Memória Fotográfica I: Lisboa – Cidade triste e alegre

Lisboa – Cidade Triste e Alegre, edições Círculo do Livro, 1959

“Um livro que é um poema, ou uma história de Lisboa que é uma fotografia da cidade (…)”
(in Público, Joana Amaral Cardoso 12 de Abril de 2018)

Em 1959, por iniciativa e trabalho da dupla de arquitectos Victor Palla e Costa Martins, é publicado, pela primeira vez em Portugal, o livro fotográfico Lisboa – Cidade Triste e Alegre.

“O livro reúne cerca de 200 fotografias, que os autores paginaram em estreita relação com excertos de poesia da autoria de Fernando Pessoa (et Álvaro de Campos, Ricardo Reis), António Botto, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde, Gil Vicente, e inéditos de Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, entre outros nomes da cena literária portuguesa de então, com destaque ainda para o texto de abertura de José Rodrigues Miguéis.” (Círculo do Livro, Lisboa – Cidade Triste e Alegre, 1959). Em 2006, após a morte de Victor Palla, o livro foi re-editado.

Os autores, Victor Palla e Costa Martins, no final da década de 1950

Tendo como pano de fundo a cidade de Lisboa e as suas gentes, a obra é ainda hoje considerada uma obra-prima e uma referência no plano da fotografia, em concreto da fotografia documental portuguesa contemporânea. Cidade Triste e Alegre advém do poema “Lisbon Revisited”, de Álvaro de Campos, um dos heterónimos do poeta português Fernando Pessoa. Em 1959, data da sua primeira edição, o livro foi posto a circular em fascículos. Ora porque, à época, era prática recorrente, ora porque se vivia sob um clima geral de medo e intimidação, pela vigência do regime fascista liderado por António de Oliveira Salazar.

Fotografia da obra Lisboa – Cidade triste e alegre

Durante três anos, a dupla de arquitectos propôs-se a revisitar a cidade de Lisboa e os seus bairros, com o objectivo de mostrar uma Lisboa de contrastes, rica na elite escolhida pelo regime, pobre na sua povoação, triste na sua melancolia e opressão, alegre no carácter afável e solto dos lisboetas. “Se fosses fazer um álbum como aquele, 200 páginas, com aquele impacto, se fosses fotografar os bairros populares e passasses pela censura, se calhar tinhas problemas. Eles escreveram que era este o projeto deles: mostrar a Lisboa que não se mostra. Hoje, é o contrário, aquela é a Lisboa do postal. O gesto deles
é o equivalente a dizer “vou fazer um livro chamado Lisboa e fotografar na Amadora, Chelas, Almada”. (André Príncipe, jornal Público, 2015)

Fotografias da obra Lisboa – Cidade Triste e Alegre

A ditadura do partido único, vigente na época, e a sua rede de acção repressiva, como é exemplo a censura, fizeram com que o livro alcançasse um sucesso muito escasso na altura da sua publicação. Ora, com o livro esquecido, em 1983 António Sena recupera-o e expõe-no em Lisboa e Tejo e Tudo, na galeria Ether – Vale Tudo Menos Tirar Olhos. Em 2004 a obra é considerada por Martin Parr e Gerry Badger um dos melhores livros do pós-Segunda Guerra Mundial, transformando-se num objecto de culto. “(Victor Palla e Costa Martins) Não viajavam (…) mas informavam-se através das revistas internacionais. Conheciam o trabalho de fotógrafos estrangeiros contemporâneos, como Klein ou Frank, que tinham acabado de lançar “New York” e “Les Americains”, respectivamente, e que eram precursores de uma nova forma de retratar as cidades”, diz Margarida Medeiros (Soromenho, Ana, “Um poema gráfico”, Expresso (A Revista do Expresso), 17 de outubro de 2015, p. 61)

Fotografia da obra Lisboa – Cidade triste e alegre

O livro apresentou-se, então, como disruptor da forma como se fotografavam as cidades e as pessoas que nela habitam, cortando com o estabelecido como “estético” ou “belo”, causando o seu insucesso na altura, quer por estas razões, assim como pela situação política, social e económica da época, e pelas razões já explanadas. De 13 de Abril a 16 de Setembro de 2018 foi apresentada no Museu de Lisboa a exposição Lisboa, cidade triste e alegre: arquitetura de um livro, comissariada por Rita Palla Aragão, neta de Victor Palla. Em paralelo à exposição, o jornal Público publicaria uma re-edição da primeira versão do livro em fascículos. Mas, para entender melhor o contexto da importância visual e temática de Lisboa – Cidade Triste e Alegre e o seu impacto na arte fotográfica, é necessário realçar e abordar três obras de três fotógrafos estrangeiros (dois deles supratranscritos na citação de Margarida Medeiros).

Na próxima rubrica do Memória Fotográfica falaremos, então, de Edward Steichen, William Klein e Robert Frank, e as suas obras, The Family of Man, New York e Les Americains, por ordem de enunciação.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    É mentira, toda a gente sabia que não faltava calçado na altura.

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  1. […] Na sequência do texto anterior da rubrica Memória Fotográfica, abordaremos, desta feita, as influências estrangeiras da obra portuguesa Lisboa – Cidade triste e alegre, de Victor Palla e Costa Martins. […]

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