêncio, Mesquita Machado sentiu-se obrigado a “aparecer” em público para denunciar uma “censurável inverdade de que o aconselhara a não avançar com o Parque Urbano das Sete Fontes”.

  1. Nesta maré negra para Ricardo Rio há mais: o Município de Braga adjudicou à empresa European Best Destinations a ‘aquisição de serviços de promoção da cidade de Braga entre os melhores destinos europeus para visitar em 2021. No dia 1 de fevereiro, a CMB celebrou um contrato de 16.830 euros, valor a que acresce o IVA, para a “aquisição de serviços de promoção de Braga como destino seguro nos mercados internacionais”, com Lejeune. A 18 de março, foi celebrado novo contrato, no valor de 70 mil euros — acresce o IVA— para a “aquisição de promoção turística internacional”. A adjudicação foi feita em nome individual e não a uma empresa, como é frequente nos contratos celebrados por organismos públicos. Somando os dois contratos, obtemos um total de 86.830 euros, investidos por Ricardo Rio, com o dinheiro de todos.

Já em 2019 tinham sido assinados dois contratos entre os dois. Ao todo, Lejeune somou 105.750,00 euros nestes quatro contratos.

Mas, agora, vem a trapalhada que nos deixa com a pulga atrás da orelha: a CMB começa por dizer que “todas as cidades selecionadas pagavam uma inscrição de 30 mil euros, uma contrapartida pela publicidade na plataforma”. Num segundo e-mail, confrontada com os valores do portal Base, a CMB rectificou. Afinal foram desembolsados 16.830 euros mais IVA, o que totaliza cerca de 20.700 euros num contrato que visou “apenas a inscrição”.

Além da trapalhada, foi um péssimo negócio para este senhor doutor em economia que governa Braga há oito anos: a Câmara Municipal do Porto, quando ganhou o título, em 2017, pagou apenas 2.500 euros para avaliação de candidatura e inscrição. (cf. https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/camara-de-braga-pagou-86-mil-euros-ao-presidente-da-empresa-que-atribuiu-premio-de-melhor-destino-europeu?fbclid=IwAR0VbL2ju31QOfup6bU3Wr6WDtugIqawZp3PBGnHuE9EESz-AFYNbMTspY4).

A Câmara explica que “a inscrição em tal competição europeia foi feita por aquisição de contratação pública, de forma transparente, correta e honrosa, (…) e que ocorre com quaisquer cidades portuguesas ou europeias que se queiram candidatar a este prémio”.

Pode chamar-se a isto uma contratação pública transparente, correcta e honrosa por ajuste directo, como diz um extenso comunicado da autarquia? (cf. http://www.base.gov.pt/Base/pt/Pesquisa/Contrato?a=7473021).

  1. Finalmente, mas não em último lugar. O Edil bracarense visitou a ETAR de Frossos que está a libertar cheiros nauseabundos para milhares de cidadãos que trabalham e vivem “abaixo de Braga” — era assim que se dizia há umas década — e a poluir o rio Cávado. Saboreando os odores, Ricardo Rio, há 16 anos ao serviço de Braga (oito na oposição e oito no poder) desabafou: os maus cheiros provocados pela ETAR de Frossos envergonham a cidade (cf. https://www.rum.pt/news/maus-cheiros-da-etar-de-frossos-envergonham-a-cidade-admite-ricardo-rio). É exagero meu ou devia dizer que “os maus cheiros da ETAR de Frossos são a minha vergonha”? Ou já não tem?

Sem vergonha, trapalhão, sem lealdade, imerecedor de confiança, que espera Ricardo Rio para deixar os bracarenses em paz e sossego, desassossegados com uma mão cheia de promessas incumpridas?

Os bracarenses vivem um drama: os esqueletos que Ricardo Rio tinha no armário não servem de resposta.

Já agora, se aceitar o convite do povo e olhar por ele abaixo, sempre dirá: que triste figura ando eu a fazer!

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    O que nos faz seguir um líder?
    Carneirismo? Ingenuidade? Falta de auto-estima?

    Quanto ao resto do post: sim, soa tudo a aldrabices, trafulhices e bandalhices, como é habitual nas autarquias e nos autarcas pelo país fora. É a classe pulhítica que temos.

    Mas algo neste post cheira – será possível? – a branqueamento do MEGA-CORRUPTO anterior: o autor parece menos preocupado com este do que com a ‘traição’ da sua confiança no tal almoço. Espero estar enganado; seria demasiado mau.

  2. JgMenos says:

    Chamem o Mesquita que a matilha está esfomeada, quer obra!

  3. Rui Naldinho says:

    Quem já teve a PàF a governar sabe que é difícil ir para pior.
    Quem já teve Mesquita Machado como edil de Braga, sabe bem que é difícil encontrar pior.
    Sejamos intelectualmente honestos. Este fulano, Ricardo Rio, não vale um tostão. É mais um dos múltiplos demagogos e trapalhões que pululam na política. Só que lembrando-se os Bracarences do anterior autarca socialista, bem como todas as tropelias por ele feitas, se calhar este até acaba por ser apenas medíocre.
    O ditado diz:
    “Atrás de mim virá, quem de mim bom fará”
    Eu diria que em política, hoje estamos mais ou menos assim:
    “Depois do que passei, pior não ficarei “