“Crematório“, de Vasco Gargalo

Cartoon de Vasco Gargalo

Quando em 2020 Vasco Gargalo desenhou este cartoon, alertando para a limpeza étnica e para o apartheid que Israel impõe nas prisões a céu aberto que se chamam Territórios Palestinianos Ocupados (TPO), logo foi colocado no sítio por quem de direito.

Recebeu ameaças de morte, perdeu o emprego na revista Courrier International, uma das publicações com as quais trabalhava e foi-lhe retirado o ‘Prémio Plumes Libres’ que a publicação lhe atribuiu. Na altura, afirmou à revista Sábado: “É mais um sinal de que a comunidade judaica não pode ser criticada. Cada vez que isso acontece [é-se] logo acusado de antissemita. É uma perseguição para aniquilar o meu trabalho”.

Mas não foi o único a ver os seus trabalhos anti-apartheid serem censurados. Também Onofre Varela, cartunista, viu um seu trabalho ser retirado da Bienal Internacional de Arte, depois de pressões da Comunidade Israelita de Lisboa, assunto que foi aventado. 

Mas a saga não fica por aqui. Também o cartunista António, um dos mais célebres cartunistas portugueses, foi acusado de anti-semitismo por fazer uma crítica à política de Israel, com o seguinte cartoon:

Cartoon: António.

“A leitura que fiz é a de que a política de Benjamin Netanyahu, quer pela aproximação de eleições quer por estar protegido por Donald Trump, que mudou a embaixada para Jerusalém reconhecendo a cidade como capital, e que permitiu primeiro a anexação dos montes Golã e depois da Cisjordânia e mais anexações na faixa de Gaza, o que significa um enterro do Acordo de Oslo, representa um aumento da violência verbal, física e política. É uma política cega que ignora os interesses dos palestinianos. E Donald Trump é um cego que vai atrás. A estrela de David é um auxiliar de identificação de uma figura [Benjamin Netanyahu] que não é muito conhecida em Portugal”, disse o cartunista.

Claro que nada disto justifica ataques terroristas. E sejamos inequívocos: todo e qualquer terrorismo deve ser condenado sem reservas. Dito isto, os ataques do Hamas a civis são vis e repulsivos. Por outras palavras: metem nojo. Qualquer tentativa bárbara de impor uma teocracia, de eliminar pessoas com base na sua etnia, crença religiosa ou nacionalidade, deve falhar. Sejam os terroristas o Estado de Israel, o Hamas ou a Federação Russa.

No entanto, não servindo de justificação, serve para lembrar: o Estado de Israel impõe um regime de apartheid nos Territórios Palestinianos Ocupados, tem cada vez mais problemas em reconhecer a barbaridade das suas acções e está cada vez mais radical. E nem se pode falar de guerra, porque para haver uma guerra, terá de haver dois lados. A Palestina não tem reconhecimento internacional, não é considerada um Estado, não tem exército. Tem o Hamas. E está refém dele para se conseguir defender. E, aqui, seria importante, também, discutir quem ajudou a formar o Hamas, como e porquê. Mas fica para outro dia.

Jornalistas e cartunistas? Não só. No Israel de Netanyahu e dos ultra-ortodoxos, ninguém escapará: nem os cristãos, nem os muçulmanos, nem homossexuais, nem democratas. E sim, na Palestina do Hamas, também não há direitos fundamentais. Tratemos de acabar com o apartheid nos TPO e depois poderemos discutir a política da Palestina.

Até lá, não vai haver grande diferença entre os terroristas, vistam eles Kufiya ou Quipá. A única diferença é a força dos números: os palestinianos não são mais do que 1,6 milhões, os israelitas são cerca de 9 milhões. Portanto, parem lá de nós tentar convencer de que os oprimidos são os que estão em maioria.

Resumindo, os ataques terroristas do Hamas foram a melhor coisa que podia ter acontecido ao governo de Benjamin Netanyahu.

Comments

  1. Matso says:

    Apoio a justa luta do povo palestiniano, não apoio o Hamas, que é uma criação da tenebrosa mossad. Nem considero o Hamas uma organização terrorista, é uma organização de extremismo religioso de extrema direita com acesso a armas (que é o que a difere de outras similares) que vence eleições na faixa de gaza devido ao extremo desespero das populações. Terrorista é o Estado de Israel que há cinquenta anos verga uma população a uma vida miserável, sem perspetiva de um futuro melhor. Para quem apoia Israel e lamenta os últimos acontecimentos, deviam conhecer o que dizem os acordos de Oslo e as várias resoluções da ONU sobre o Estado Palestiniano e os colonatos judeus, resoluções essas que são repetida e obstinadamente ignoradas e atropeladas por Israel. O medo é a arma dos fascistas e o Likud e outros amigos usam-no para se perpetuarem no poder. Esta “invasão” do Hamas só interessa aos fascistas de Israel, a mais ninguém, muito menos aos palestinianos.

  2. Tem que ser entendido como a última escolha depois do resto ter sido eliminado; o resto é achar que vai haver um volte-face porque é a única escolha humanista, como se tivessemos chegado aqui se alguém com poder a quisesse.
    Não é preciso aceitar para não condenar; até um jornal do sítio, Haaretz, que não se consegue abrir, reconhece a inevitabilidade.

  3. JgMenos says:

    Os esquerdalhos, que invocam o materialismo dialéctico como fundando uma racionalidade que acreditam qualificá-los como ‘intelectuais políticos’, sempre aplicam a ‘doutrina dos coitadinhos’ para toda e qualquer questão que requeira informação histórica e complexidades de análise. Assim fazem quanto aos palestinianos e às suas relações com os israelitas.
    Os principais ingredientes da doutrina estão aí presentes: são pobres os palestinianos/ são prósperos os israelitas; as autocracias apoiam os palestinianos, as democracias reconhecem direitos aos israelitas; os EUA apoiam Israel, e tanto bastaria!
    As conclusões são sempre as mesmas: os coitadinhos não têm deveres, podem ser tão brutos quanto lhes dê na gana!

    • Nem têm nação reconhecida, portanto nada de soberania ou independência, nem são reconhecidos como humanos. Não são europeus, e estão no caminho, e tanto basta!

    • POIS! says:

      Pois claro!

      O Menos, que sempre defendeu que cada português devia ter um coitadinho, merece uma cadeia da boa vontade: vamos todos fazer uma vaquinha para enviar um coitadinho fofinho e consciente dos seus deveres para alegrar a vida do Menos.

      Esta vida de filósofo eremita, sempre a produzir, pelo Menos, profícua prosa sentado no pechiché em frente ao espelho pode tornar-se muito deprimente.

  4. JgMenos says:

    Uma palavra para os coirões autores das figurinhas:
    – o da fornalha é besta maior, cretino ofensor de uma tragédia sem paralelo imaginável.
    – o do cãozinho quando muito inverte os termos da equação, e põe uma besta a conduzir um animal com propósitos bem definidos.

    Mas sempre satisfazem a cambada, na continuada amnistia dos coitadinhos e na demonização dos poderosos, que quanto ao EUA definem como responsável por tudo que mexa.

    • Paulo Marques says:

      Pobres de espírito, nem a arte mais vulgar percebem.

  5. Os melhores amigos do Bibi são tipos como o que fez o desenho do forno crematório, cuja melhor ideia para mostrar empatia com que sofre, é exibir uma absoluta ausência de empatia com quem sofreu.

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