Memória Fotográfica II: Lisboa – Cidade triste e alegre, as influências: Edward Steichen, William Klein e Robert Frank

Na sequência do texto anterior da rubrica Memória Fotográfica, abordaremos, desta feita, as influências estrangeiras da obra portuguesa Lisboa – Cidade triste e alegre, de Victor Palla e Costa Martins.

Na última edição, foi dito que a obra que retrata a Lisboa das décadas de 50 e 60 do século XX é percursora de uma nova forma de fotografar as cidades e quem nelas habita, sobretudo devido à influência de três autores: Edward Steichen, William Klein e Robert Frank. E as suas obras: The Family of ManNew York e Les Americains, por ordem de enunciação.

Comecemos, então, por falar de Edward Steichen e da obra The Family of Man.

The Family of Man, de Edward Steichen, 1955

Edward Steichen nasceu no Luxemburgo no ano de 1879 e foi um fotógrafo de relevo na primeira metade do século XX. Imigra, com apenas um ano de idade, com os seus pais, para os Estados Unidos da América, onde, aos vinte anos, começa a desenvolver o interesse pela arte fotográfica.

Fotografia da obra The Family of Man

O fotógrafo, naturalizado estado-unidense em 1900, notabiliza-se como curador da ambiciosa exposição fotográfica The Family of Man, com início em 1955, aquando da sua direcção no MoMA, em Nova Iorque.

Fotografia da obra The Family of Man

A exposição reuniu 503 fotografias de 68 países diferentes, na qual participaram 273 fotógrafos (a maioria natural dos Estados Unidos da América). O intuito da exposição, por ter sido realizada no período do pós-guerra (II Guerra Mundial), era o de manifestar os valores da paz, da igualdade entre os povos (destacando as suas diferenças culturais) e a liberdade, mas, também, o de retratar sociedades afectadas pela devastação de uma guerra violenta e marcante. The Family of Man insere-se num género de fotografia humanista (no seio da fotografia documental/foto-jornalismo) da qual se pode considerar pioneiro.

New York, de William Klein, 1956

Falemos agora de New York e do seu autor, o fotógrafo estado-unidense William Klein.

Klein nasceu em Nova Iorque no ano de 1928. Filho de imigrantes judeus (de origem húngara) da altura da I Grande Guerra, William cresceu num seio pobre tendo sido, durante a sua infância e adolescência, profundamente marginalizado por quem considerava indigna a mistura entre pessoas de diferentes estratos sociais.

Fotografia da obra New York

Em 1956 lança New York, um livro fotográfico, considerado um dos trabalhos mais influentes e inovadores na altura da sua publicação. A obra caracterizava-se pelo retrato da agitada cidade dos Estados Unidos da América, no pós-II Guerra Mundial.

Fotografia da obra New York

À época, a obra veio abalar o status-quo da forma como se trabalhava em fotografia, muito por culpa dos seus planos bastante apertados, dos cortes de imagem, num ambiente caótico de claustrofobia social, movimento constante e o cosmopolitismo que é associado a Nova Iorque. Em New York, Klein consegue, de forma brilhante a impactante, mostrar tal imagem da cidade e dos nova-iorquinos, fossem eles meros transeuntes, ou trabalhadores.

Fotografia da obra New York

O livro de William Klein é considerado pioneiro no estilo de fotografar as cidades e as suas pessoas.

Robert Frank, Les Americains (The Americans na edição norte-americana), 1958/1959

Por último, importa realçar Robert Frank e a sua obra Les Americains.

Robert Frank nasce em 1924 na Suíça. Foi um dos mais significantes fotógrafos contemporâneos.

Criado no seio de uma família de origem judaica, o seu fascínio pela arte de fotografar surge cedo, na sua adolescência. A partir daí foi aperfeiçoando a sua técnica e encontrando o seu espaço.

Fotografia da obra Les Americains

Após a guerra que terminou em 1945, Frank viaja, nos anos de 1955 e 1956, para os Estados Unidos da América, onde desenvolve o seu mais reconhecido trabalho: Les Americains.

Les Americains foi publicado em 1958, na França, e no ano seguinte nos EUA.

Fotografia da obra Les Americains

 

Fotografia da obra Les Americains

De tom irónico e atrevido (estilo que caracteriza Robert Frank, apesar da sua aparência discreta e do seu trato tímido), as fotografias apresentadas na obra do fotógrafo suíço revelam um afastamento social entre os diferentes intervenientes da sociedade estado-unidense da época, assim como um país multicultural, mas que, ao mesmo tempo, é discriminatório e desvaloriza as minorias e os pobres.

Podemos aferir, em jeito de conclusão, que Lisboa – Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla e Costa Martins, retratando a sociedade lisboeta durante o regime salazarista, acabou por ser influenciada pelos trabalhos de Klein, Frank e Steichen, na medida em que estes partem, também eles, de fases críticas da História Mundial, para retratarem sociedades a viver as consequências da II Guerra Mundial. Todos eles retratam, à sua maneira, a realidade crua e dura dos lugares que fotografaram.

As quatro obras acabam por fazer parte do mesmo conjunto em termos de estilo e arrojo, pois todas elas trouxeram uma nova (e diferente) forma de fotografar a cidade e as pessoas que nela habitam, influenciadas por acontecimentos de relevo que afectaram as sociedades em questão e abriram portas ao foto-jornalismo para se desenvolver com uma visão contemporânea.

Na próxima edição da rubrica Memória Fotográfica, iremos abordar a vida e obra de um dos melhores fotógrafos de guerra, de seu nome Endre Erno Friedmann, mais conhecido pelo nome artístico Robert Capa. Até já.

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.