3 coisas que aprendi quando desisti da faculdade (duas vezes!)

E porque voltaria a fazê-lo, se fosse preciso.

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É difícil quando sentes que não te enquadras no paradigma social de terminar o ensino obrigatório, escolher um curso de uma curta lista (aqueles que dão mais dinheiro, claro), independentemente das tuas paixões ou dos teus sonhos. De seguida, tens de dedicar toda a tua vida a essa área, a esse trabalho, porque precisas de dinheiro para sobreviver. Um dia, reformas-te e passas o resto dos teus dias a pensar porque não fizeste mais nos teus melhores anos.

Quem disser que isto não é o que a sociedade espera de nós, mente. Porque todos sentimos essa pressão na escola, a pressão de ter boas notas, de entrar na universidade, de ter um “futuro”. Tudo clichés que tomamos por garantidos e nem sequer questionamos.

Eu senti a pressão, sobretudo quando estava a terminar o ensino secundário. Tinha boas notas e os meus professores, bem como os meus pais, viam em mim esse “futuro” de que todos falam.

No entanto, e porque não sabia realmente o que queria fazer com a minha vida, e também porque adorava várias áreas, decidi ir trabalhar, em vez de seguir para o ensino superior. Nesta fase, temos duas opções: ou vamos para a universidade, ou aceitamos qualquer trabalho porque precisamos de dinheiro. E assim vamos, pensando que não existem mais opções.

Parar durante um ano, trabalhando em regime de part-time, foi fantástico, apesar de não ter conseguido fazer nem metade do que pretendia. No entanto, escrevi um livro e comecei a perceber que era realmente isso que queria fazer para o resto da vida.

Depois desse gap year, entrei na faculdade. Estudei Cinema durante três anos e foi na última cadeira, depois de falhar o financiamento do meu projecto, e depois de passar 3 anos a ouvir dizer que estava a estudar algo inútil, que decidi mudar de curso e entrei na Faculdade de Direito. Dois semestres depois, vim embora com algumas boas notas no currículo, mas também com a mente atrofiada. Foi aí que decidi que escrever era, definitivamente, o meu caminho.

Foram tempos difíceis. Indecisões, pressão de todo o lado, uma solidão complicada. Mas, olhando para trás, para esses 4 anos de universidade, sei que foram essenciais para a pessoa que acabei por me tornar.

Portanto, ficam aqui três coisas que aprendi quando desisti da faculdade duas vezes, na esperança de que possam ajudar alguém na mesma situação. E não precisa de ser de um curso superior, mas também de um trabalho ou até de uma relação infeliz.

  1. Tudo leva tempo

Parece cliché e demasiado simples, mas a ideia de que as coisas levam tempo é uma daquelas que repetimos vezes sem conta, sem realmente a aceitarmos como verdade absoluta, vivendo num ritmo de ansiedade. Quando falamos com os outros, quase os forçamos a aceitar que as coisas levam tempo. Na nossa vida… Nem por isso.

Além disso, vivemos tempos de grandes pressões, de grandes imediatismos, e é difícil lutar contra isso. É esperado de nós que saibamos o que queremos demasiado cedo. Temos que escolher uma carreira com 18 anos, quando semanas antes tínhamos de pedir autorização a um professor para ir à casa de banho.

Eu precisei de um ano para decidir que queria entrar na universidade. Esse ano foi essencial para perceber várias coisas. Quem sabe até se teria publicado o meu primeiro livro sem esse ano de paragem. Mas também precisei de viver o mundo do ensino superior, quer em Cinema, quer em Direito, para perceber que o meu futuro não estava ali. Precisei dessas experiências, de as saborear, de sofrer com elas, para perceber o lugar que ocupavam na minha vida. Não voltava atrás em decisão nenhuma.

Ao longo do percurso, senti pressões de várias formas pelas mudanças que fiz. Mas agora sei que elas foram necessárias e que não me tomaram demasiado tempo: tomaram o tempo que eu precisava.

  1. É normal experimentar algo e não gostar

A maioria dos jovens na escola não têm oportunidade de falar em mudanças. Mudar de área, mudar de turma, mudar de curso na universidade. De uma maneira geral, não gostamos de mudanças, sobretudo em assuntos tão importantes.

Em relação a mudanças de cursos, as pessoas olham para elas como um desperdício de tempo… e, adivinharam, de dinheiro. O dinheiro é a linguagem universal que, infelizmente, regulamente a nossa vida e o nosso mundo. E está constantemente acima das nossas emoções e das nossas necessidades interiores.

Foi difícil lidar com as situações que enumerei acima. Quando decidi tirar um gap year, fui apelidado de desistente, sobretudo porque em Portugal o gap year não tem a tradição que tem noutros países. Disseram-me que se parasse de estudar, nunca mais voltaria. E eu voltei. Duas vezes!

Mas fui estudar Cinema e voltei a ouvir coisas inúteis. As artes são para torcer o nariz, o dinheiro é o problema do costume… “O que vais comer? Filmes?”. E, quando mudei de curso, toda a gente encheu o peito. E foi aí que perdi a batalha. Depois de tantos anos a ouvir as mesmas coisas, deixei-me convencer e fui estudar Direito. Apesar de tudo, foi uma área que sempre me deu algum interesse. Mas a experiência foi muito diferente…

É uma realidade dura, exigente. Ambiente muito peculiar, protocolar. Comecei este texto dizendo que é complicado não encaixar em paradigmas sociais. A faculdade de direito é uma tarefa hercúlea para quem se considerar um espírito mais livre.

E saí, também. As últimas semanas foram horríveis. Sabendo que teria de lidar com comentários e opiniões não requisitados, tive dificuldades em dormir, ataques de pânico e ansiedade, num conflito interior gigante entre o que eu precisava e o que a sociedade esperava de mim.

Felizmente, decidir pelo meu instinto foi um salva-vidas. E foi aí que percebi, depois de tantos altos e baixos, que é perfeitamente normal experimentar algo e não gostar, embora continuemos a ouvir o contrário por esse mundo fora.

  1. Não temos tantos amigos conforme achávamos, mas está tudo bem

A vida académica é incrível e toda a gente a deveria experimentar pelo menos uma vez. Tudo acontece rapidamente, conheces pessoas nova diariamente, e conheces-te melhor a ti próprio, quando, de repente, tens um novo grupo de amigos. E essas pessoas dizem muito sobre ti…

Há uma frase que diz que os amigos que fazes na faculdade são amigos para a vida. Bom, nem todos…

Quando abandonas a faculdade, mais de metade das pessoas a quem chamavas de amigos vão, lentamente, desaparecendo da tua vida. Isto porque essas amizades são baseadas em duas coisas: coexistência diária e a mesma área de estudos. Retirando essas duas variáveis, sobra pouca coisa.

Quando me apercebi disto, sofri um pouco. Mas, depois de alguma ponderação, a verdade é que isto faz parte da vida. E talvez aconteça com qualquer grupo de amigos, em qualquer situação. Quando mudas alguma variável, cresces, caminhas em frente e nem tudo tem de te acompanhar. Algumas coisas – e algumas pessoas – são apenas referenciais de memória de um tempo específico na tua vida e de uma pessoa que já foste, mas já não és.

Além disto, a melhor parte é perceber quem quer continuar o caminho contigo, apesar de tudo. Quando passas por isto, tens algumas surpresas.

Aprendi muitas outras coisas, mas acho que todas elas encaixam numa destas três categorias. Perceber estes três pontos e aceitá-los foi uma das fases mais importantes da decisão de sair da faculdade. Não foi uma decisão simples, mas uma que abalou os alicerces da minha vida e que me levou a questionar muita coisa. Felizmente, com tempo, com pensamento positivo, e com uma vontade enorme de aprender mais sobre a vida, o mundo e sobre mim próprio, as coisas endireitaram-se.

E faria tudo novamente. Voltar à universidade, voltar a aprender algo novo, porque aprender, absorver conhecimento, é uma das melhores coisas que podemos fazer na vida. Especialmente com tempo, com liberdade, e com os amigos certos.

Comments

  1. JgMenos says:

    Ter que ganhar a vida é ima chatice, e suspeita-se que atentatória do Direitos do Homem!

    • POIS! says:

      Pois atentatória, talvez não! Mas já foi bem mais fácil.

      Lá pelos anos 60 (ou 7 AQC da era salazaresca) tudo era diferente. Era a vida que nos ganhava a todos!

      Nessa altura tínhamos uma educação tão boa, tão boa, tão boa, que garantia a todos os varões quatro aninhos de trabalho a orientar safaris lá nas áfricas (o que se tornou a nossa principal indústria) , enquanto as damas ficavam por cá a divertir-se a amadrinhar os mancebos.

      E depois do regresso? As oportunidades eram tantas, tantas, tantas, que muitos resolviam primeiro ir dar umas voltas pela Europa em turismo, a gastar os rendimentos, a ver a torre Eiffel, e o Sena e tal.

      Por estarem mal habituados, e por serem muito mal agradecidos, a maioria costumava até ficar por lá!

      Que saudades, meu deus!

      “Minhas Botas velhas, cardadas
      Palmilhando léguas sem fim.
      Quanto mais velhinhasistragadas,
      Tanto mais vigor sinto em mim!”

      • Manuel Rodrigues says:

        Não havia necessidade, senhor POIS!. Abespinhou-se, não sei por que palavra que terei escrito no meu comentário, e foi rude, para utilizar um adjetivo simpático. Provavelmente vivi quase tantos ou mais anos na era «salazaresca» do que aqueles que o senhor tem de vida, e creia que a odiei a bom odiar, porque a senti na pele – a vida perdia-nos mesmo, a quase todos, ao povo, povo. Aquela dos safaris nas áfricas e aqueloutra das damas por cá a divertir-se, soa a baixaria, senhor POIS!. Só faltou chamar racistas (não sou racista, nem xenófobo, para sossego da sua nobre alma) aos ex-combatentes em África, a esmagadora maioria dos quais não se voluntariou para tal, como deve saber.
        Não quero responder-lhe à letra, porque não sou meigo quando me enxofro, e não quero descer ao seu nível.
        Mas sempre lhe falo de rapazolas que em todas as eras são tão amimalhados desde o berço que, às tantas, mal-habituados, se julgam uns seres muito especiais, uns principezinhos merecedores de todos os caprichos, da compreensão e das vénias dos outros. Depois, quando ganham barba, veem-se desorientados porque se marimbaram para o que seja um projeto de vida. Claro que às vezes lá calha haver a carteira recheada e a paciência infinda dos papás que, no entendimento dos vivaços, melhor, dos chicos-espertos, vieram ao mundo para os aturar. Não deve ser o seu caso, penso eu.
        Passe bem, senhor POIS!

        PS
        mal-habituados
        mal-agradecidos
        palavras compostas, escrevem-se com hífen (já se escreviam assim antes do AO90)
        Perdoe-me o reparo, mas um bloguista militante, a construção frásica, a ortografia, você sabe do que falo.

        • POIS! says:

          Pois fique sabendo…

          Que não me abespinhei por nada que Vosselência tivesse feito ou imaginado.

          Que eu não lhe respondi. Nem sequer tinha lido o que escreveu, fique sabendo.

          Não chamei racista a nenhum combatente em África. Nos combatentes e em todos os outros havia de tudo, sei-i bem.

          A minha vida não gira à sua volta, Sr. Rodrigues.

          Agradeço os hifenes e amanhã vou guisá-los para o almoço. Muito-obrigado!

          Vosselência não entendeu nem o contexto nem o alcance do que escrevi. A ironia não é o seu forte. Peço desculpa.

          Ou V. Exa. é o JgMenos? É???

          Ei Malta! Grande novidade! O JgMenos chama-se, afinal, Manuel Rodrigues!

          • POIS! says:

            E sobre aquilo de “rapazolas” etc. Vosselência tem muita imaginação, ó Sr. Rodrigues.

            Experimente escrever um romance, que o tema promete. Se meter um paizinho alcoólico, uma mãe desesperada e cansada da vida e uma noiva que fica por casar é sucesso garantido!

            Ainda pode ficar rico, Sr. Rodrigues. A Esperança é a última a morrer. Até porque os irmãos já morreram todos.

          • Paulo Marques says:

            Que nada, romance que é romance tem que ser em campos de concentração hoje em dia.

          • POIS! says:

            Claro, Paulo.

            Mas o paizinho alcoólico, a mãe cansada da vida (e até da morte) e a noiva descasada estão todos num campo de concentração, guardados por rotweilers fortemente armados e cercados de arame mais que farpado e eletrificado a 30 mil volts.

            Pior que isso: a ouvir diariamente pelos altifalantes discursos do Venturoso Enviado, comentários selecionados do JgMenos e canções do Dino Meira.

            Francamente horrível!

  2. Manuel Rodrigues says:

    Que complicações, César – a vida é mesmo complicada, a magana. Quem me dera ter podido frequentar a universidade nos meus verdes anos. Amadureci-os a abrir valas com pá e pica (naquela altura não havia máquinas) nos Serviços Municipais de uma Câmara, ia nos 16 anos, das oito às cinco, e a caminhar para a escola secundária, sem jantar, para concluir o meu curso noturno. Ao fim de semana complementava com o trabalho na quinta onde vivia e de que o meu pai era um pequeno rendeiro. O resto do meu amadurecimento foi feito na tropa obrigatória, e depois na Guiné, calor abrasador, comida de uma qualidade que nem lhe conto, mosquitos e paludismo, G3 às costas pelo mato a dentro, noites mal dormidas e de medos em postos avançados a comandar uma secção (8, 9 homens), ataques de armas pesadas ao aquartelamento, terror, desgosto e lágrimas por camaradas tombados, o diabo a sete. A vida é mesmo uma grandessíssima cabra. Mas quando podemos escolher e trilhar um rumo, enganamos a velhaca. Ainda bem para si, que parece ter conseguido enganá-la na sua mocidade.
    Se pensa que não gostei do seu escrito, digo-lhe que está enganado, meu caro.
    Cumprimentos e escreva sempre, que jeito não lhe falta, e a gente está cá para lê-lo.