Poemas com história: Memória descritiva

Com «Memória descritiva» encerro esta série dos «Poemas com história» Durante alguns meses, à razão de um por semana, aqui fui fazendo desfilar textos poéticos que escrevi, sobretudo durante o período da ditadura – alguns pertenciam a livros que foram apreendidos pela polícia, tais como «A Voz e o Sangue» (1ª edição em1967) e «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (1970). O primeiro destes títulos foi a causa próxima da minha prisão em princípio de 1968. Outros pertenciam à única colectânea de poemas que publiquei depois de 1974 – «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Alguns, muito poucos, eram inéditos.

«Memória descritiva», aludindo à expressão utilizada em Arquitectura para apresentação de um projecto, tem o sentido duplo de aludir à memória da ditadura e dos seus crimes. Uma espécie de aviso aos verdugos – «Nunca esqueceremos!». «Poemas com História» fica por aqui. Pode ser que algum dia volte com mais textos poéticos.

Memória descritiva
Na empena da casa arruinada
há farrapos de cartazes,
uma inscrição quase apagada,
musgo nas feridas do reboco,
uma bala alojada
há cinquenta anos
no coração do tijolo
e julgo que mais nada
que valha a pena mencionar.
Ah, é verdade, junto à calçada,
regada pela água da sarjeta,
floresce uma roseira ignorada.,

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Gosto do poema, não gosto é que termines a série.

  2. Carlos Loures says:

    Como os costureiros, estou a preparar a nova estação. En Janeiro, apresentarei novos modelos. A poesia, não será esquecida. A grande vedeta será a República que fará cem anos. Quase tantos como o Manoel de Oliveira.