Aos jovens da minha Terra

Sou o Francisco Salvador Figueiredo, tenho 21 anos, estou matriculado em Filosofia – sim, “matriculado” é a palavra certa – e estou a trabalhar em Karviná (República Checa) num projeto de voluntariado com crianças deficientes. Não, isto não é uma apresentação nos Alcoólicos Anónimos. Estejam descansados.

Nasci no Porto, vivi no centro do Porto desde os 10 anos e ainda tive uma passagem por Lisboa. Sim, faço parte dos privilegiados, seja lá o que isso for. Sempre me interessei por política. Era defensor da Marisa Matias em 2016, porque a história de vida dela e a sua qualidade em unir pessoas de várias cores políticas me fascinavam. Simpatizava com o Bloco, porque tinha 16 anos, queria igualdade, liberdade e tudo na paz. Entretanto, as minhas ideias foram caminhando para a direita e desde aí já pensei muita coisa, mas instalei-me rapidamente no Liberalismo. Atualmente, considero-me um liberal em toda a linha, focado no indivíduo e na liberdade como um bem em si mesmo. No entanto, este texto não é para falar da minha ideologia, é um texto dirigido para as pessoas da minha geração.

Na sexta-feira, todos vimos o que aconteceu com José Sócrates. Eu não sou advogado, jurista, nem estudei nada disso. Por isso, falo como mero jovem que sou. O que se passou revolta qualquer jovem que se viu privado da sua liberdade desde março de 2020, que viu a sua aprendizagem em piores condições, que se viu limitado no seu dia-a-dia. E revolta qualquer jovem que queira um dia a singrar no seu país, mas tem de ver na televisão alguém que foi corrompido a beber um fino descansado. Revolta qualquer jovem sentir que vivemos numa democracia que tem uma justiça para os poderosos, para a oligarquia do centrão dos interesses, e outra justiça para a populaça. Revolta qualquer jovem sentir que a democracia tem um dos seus pilares fundamentais a tremer por todos os lados.

Há de haver quem à esquerda ache que isto se resolve com mais intervenção do Estado, há de haver quem à direita ache que isto se resolve com um Estado mais pequeno, mas forte na sua função. Mas não acredito que haja alguém que se acredite que isto se resolva com menos democracia, por isso, meus companheiros de geração, temos todos algo em comum. Algo que nos une e que ultrapassa as ideologias políticas.

Eu não me sinto diretamente afetado pela pandemia ou pelos efeitos colaterais, e estou bastante revoltado. Agora, imaginem quem perdeu poupanças, quem perdeu empregos, quem perdeu negócios e, pior que tudo, quem perdeu pessoas. Como posso pedir a estas pessoas que não alinhem em populismos, sejam eles de esquerda ou de direita? Como posso pedir racionalidade, se, até eu, fico a ferver com isto? Onde está a minha moral para dizer a alguém que partido A, B ou C é solução porque temos de recusar o caminho fácil? Não tenho. Perdi-a. Perdi-a eu e perdemos todos, porque permitimos ao centrão de interesses impor a sua ditadura mascarada democracia. As eleições não passam de uma porta giratória, entram e saem, mas mantém-se os poderes mais que instalados.

Se não nos unirmos para combater isto que nos indigna a todos, vamo-nos unir para quê? Para beber finos com os conservadores de polo e as alternas de eyeliner?

Não é no Twitter. Não é no Facebook. Não é nos grupos de WhatsApp. Não é no café. Não é no cabeleireiro. É nas ruas. Sempre foi nas ruas.

25 de Abril sempre, corrupção nunca mais!

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Exacto, é na rua, não é só na urna.
    Mas eu só não percebo uma coisa; quer-se meter medo e duvidar de qualquer contracto público, concurso, e apoio; e, ao mesmo tempo, quer-se que se apoie a recuperação do seu emprego (não é o seu do FF, é plural) e dos seus conhecidos, mas não dos vizinhos que não se conhece. Até transportes públicos gratuitos é mau, quando ao lado já foi bom.
    É por isso que é necessária alguma cabeça fria, mesmo discordando de forma quente de como o fazer. E não esquecer que é tudo aprovadinho em países por pessoas que lucram com as escolhas, bem ou mal, condicionadas, e onde colaboram com pessoas que, se não são iguais, não andam longe.

  2. Albino Manuel says:

    O Aventar tem agora uma secção juvenil? Isto está mal. Bom saber que o Chico Figas anda a estudar.

    • João L Maio says:

      Tem juvenil, seniores e terceira idade.

      Bem, se calhar estou a exagerar na terceira idade. Mas tem juvenil sim senhor. Eu acuso-me: 25 anos. Mas há mais aventadores na casa dos 20’s. E que bem!

  3. JgMenos says:

    Só os líricos acreditam que o 25A tornado marxista, consumista, mamão, invejoso, chulo, alguma vez vai deixar de ser corrupto sem uma comoção que verdadeiramente desperte uma carneirada massacrada com a ideia de tudo no passado era tão mau que toda esta merda é progresso!

  4. J. M. Santos says:

    “Como posso pedir racionalidade, se, até eu, fico a ferver com isto? ”
    Como? Não quer racionalidade?
    Reconheço-lhe coerência quando apela á rua: aí não se vai pela racionalidade alidade mas pelo cacete. Quem der mais cacetada ganha. Pelo menos no curto prazo.

    • Paulo Marques says:

      Não, “a rua” é o protesto, milícias ou gangues é outra coisa. Dá jeito confundir para evitar o primeiro, só que corre mal quando só resta o segundo.

  5. Daniel says:

    Mas o que se passou?
    Não faltam situações (em Portugal e pelo mundo fora) em que casos suspeitos foram arquivados ou prescreveram e não passa nada… submarinos, BPN’s, etc, etc…
    Depois da prisão atribulada (e talvez ilegal) do Sócrates, ele foi finalmente acusado (segundo os especialistas, a investigação e acusação foi, no mínimo, incompetente) de vários crimes e não de outros – por terem prescrito ou por não haver prova suficiente.
    A justiça faz-se tribunais e não nas CMTV’s ou nas tascas e portanto convém não confundir as coisas…

  6. J. M. Santos says:

    Daniel: concordo inteiramente consigo.
    O populismo está a avançar mas já houve coisas mais perniciosas.
    Há quem não compreenda que isto é luta partidária. E bem, sem partidos e sem luta partidária não há democracia.
    Deixe-os gritar e mudar de partido como o Jovem Francisco. Quem não está bem muda-se.

  7. POIS! says:

    Pois estou à espera…

    Que a IL também avance com qualquer coisa. Mas duvido!

    A IL é o partido preferido dos gestores das empresas do PSI-20 e companhia. E das associações patronais.

    Aconteceu o mesmo com o “Ciudadanos” em Espanha. Que se afundou porque cresceu a combater a corrupção do PP e, na primeira oportunidade, aliou-se a a esse mesmo PP na Andaluzia num acordo que incluiu o Vox (onde é que eu já vi isto por cá?).

    Mais tarde fez o mesmo no parlamento, fazendo bloco com o PP.

    E veio por aí abaixo.