Memória Fotográfica III: Robert Capa

Tal como anunciado no final da edição anterior da rubrica Memória Fotográfica, falaremos, desta vez, do foto-jornalista Robert Capa.

Endre Erno Friedmann, mais conhecido como Robert Capa

Nascido Endre Erno Friedmann, Robert Capa (22 de Outubro de 1923, Budapeste – 25 de Maio de 1954, Thai-Binh) foi um fotógrafo húngaro do século XX. Endre celebrizou-se como um dos melhores fotógrafos de guerra do século XX, tendo feito a cobertura de vários conflitos armados da primeira metade do mesmo século, tais como a II Guerra Mundial ou a Guerra Civil Espanhola.

Robert Capa / London Express

Durante os anos da sua formação, o jovem Endre descobre-se atraído pelos ideais de índole marxista, considerando-se socialista e, acima de tudo, anti-fascista. Perseguido pela polícia política acaba exilado em Berlim, onde completa os seus estudos e se aproxima da actividade jornalística. Em 1931, inicia a sua carreira foto-jornalística. Trabalha para a agência alemã Dephot, antes de se refugiar em Viena, na Áustria e, a seguir, em Paris, na França. É neste ano que fotografa Leon Trótski, intelectual marxista e revolucionário bolchevique que, após a morte de Vladimir Lenin, se opôs a Josef Stalin, num congresso em Copenhaga, na Dinamarca.

Trotski em Copenhaga, por Robert Capa

Endre Friedmann decide, a certa altura, criar o heterónimo Robert Capa, pela ligação do nome à fonética anglo-saxónica. Capa, em húngaro, significa “tubarão”. É durante este período que conhece Gerda Taro, fotógrafa alemã de ascendência judaica. Gerda foi a primeira grande foto-jornalista do sexo feminino, tendo falecido enquanto fazia cobertura de guerra. Em 1932, por conta do crescimento do partido Nazi na Alemanha, Robert Capa deixa Berlim e estabelece-se em Paris.

Em 1936 faz a cobertura fotográfica da Guerra Civil Espanhola, da qual se celebriza a fotografia “Death of a Loyalist Soldier” (em baixo), que espoletou o debate sobre se a mesma seria autêntica ou teria sido encenada e, em 1938 fotografa na Guerra Sino-Japonesa. Realidade ou ficção, é unânime para todos os amantes da fotografia que a mesma se trata de uma imagem intemporal, de valor inquestionável, que carrega em si o peso de um povo em guerra, de uma época de conflitos armados e de ideologias em choque.

Death of a Loyalist Soldier (1936)

“Para Robert Capa, fotografar era uma forma de luta contra o fascismo”.  (documentário Robert Capa: In Love and War, Anne Makepeace, 2002)

Fotografia de Robert Capa

De facto, toda a acção de Robert Capa, por influência do seu próprio contexto social, foi pautada pela luta contra regimes opressores e ditatoriais, nomeadamente, na sua época, o fascismo e o nazismo, que vigoravam em vários países europeus, como Itália, Alemanha, Espanha ou Portugal. Mas o seu meio de ataque, ou de defesa, era a sua máquina fotográfica, que registava os momentos que se eternizariam na História, ao invés da arma em punho a anunciar a morte.

Quando iniciou a II Grande Guerra, Robert Capa encontrava-se em Nova Iorque, à procura de trabalho e de forma a fugir à opressão imposta pelo regime da Alemanha de Hitler. No entanto, faz cobertura do conflito em diferentes lugares, como na Itália ou na Argélia, como correspondente da revista Life, e ficaram conhecidas as suas fotografias do desembarque das tropas na Normandia, naquele que ficou eternizado como o Dia D.

Fotografia de Robert Capa, 6 de Junho de 1944, Normandia, França

A sua série de imagens deste dia seriam nomeadas como The Magnificent Eleven. Robert Capa fotografou neste dia 106 imagens; no entanto, apenas 11 delas sobreviveram, após erros na revelação por parte do seu assistente. O peso da perda do espólio de Robert Capa, no que diz respeito a este acontecimento, é enorme; as restantes 95 fotografias nunca serão recuperadas e o seu valor nunca será apreciado e reconhecido. Restam-nos as 11 que sobejaram, a partir das quais podemos formar uma imagem imaginativa do que poderá ser o resto do espólio, aos olhos de Robert Capa.

Fotografia de Robert Capa, Paris, 1944

Capa morre em 1954, no Vietname, depois de pisar uma mina de guerra.

Mas, antes disso, o fotógrafo húngaro deixou-nos, ainda, uma herança de valor inquestionável e inestimável: funda, em 1947, juntamente com os também fotógrafos Henri Cartier-Bresson, David Seymour e George Rodger, a agência Magnum Photos Inc.

Sobre Robert Capa, escreveu o Boston Review que era “um homem de esquerda e um democrata – apaixonadamente revolucionário e apaixonadamente anti-fascista” (Linfield, Boston Review).

Robert Capa

Deixo-vos, por fim, com o documentário In Love and War, de Anne Makepeace.

Na sequência desta edição, falaremos, na próxima edição desta rubrica, da agência fotográfica co-fundadada por Robert Capa: Magnum Photos Inc.

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