Cosmos

Certa amiga contava-me, não vai há muito, as suas desventuras numa repartição do Registo Automóvel, para onde partiu, manhã cedo, logo depois do beijo de despedida aos filhos, à porta da escola, sem certezas quanto ao seu retorno. Levou para fazer-lhe companhia na espera o Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac. Passou boa parte do dia a lê-lo, mal sentada num dos bancos de plástico da repartição, e, quanto mais lia, mais se lhe afirmava irrefutável a ideia de que há dois tipos de vida: aquele, na estrada, livre, improvisado, sem regras; e o seu, que impõe a actualização de livretes e a apresentação de actas, certidões, registos vários.

Concordei com ela. E contei-lhe que passo com frequência por uma livraria especializada em economia, finanças, contabilidade e quejandos, e que por vezes me detenho frente à montra, sempre com o mesmo espanto. Enquanto a sonda Huygens da missão Cassini envia as primeiras imagens de Saturno, e o Curiosity anda aos tropeços por Marte, e se decifram os primeiros mistérios do cosmos, e se reconhece a espantosa contracção do espaço onde existe matéria, aqui, no planeta Terra, há quem se dedique a escrever (e quem o compre) o Boletim do Contribuinte. [Read more…]

Ondas gravitacionais

Certo indivíduo brilhante conseguiu medir o efeito que a contra-informação e a propaganda negativa podem ter sobre a capacidade de um país recuperar a dignidade.
Chamou-lhe “Ondas Gravitacionais” e disse que foi o Einstein que as descobriu.

As ondas gravitacionais foram detectadas

 

Segundo a comunicação social, as ondas gravitacionais foram finalmente detestadas… Detestadas? Não. Foram finalmente destetadas. Destetadas? Também não. Já sei: detetadas. Não? Não, porque a diferença grafémica entre detestadas, destetadas e detetadas… Ah! Já sei: as ondas gravitacionais foram finalmente detectadas! Exactamente: detectadas!

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

O fato da ata

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© Arthur Sasse/ AFP (http://bit.ly/1nr6nXc)/© Sandro Miller courtesy Catherine Edelman Gallery, Chicago (http://bit.ly/1C21BaE)

O Dario Silva decidiu trazer-nos o Guevara/Malkovich. Por razões óbvias, prefiro a do Einstein. Graças ao fotógrafo Sandro Miller, o Malkovich e o Einstein regressam ao Aventar, num dia sem grandes surpresas, no sítio do costume:

De tudo o que ocorrer nas reuniões será lavrada ata que contenha um resumo do que de essencial nela se tiver passado, indicando, designadamente, a hora, a data e o local da reunião, os membros presentes e ausentes, os assuntos apreciados, as decisões e deliberações tomadas e a forma e o resultado das respetivas votações, bem assim, o fato da ata ter sido lida e aprovada.

(…)

A Câmara Municipal de Porto Moniz em colaboração com a Escola Básica e Secundária do Porto Moniz, promoverá o apuramento de todos e quaisquer fatos que requeiram esclarecimento no ato de análise das candidaturas.

 

Einstein a mostrar a língua

E a TSF a mostrar o estado actual da adopção do Acordo Ortográfico de 1990 em Portugal:

A fotografia é uma arte, mas não são necessariamente as obras de arte mais belas que se tornam as mais famosas, mas sim aquelas que registam fatos

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Exactamente: fatos.

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Sim, em Portugal.

Albert Einstein sticks his tongue out to photographers in 1951

© Arthur Sasse/ AFP (http://bit.ly/1nr6nXc)

Einstein e o Coelho

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Provando empiricamente, mais uma vez, que Einstein tinha razão, foi anunciada, esta segunda feira, a descoberta de ondas gravitacionais primordiais, vindas do início do nosso Universo. Esta descoberta, que é tecnicamente muito complexa, é uma das maiores descobertas das últimas décadas e de uma só vez resolve dois problemas.

Primeiro, mostra que o modelo inflacionário do Universo está correcto. O modelo prevê que, quando nasceu, o Universo sofreu uma fase de crescimento muito rápido e violento. Esta fase é chamada “expansão inflacionária” e é devida à existência de um campo escalar, chamado inflatão.” (CENTRA)

Instado a pronunciar-se sobre estas notícias, Passos Coelho foi categórico: não sabendo quem era esse tal Einstein, declarou contudo que, tratando-se certamente de mais um economista estrangeiro a meter-se nos assuntos que só ao governo português dizem respeito, repudiava terminantemente a visão expansionista implícita nesta teoria, para não falar na referência totalmente irresponsável e oportunista feita ao “crescimento rápido e violento”, chamando a atenção para a demagogia alarmista que consiste em brincar com temas como “expansão inflacionária”, ainda por cima postulando existência de algo chamado “inflatão” , termo importado, sem dúvida, da propaganda comunista. Sublinhou, ainda, que o importante era obter consensos, como ensinara o senhor presidente da República, pessoa muito mais digna de confiança que esse tal arrivista Albert Einstein. De resto, concluiu, a simples designação de “ondas gravitacionais primordiais” era, na sua opinião, sintomática, já que indiciava que era coisa de velhos ou, pior ainda, aposentados.

Com ou sem Ele, amigos na mesma

Isto de escrever sobre ou pensar Deus é um nunca mais acabar… Por isso, é um tema interessante.

Num outro post, trouxe à discussão o caso do filósofo Flew que, ao fim de mais de meio século a defender o ateísmo, admite a existência de um “Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente”.

Desta vez, pretendo trazer para este espaço a mensagem que Carl Sagan deixa na «Introdução» à obra Breve História do Tempo (Gradiva, 1988) do famoso Físico inglês Stephen W. Hawking (1942), que uma neuropatia motora deixou preso a uma cadeira há muitos anos, para além de ter perdido a voz em 1985 na sequência de uma pneumonia. [Read more…]