A importância da linguagem e os macacos que não comem bananas

Quando era miúdo, tinha uma obsessão por questionar tudo o que me era transmitido com uma certeza inabalável. Detestava a resposta do porque sim, do porque eu digo, e do porque sempre foi assim. Queria que me respondessem de uma forma clara porque é que as coisas eram como eram.

Bem sei que hoje associamos a idade dos porquês a uma certa parte da infância, mas, no meu caso, esta atitude acabou por se tornar parte integrante da minha personalidade, até aos dias de hoje.

Recordo-me de duas situações em particular que ilustram bem esta obsessão com o porquê das coisas: na primeira, por volta dos 10 anos, discuti com o meu pai a possibilidade que eu tinha em atravessar a estrada fora da passadeira. Dizia-me ele que eu não podia atravessar fora da passadeira. Eu contrapunha, dizendo, posso sim, mas não o faço; na segunda situação, em conversa com a minha mãe, dizia-lhe, algures ali a meio da adolescência, que a valorização económica das alianças estava alicerçada num valor histórico: se, no passado, se tivessem trocado peúgas nos primeiros casamentos, hoje as peúgas custariam várias centenas de euros.

À parte da imagética de miúdo insolente que o leitor possa estar a criar na cabeça – e com a qual não vou discordar -, incomodava-me a ideia de proibição, enquanto criadora de automatismo. A certa altura, deixaríamos de nos questionar porque estávamos a fazer determinada acção, fazendo-o apenas porque sim. E como me atormentava a ideia de uma vida não pensada, como se fôssemos um robot, uma marioneta nas mãos de alguém. Se na situação das alianças era um mero exercício de pensamento, o acto de atravessar estrada contém perigo real. Mas, de alguma forma, dava imensa importância ao facto dessa percepção do perigo ser originada na própria mente do sujeito em acção. E foi também um dos primeiros momentos, que guardo com carinho, em que me apercebi do poder da linguagem, da magia que está inserida na utilização de uma palavra. Nunca será só uma palavra, mas um mundo dentro de cada uma delas.

Esta atitude, cujos fundamentos eu percebi mais tarde – naquela altura só sabia que me irritava – remete-me para a história dos macacos numa jaula. Descobri a história no livro A Arte do Inconformismo, de Chris Guillebeau, embora não lhe tenha rastreado a origem (se algum leitor me quiser esclarecer sobre isto, nos comentários, esteja à vontade).

Diz-nos, então, esta história, que um sádico colocou cinco macacos dentro de uma jaula, obrigados a uma vida entediante, embora com comida e água suficientes no fundo da jaula. No topo, o sádico colocou um belo cacho de bananas. Assim que o primeiro macaco trepa a jaula para tentar chegar às bananas, o sádico liga uma mangueira e deixa, não só esse macaco, como todos os outros, completamente encharcados, numa experiência que se repete. Sempre que um macaco arrisca chegar às bananas, todos ficam ensopados. Até que, depois de algumas repetições, os macacos acomodam-se com a ideia de que não podem comer as bananas.

Eis então que o processo muda. O sádico retira um macaco e substitui-o por outro, que desconhece as regras do jogo. Assim que esse novo macaco tenta trepar a jaula, os outros puxam-no para baixo, habituando-o, rapidamente, à ideia de não chegar às bananas. Os macacos originais são substituídos, um por um, até chegar à altura em que nenhum deles faz parte do bando original, ou seja, nenhum deles foi alguma vez encharcado pela mangueira.

É então que um deles se questiona: então porque não podemos comer as bananas?

Ao que outro lhe responde: não sei, só sabemos que não podemos.

Parecendo que não, esta fábula ilustra bem um mecanismo de pensamento que acontece tantas vezes com os seres-humanos. Habituamo-nos a determinadas formas de pensar que aceitamos como normais, como regra, e não as questionamos. É importante que tenhamos sempre a mente aberta, que a defendamos de ficar atrofiada, sob pena de um dia olharmos pra trás e percebermos que vivemos um vida pensada por outros.

Não quer isto dizer que devamos questionar tudo ao infinito, perdendo-nos no nosso próprio vórtex da dúvida. Como tudo na vida, penso, devemos encontrar o equilíbrio entre o conhecimento existente sobre o mundo e a nossa percepção reflectida sobre esse mesmo conhecimento: só assim estamos, de facto, a produzir conhecimento, e não a repeti-lo. Só assim poderemos disfrutar de um bom cacho de bananas.

Comments

  1. British says:

    What ?

  2. Paulo Marques says:

    E questionou-se sobre se a experiência existiu mesmo? 😉
    Na dúvida, parece que não, se sim alguém saberia
    https://skeptics.stackexchange.com/questions/6828/was-the-experiment-with-five-monkeys-a-ladder-a-banana-and-a-water-spray-condu

    Mas isso não retira validade ao exercício, é algo a ter em conta, e provavelmente deve existir em muitas correntes filosóficas.

  3. luis barreiro says:

    Tive uma experiência parecida, quando era mais novo nas tv´s e afins volta e meia aparecia o meme : … a muralha da china é a única obra feita pelo homem vista da lua… .
    Sempre achei estranho, quanto mede em altura a muralha? 10, 20 … 30? metros em altura, tudo bem o big ben mede mais, Largura? quanto mede? 10, 20… 30? as piramides são mais largas! comprimento …. sempre questionei, mas reconheço, o covid dá a ganhar dinheiro aos políticos mais que tudo o resto.

    • POIS! says:

      Pois é um lindo argumento para um filme! Parabéns, ó barreiro!

      E qual vai ser o papel de V. Exa? Prefere o de macaco ou o de banana?

  4. balio says:

    Todos os animais se comportam assim. Por exemplo, as mães orangotango andam sempre com os seus bebés ao colo e ensinam-lhes quais os frutos da floresta que eles podem comer, e quais os que não podem. Isto porque há muitos frutos da floresta que são venenosos. É claro que as mães orangotango nunca comeram esses frutos, porque foram ensinadas pelas mães delas a não o fazerem.
    As mães humanas também o fazem. Ensinam os filhos e as filhas uma série de coisas que elas próprias não sabem porque (e se) são verdade. Conheci uma rapariga que me explicou que a mãe lhe tinha ensinado que, se uma mulher não menstrua durante muito tempo, isso é péssimo (já não me lembro se ela dizia ser mortal ou não) para a saúde dela.
    Há também certos ensinamentos que são sacralizados. Por exemplo, os judeus e muçulmanos ensinam os filhos a não comerem carne de porco. Não sabem nenhuma razão para isso, a não ser o facto de Deus lhes ter ordenado que não o fizessem.

  5. Filipe Bastos says:

    Como o balio e o link do Marques comentam, a credulidade dos macacos não é tão ridícula como parece: é assim que aprendemos muita coisa. É por seguirmos alguns comportamentos e evitarmos outros, amiúde sem saber porquê, que não morremos ainda envenenados, atropelados ou a meter os dedos nas tomadas.

    Claro que depois cabe-nos, como o César, ir além dos macacos; cabe-nos saber porquê. Mas a maioria nunca o faz.

    Eis uma versão humana da experiência, tirada do link do Marques: https://youtube.com/watch?v=MEhSk71gUCQ

    Não sei se é real, mas poderia ser. É a isto que chamo a carneirada. Todos podemos ser um pouco carneiros; fomos ensinados a não questionar a autoridade, a riqueza, hoje em dia a partidocracia e o capitalismo. Mas temos de questionar. Tudo.

    É também isso que nos faz, pegando no post anterior do Nabais, humanos. Nós questionamos. Macacos e carneiros não.

  6. Júlio Rolo Santos says:

    Há evidências que é melhor não questionarmos. Aceitamos e pronto. Refiro-me a vacinação contra a covid. Quem não passou pela doença é melhor não arriscar e submeter-se. Quem apanhou o vírus certamente que já não teve tempo de se questionar do porquê apanhar a vacina.

    • Paulo Marques says:

      É melhor porquê? Não há problema nenhum em questionar a vacinação, como outra coisa qualquer, é preciso é questionar com a noção do que não se sabe que é pré-requisito. E pode-se ir por aí, parando nalgum lado, para voltar atrás, gasta-se é muito tempo.
      Coisa muito diferente é desconfiar porque não dá jeito e ficar por aí; não é inútil, mas é preciso cuidado.

  7. Elvimonte says:

    So stupid… Let’s go Brandon

  8. Elvimonte says:

    O meu comentário anterior “So stupid… Let’s go Brandon” não era dirigido ao César Alves, de quem até aprecio os escritos, mas sim ao avençado peça de mobiliário do blog de nick british e ao seu habitual comentário “what?”.
    Que fique registado o esclarecimento e também que já várias vezes os meus comentários não são publicados ou surgem no local indevido. Não sei se trata de algum tipo de shadow banning, mas que é estranho, é.

    • POIS! says:

      Pois, mas…

      E o Brandon? Já cumpriu a sua missão?

      Vem aí um Elvimontezinho a caminho?

      Estamos todos em pulgas!

    • Paulo Marques says:

      É o mercado a funcionar, camarada.
      Mas continuo sem perceber porque acha que alguém quer saber do lame duck.

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