A mão invisível

É conhecida a teoria liberal, de que o mercado se regula por si mesmo.

No fundo, tudo se resume à ideia de que numa economia livre, o mercado regula-se por uma espécie de mão invisível que vai acertando, entre a oferta e a procura, o preço dos bens, sem necessidade de intervenção de terceiros – seja o Estado ou qualquer outra entidade.

Quem quiser perceber melhor a ideia, é ler “A riqueza das nações” e a “Teoria dos sentimentos morais”, de Adam Smith. E, depois, aconselho a apreciarem os resultados obtidos sempre que se optou por dar rédea solta aos mercados e abdicar-se da regulação. Uma dica: comecem pelo mercado financeiro.

Mas, adiante.

Olhando para o Orçamento do Estado apresentado pelo Governo para 2024 (numa sessão digna de entrega de Óscares), detecta-se que houve uma adaptação da lógica da mão invisível.

Neste caso, o que o Governo pretende fazer é recuperar com a mão invisível dos impostos sobre o consumo, a propriedade e outros, o que estará a dar (ou a não tirar tanto) com a alteração dos escalões do IRS.

Na verdade, não está bem a recuperar: está superar. Pois que, na prática, e pelas contas apresentadas por diversos economistas, aquilo que o Governo espera arrecadar com a mão invisível, supera aquilo que anuncia dar (ou não tirar tanto dos bolsos) aos contribuintes na tributação sobre os rendimentos singulares.

No fundo, é tirar aos ricos para dar aos pobres, numa versão cínica de Robin dos Bosques, pois que os ricos e os pobres são exactamente os mesmos: a classe média.

A classe média – como esses ricaços que ganham (mas, não recebem) por exemplo € 1.200,00 por mês – que pague rendas para ter casa, porque para ela não há apoio. Ou que empurre para a frente, o agravamento das prestações do empréstimo de aquisição de habitação.

Que pague taxas de Justiça, porque para ela não há Apoio Judiciário. E que pague mais IUC, porque isto de ter carro anterior a 2007 é um luxo, próprio de quem (imagine-se o desplante!) não está disposto a endividar-se para trocar o seu carro por um dos novos “XPTO electric”, que são tão baratos – e cujas baterias de lítio, para serem produzidas, não prejudicam nada o ambiente…

Se somarmos o agravamento fiscal nos combustíveis, nas bebidas alcoólicas, o aumento anunciado dos preços – possibilitando ainda mais receita fiscal por força da incidência e da tendência inflacionista -, feitas as contas, a classe média continua a caminhar para o empobrecimento.

Claro que podemos sempre contar com a diária intervenção mediática do Presidente da República. Resolve alguma coisa? Claro que não. Serve para alguma coisa? Claro que sim: entretém (para quem gosta, claro).

Nota: para quem quiser assinar a petição contra o agravamento do IUC para automóveis anteriores a Julho de 2007, é aqui.

Comments

  1. Estão-nos a salvaguardar para o futuro fazendo-nos viver abaixo das nossas possibilidades. Viva o neoliberalismo regenerador!
    Quanto aos automóveis, o automóvel mais limpo é o que já existe (dentro da lei), mas fica menos bem para apresentar resultados.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading