Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (1)

Todos sabemos até que ponto as lutas partidárias, a degradação da economia, as frequentes revoltas e revoluções, a intervenção militar na I Guerra, tinham desgastado a República desde 1910 até 1926. As classes possidentes, os grandes industriais, a Igreja Católica, alguns meios intelectuais, mostravam sinais de impaciência. Porque o novo regime, em que tantos tinham depositado esperança, não resolveu nenhum dos problemas fulcrais que flagelavam a Monarquia dos últimos anos – o subdesenvolvimento e o analfabetismo, entre outros.

Quanto a esses sectores de opinião conservadora era preciso disciplinar o País. A Ditadura Militar a que se seguiu o Estado Novo impuseram a ordem que tantos desejavam. No entanto, durante os 48 anos que mediaram entre o pronunciamento de 28 de Maio de 1926 e a Revolução de 25 de Abril de 1974, e em que reinou uma ordem imposta pela força, houve acções armadas contra o regime ditatorial, desencadeadas por militares (o chamado «reviralhismo»), por civis ou por organizações clandestinas. É algumas dessas reacções violentas contra um regime imposto e mantido pela violência que a nossa memória irá visitar.

Nos anos que se seguiram ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, verificaram-se algumas revoltas. Como besta desabituada de usar sela ou albardas, o povo português escoiceava e tentava sacudir os aprestos que, dia a dia, lhe iam pondo no dorso sob a forma de novas medidas repressivas e da supressão dos direitos fundamentais outorgados ainda durante a monarquia, desde a proclamação da Carta Constitucional, e na I República, entre 1910 e 1926 (com o breve interregno do consulado sidonista).

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Memória descritiva: Aquarela do Brasil – a mentira getulista

Memória descritiva, foi o título que dei a um poema incluído no meu livro «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Publiquei-o aqui, semanas atrás. Como se sabe, esta é a designação dada aos estudos preliminares de arquitectura, onde se define basicamente a tipologia do projecto, materiais a utilizar, tipo de acabamentos, etc.. O sentido aqui é diferente, mas também muito literal – a memória, a minha e a dos autores que leio, vai passando para pequenos textos – «memórias descritivas». Hoje, escolhi como tema a «Aquarela do Brasil», a canção de Ary Barroso. Já verão porquê. Primeiro, ouçamos a bela interpretação de Gal Costa.

No ano que acaba de terminar passam 70 anos sobre a composição por Ary Barroso de «Aquarela do Brasil». O hino nacional brasileiro foi criado por Francisco Manuel da Silva (1795 – 1865). Pois, para muitos «Aquarela do Brasil» é o como que um outro hino do país. Numa sondagem organizada pela Academia Brasileira de Letras, a «Aquarela» ficou em primeiro lugar. [Read more…]

A máquina do tempo: vale a pena?

Colaborar no Aventar, transformou-se num vício. De manhã cedo, antes de me deitar ao trabalho, a primeira coisa que faço é visitar o blogue. À noite, antes de me deitar, dou-lhe uma última olhadela. Pelo meio, quando vejo mensagens na caixa do correio, vejo se são comentários; se sim, respondo ou não. A pergunta é – valeu a pena este trabalho?

A pergunta faço-a a mim mesmo. E fico agradecido se não me citarem o poema da «Mensagem». O Pessoa merece ser recordado por outras obras. Valeu a pena? O Professor Moniz Pereira, que formou tantos atletas de alta competição, compôs um bonito fado, afirmando que «valeu a pena». Canta-o muito bem Maria da Fé. Eu não afirmo – pergunto: «vale a pena?»Às vezes penso que sim. Outras vezes penso que não. [Read more…]

Poemas com história: Memória descritiva

Com «Memória descritiva» encerro esta série dos «Poemas com história» Durante alguns meses, à razão de um por semana, aqui fui fazendo desfilar textos poéticos que escrevi, sobretudo durante o período da ditadura – alguns pertenciam a livros que foram apreendidos pela polícia, tais como «A Voz e o Sangue» (1ª edição em1967) e «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (1970). O primeiro destes títulos foi a causa próxima da minha prisão em princípio de 1968. Outros pertenciam à única colectânea de poemas que publiquei depois de 1974 – «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Alguns, muito poucos, eram inéditos. [Read more…]