Ser humano é praticamente impossível

Graças ao magnífico programa de Joanna Lumley sobre o Reino Unido, fiquei a conhecer a história de Richard Moore, o homem que ficou cego aos 10 anos, em Derry, atingido por uma bala de borracha saída da espingarda de um soldado britânico na Derry (Londonderry para os unionistas) de 1972, no mesmo ano do Domingo Sangrento. Na mesma cidade do Domingo Sangrento.

Moore foi o rapaz que nunca mais viu os pais e que soube ser humano quase até à impossibilidade. Quem não ficaria prisioneiro de um ódio compreensível, tolerável, quase necessário?

Richard Moore conheceu o homem que o cegou. São amigos, o que é impossível, a não ser que se seja estranhamente humano. O mundo do pensamento está cheio de definições – o homem é um animal político, um animal racional, o único animal que ri, o animal que se sabe mortal. Não sei se já alguém disse que o homem é o animal que perdoa, o animal que passa a ser humano quando perdoa.

Odiar é absolutamente natural, o desejo de vingança é o descendente do instinto do predador que não pode ver outro animal a correr sem sentir que tem de o atacar. O meu grande objectivo, a partir do momento em que alguém, mesmo sem querer, me tirasse a visão seria conseguir ter as mãos à volta do pescoço ou perto dos olhos de quem me tivesse feito mal.

A história de Richard Moore impressionou o Dalai Lama, outro dos seus amigos. O encontro entre ambos está patente num mural de 18 metros de altura. Moore, num trocadilho feliz, passou a ser conhecido por “Derry Lama”.

Charles Inness, o soldado que disparou a bala, pediu-lhe perdão. Num raro momento de humanidade, Moore confessou que lhe soube bem ouvir “sorry”. Ser humano é perdoar, repito. Ser humano é praticamente impossível. Richard Moore existe, o que nos dá esperança de conseguir abandonar o pior do animal que somos no cimo da árvore donde descemos e donde raramente saímos.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O conjunto de factos verídicos contados por António Fernando Nabais acerca destes personagens, demonstra que a excepção à normalidade existe. O mudo é feito de um conjunto comportamentos normais na nossa espécie, no qual a violência e o ódio são parte integrante. Depois temos as excepções.
    O que é que nos diz a excepção? Que é possível ser diferente.
    Apenas isso, infelizmente.

  2. Filipe Bastos says:

    Ser humano é perdoar, repito.

    Será?

    Gostamos de considerar ‘humano’ o comportamento que nos dignifica e ‘desumano’ o que nos repugna. Mas como já disse o Naldinho, violência, ódio, crueldade, etc. são humanos.

    Tal como um gato ou uma girafa não riem nem perdoam, também não prendem e torturam outros gatos e girafas, não os exploram por lucro, não os odeiam, não os destroem por ganância ou por diversão. Tudo isto é exclusivamente humano.

    Vemos o Sr. Moore como um exemplo porque gostaríamos de ser mais assim. Mas ele é tão humano quanto o soldado que o cegou, ainda que este o tivesse feito de propósito. Quem lá mandou o soldado, quem o mandou disparar, era também humano.

    • Paulo Marques says:

      O importante é saber qual dos dois votou em José Sócrates para saber quem tem razão.

      • Filipe Bastos says:

        Aqui entre nós, v. votou no Trafulha, não votou? E se pudesse voltaria a votar, não votava?

        Sabe como sei? Não é só por passar os dias a branquear o Partido da Sucata, ou as negociatas mafiosas / ruinosas do Trafulha, a que chama ‘investimento do Estado’, ou o restante esgoto político-sucateiro.

        É por chamar-lhe ‘José Sócrates’. Quem tem asco suficiente ao pulha não lhe chama isso. Chama-lhe Trafulha, 44, FDP, Pinto de Sousa, quando muito ‘Sócrates’, mas nunca isso. Eu sei. Chamo-lhe Trafulha vai para vinte anos.

        • Tuga says:

          “. Chamo-lhe Trafulha vai para vinte anos”

          Começas-te cedo na politica, quando entraste para o infantário

        • Filipe Bastos says:

          Começas-te … entraste

          Mau: essa coerência?

          Há vinte anos não andava no infantário; já nem andava na faculdade. Mas nunca entendi como o Trafulha podia enganar alguém. O Trafulha só engana quem quer ser enganado. Os xuxas. Os otários. Os Marques. Os Tugas.

          • Tuga says:

            “já nem andava na faculdade.” ????

            . Como é possível ?

            És um “papagaio” pós adolescente e chato

        • Paulo Marques says:

          A única vez que votei no PS, ou membro desse partido, foi nestas autárquicas. E, como lhe disse, também “branqueio” o anterior autarca recém inocentado do PSD, porque sem estado de direito o resto cai. E, porque como já lhe disse várias vezes, o facto de trafulhas meterem ao bolso retirar aos restantes é maioritariamente uma opção, e com isso está o sans-couloute bem; até preferia uma subida de impostos e um aumento de monopólios e preços desde que pudesse enfiar meia dúzia num buraco durante décadas.

        • Filipe Bastos says:

          A única vez que votei no PS…

          Claro, claro. E eu sou astronauta nas horas vagas.

          Agora trata-me por ‘sans-couloute’? OK, como quer que o trate? Lumpen? Idiota útil? Que tal ‘piaçaba autista’?

          • Paulo Marques says:

            Trata como quer, como sempre. Se acha que sans-couloute é fraquinho para quem quer bater em todos, posso trocar por enragé, para não se sentir menosprezado.

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