A #fontinha e a propriedade privada do voluntariado

Estudo acompanhado gratuito pelos pais das crianças de um colégio católico, como foi amplamente divulgado há tempos, é voluntariado.

Estudo acompanhado gratuito na Fontinha, omite-se, não é notícia, é coisa de anarcas, okupas na linguagem colorida de muitos dos jornalistas hoje de plantão.

O voluntariado é propriedade privada, um condomínio fechado, tem de parecer caridadezinha, ou será que só o que alguns fazem em prol dos outros é aceitável pelos elevados e selectivos padrões discriminatórios da comunicação social e seu proprietários?

na imagem: horário de actividades da Es.Col.A da Fontinha.

O desígnio de Crato é cortar

Santana Castilho *

Nuno Crato encheu de nada e de cortes três páginas deste jornal. Lê-lo a 31 de Outubro traveste-lhe a graça para Nuno Cortes. Quando não identifica medidas para cortar, responde que não sabe. Nuno Nada, tão-pouco destoava para sua nova graça. Que desgraça!

Tirando o desígnio de castrar, despedir e poupar, não há na entrevista a mais ligeira ideia consistente sobre Educação. Perguntado sobre como se vai cumprir a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, responde com profundidade: “Está tudo em aberto”. Interrogado sobre a verdadeira grandeza da redução orçamental, riposta com rigor: “Depende do quadro que se leia”. Questionado sobre o número de professores estritamente necessário, que antes havia invocado, é preciso: “É um bocado menos do que temos hoje. Não consigo quantificar”. Solicitado a esclarecer o objectivo que propõe para um novo modelo de financiamento do ensino superior, que acabara de preconizar, repete-se: “Está tudo em aberto”. À insistência dos entrevistadores, que querem conhecer os critérios a incluir no tal modelo, responde filosoficamente: “Vamos pensar nisso”. Quando lhe perguntam se já começou a pagar as bolsas de estudo, é negativamente claro: “ Ainda não”. Quando lhe perguntam se tem ideia de quantos alunos perdem o direito à bolsa, é claro, negativamente: “Ainda não”.

Estamos a estudar”, “estamos a ver”, “estamos a identificar”, “temos de ver” “temos que pensar” e “vamos ter de repensar” são fragmentos frásicos abundantes na entrevista, que ilustram a vacuidade predominante. Mas há passagens concretas, que patenteiam impreparação, ignorância e manipulação da realidade. Passo a fundamentar. [Read more…]

eu e o meu mau feitio I

Dois professores em E.V.T. – acabar ou não?

O currículo do Ensino Básico, contempla a disciplina de Educação Visual e Tecnológica.
São, normalmente, 4 tempos de 45 minutos por semana e o programa contempla várias dimensões, podendo, de forma simplista, escrever-se que se trata de uma disciplina de carácter artístico na área da plástica, da expressão visual, algo do tipo desenho ou trabalhos manuais, para uma linguagem mais antiga.
É, claro, uma disciplina central na área da educação artística e a sua metodologia sempre foi suportada no desenvolvimento de projectos – é uma área onde os alunos aplicam conceitos, procedimentos e metodologias essencialmente práticas.
A Associação de Professores da Disciplina já manifestou TOTAL recusa da proposta do governo: a disciplina de EVT passará, segundo o documento, a ser leccionada apenas por um professor.
E, na minha perspectiva, a medida carece de fundamento pedagógico: a metodologia da disciplina exige mais que um professor porque a sua dimensão prática exige um acompanhamento muito próximo de um docente. E essa exigência deriva da necessidade de garantir um trabalho de qualidade, mas, acima de tudo, para garantir a segurança. Ter um grupo de 28 alunos com facas, martelos, serras, chaves, pregos, metais ou outro tipo de ferramentas nas mãos pode ser muito perigoso – será que depois os professores serão também responsabilizados como aconteceu com um docente de Educação Física?
Pelo que escrevi no post anterior estou convencido que esta medida vai mesmo avançar. E pergunta-se: o que vai acontecer aos professores sem colocação?
Tenho cá um palpite que vão ficar responsáveis pelas AEC’s.
É um palpite.

Estudo Acompanhado: o que é isso? Acabar ou continuar?

Água em Vila do Conde
Nos últimos dias têm sido divulgados documentos que mostram a intenção do Governo em diminuir a despesa na área da educação. Ao que se sabe o corte na casa da dezena percentual do orçamento educativo só tem, de facto, implementação possível no próximo ano lectivo, isto é, nos últimos quatro meses do ano civil. Logo, o corte teria que ser ENORME para que fosse possível alcançar as metas estabelecidas pelas finanças.
A nova organização da mancha curricular dos alunos não contempla área de projecto, estudo acompanhado e reduz o par pedagógico na disciplina de EVT para um só professor.
Sobre a Área de Projecto escrevi no post anterior que o seu fracasso deriva da prática errática da sua aplicação e não tanto da sua existência.
No caso do Estudo Acompanhado os resultados são outros.
Esta área curricular não disciplinar foi criada, segundo a Lei, ” visando a aquisição de competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho e proporcionem o desenvolvimento de atitudes e de capacidades que favoreçam uma cada vez maior autonomia na realização das aprendizagens;”.
No terreno, o Estudo Acompanhado é prioritariamente atribuído aos docentes de Língua Portuguesa e Matemática – no 2ºciclo, um de cada, no 3º ciclo a um destes, em função da realidade de cada escola.
Tem sido usado como espaço de alargamento, no caso da matemática, das horas de trabalho em tarefas matemáticas. Seriam algo próximo da sala de estudo, das explicações privadas, das mestra de antigamente, mas num ambiente académico, contextualizado e pensado pedagogicamente.
Esta prática contribuiu MUITO para os resultados agora conhecidos nos testes de PISA.
E portanto, nas escolas, ninguém percebe como é possível o governo pretender acabar com esta área curricular. Já há movimentos de resposta a tal intenção e, talvez por isso ou não, José Sócrates disse algo de diferente no parlamento.
Dúvidas? Talvez não. É a estratégia de cinco anos deste Engenheiro – avança com um conjunto absurdo de medidas no espaço mediático, recolhe e analisa reacções e depois, retira algo que verdadeiramente nunca esteve em cima da mesa.
Neste sentido penso poder concluir que Estudo Acompanhado vai continuar e que Área de Projecto e o par pedagógico de EVT são mesmo para extinguir.

Área de Projecto: o que é isso? Acabar ou continuar?

Nos tempos de Guterres em S. Bento, numa altura em que Ana Benavente andava pelo Ministério, o Governo introduziu mudanças no currículo, tornando as escolas espaços menos disciplinares, mas mais curriculares.
Acabou, entre outras coisas, com as aulas de 50 minutos e introduziu as aulas de 90 ou de 45 minutos. Introduziu também três novas áreas curriculares não disciplinares: a Formação Cívica, o Estudo Acompanhado e a Área de Projecto.
Sobre estas duas últimas, importa agora reflectir um pouco na medida em que o Governo, no âmbito da cultura do défice, se prepara para as extinguir.
A Área de Projecto visa, de acordo com a Lei, ” a concepção, realização e avaliação de projectos, através da articulação de saberes de diversas áreas curriculares, em torno de problemas ou temas de pesquisa ou de intervenção, de acordo com as necessidades e os interesses dos alunos.”
Era trabalhada no primeiro ciclo pelo professor titular da turma, no 2º por um par pedagógico de professores da turma e no terceiro apenas por um professor da turma.
Muito se poderá escrever sobre as suas possibilidades, sobre os seus méritos ou até sobre a sua dispensabilidade… Uma coisa é mais ou menos aceite por todos: a área de projecto nunca o chegou a ser, de facto. Começou por ser uma espécie de área escola, nos últimos tempos foi tomada de assalto por todo o tipo de trapalhadas (planos de leitura, educação sexual, educação x ou projecto y…) Área de Projecto? Nem vê-la.
Nas salas de professores era comum dizer-se que não servia para nada e que poderia ser extinta.
Bem, ao que parece, o Governo está de acordo.
Pela minha parte, enquanto professor com experiência na área diria: a generalidade do trabalho em área de projecto é mal feita e por isso o seu fim mereceria o meu acordo.
Mas, acho que a Escola Pública necessita de um espaço deste tipo desenvolvido com qualidade. Sou pela continuação da Área de Projecto.
E porquê? Porque em contexto de área de projecto tem sido possível fugir da dimensão curricular e académica da escola. É onde conseguimos implementar um processo pedagógico com base nos projectos, é onde podemos articular (de facto) aprendizagens diversas, é onde podemos mobilizar competências em torno de uma ideia, de um conceito, de uma dificuldade. É, sem margem para dúvidas, a área escolar que mais aproximava a escola do mundo exterior.
É central e essencial numa escola de qualidade.

Sócrates quer acabar com E.V.T., Estudo Acompanhado e Área de Projecto

Portugal é um país estranho. Ou talvez não. Somos o país onde a política educativa se define no orçamento. Seremos, talvez, o único país do Mundo onde as horas e as disciplinas dos alunos são definidas em função do orçamento – claro que as questões económicas são importantes, mas quando chegamos a este ponto, então é mesmo o fim de linha da escola pública.
Está no “forno” uma proposta do ME que vem, entre outras coisas:
a) extinguir a área curricular não disciplinar de área de projecto;
b) extinguir a área curricular não disciplinar de área de projecto;
c) acabar com o par pedagógico de E.V.T. (eram dois professores, passa a ser só um).

E isto tudo, umas horitas depois do brilharete Luso nos testes de PISA 2009… coincidências do processo mediático…

Sobre a proposta em concreto, voltarei à “antena” dentro de momentos…