Os exames e as desigualdades sociais

Numa notícia com o título “Exames agravam desigualdades entre alunos e alimentam mercado das explicações”, divulga-se uma tese de doutoramento em Educação, dando, também, a palavra à autora. O título do estudo é Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal. Só é permitido o acesso a um resumo.

Embora a ideia de que os exames são causa das desigualdades entre os alunos não esteja presente no resumo, a autora afirma-o: «Andreia Gouveia afirma que é “inegável” que os exames são uma causa para o “agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”.»

O Paulo Guinote pergunta, e bem: “A Ver Se Percebo… Se Acabarem os Exames Acabam as Desigualdades e os Pobrezinhos Passam Todos a Entrar em Medicina e Arquitectura e na Carreira Diplomática e Etc?”

Pois. A verdade é que os exames não são causa de desigualdade social, são, isso sim, um reflexo. De uma maneira geral, aliás, as desigualdades sociais são uma das causas das desigualdades nos resultados educativos, mesmo que muita gente teime em confundir os rankings com a Ovibeja. [Read more…]

Realidades adulteradas

Santana Castilho *

1. Logo que António Costa voltou de férias e se reuniu com os chefes militares, o país ficou a saber que o furto de material bélico em Tancos não foi grave. A António Costa, sagaz que é, bastou pedir ao Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, ao Chefe do Estado-Maior do Exército, ao ministro da Defesa e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, precipitados que foram, que lessem o duplicado da guia de transporte, deixado pelos ladrões na porta d’armas do aquartelamento de Tancos, para poderem concluir que tudo estava fora de prazo e nem para palitar dentes servia. Dir-se-á que António Costa substituiu a metáfora das vacas voadoras pela metáfora dos moluscos contorcionistas, isto é, o optimismo irritante pelo realismo conveniente. Um senão, que não é pequeno: para se redimir e tornar o roubo poucochinho, Costa rasteirou Marcelo. Marcelo, que nos disse que a coisa era grande antes de ele, Costa, tempestade passada, reaparecer para nos dizer que a coisa era pequena. Marcelo, que foi a Tancos quando ele, Costa, estava a banhos. Marcelo, que respondeu quando ele, Costa, desapareceu. Marcelo, que não é António José Seguro, como Costa sabe.

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Exames, provas de aferição e o que importa

É possível conceber um sistema de ensino exigente, criativo e consistente com ou sem exames nacionais ou quaisquer outras provas externas às escolas. Importa, isso sim, conceber, isto é, pensar.

As decisões sobre a aplicação de exames ou provas ou o diabo a quatro não podem, no entanto, estar sujeitas a tiques, modas ou alternâncias políticas entre caranguejolas, geringonças ou outros veículos. Importa, isso sim, pensar, ou seja, conceber.

Deste modo, não faz sentido impor exames nacionais com o argumento de que só assim o sistema poderá ser exigente, como é absurdo banir os mesmos exames porque havia algo parecido ou igual no tempo da outra senhora ou porque a maioria do mundo não faz assim. Importa, mais uma vez, pensar. Pensar sobre os instrumentos e a sua utilidade.

Este governo, no que se refere à Educação, limitou-se a uma certa cosmética de esquerda (de que são provas o fascínio pela “flexibilização” ou o horror aos exames enquanto coisa fascista), mantendo o essencial que a direita, desde Maria de Lurdes Rodrigues, impôs, o que inclui congelamentos e, sobretudo, a degradação das condições de trabalho dos professores. [Read more…]

E andamos nós a gastar milhões de euros com estes tipos

Escolas privadas continuam a inflacionar notas no secundário” [Expresso]

A escola ioiô

IoioUm dia, num futuro muito distante, haverá um ministro da Educação que, entre outras coisas, saberá, finalmente, o que é um ano lectivo. Trata-se de um conceito aparentemente de fácil apreensão, excepto se se for ministro da Educação.

Esse ministro ainda ideal, se tivesse tomado posse, por exemplo, em Novembro de 2015, iria ter o cuidado de não alterar o calendário de provas já estabelecido, dando início à preparação do ano lectivo seguinte, procurando demonstrar as razões que poderiam levar à manutenção ou à supressão de provas finais.

Um ministro prudente, desses que o futuro nos há-de trazer, não iria, para cúmulo, impor a realização de provas de aferição depois de o ano lectivo (ó expressão irritante!) já estar a decorrer. É claro que esse mesmo ministro, necessariamente sensato, depois de impor provas de aferição, não poderia, passados alguns meses, anunciar que, afinal, as provas anteriormente impostas passariam a ser facultativas durante o ano lectivo em curso. Por outro lado, esse ministro por vir não obrigaria as escolas a explicar por que razões optariam por não realizar provas cuja realização era exactamente facultativa, ao mesmo tempo que não lhe passaria pela cabeça declarar que, apesar de serem facultativas, preferiria que se realizassem. [Read more…]

Como se faz uma escola?

6a00e54f8422f488330120a67f5ca3970c-800wiApesar de o ponto de partida poder induzir em erro, a reportagem sobre a Escola Básica 123 do Curral das Freiras deve ser lida com muita atenção, porque proporciona ensinamentos acerca do modo como as escolas se devem organizar para ajudar os alunos provenientes de meios desfavorecidos. Proporciona ensinamentos a quem queira aprender, entenda-se.

Explico-me, antes de mais, acerca do ponto de partida: a reportagem só acontece por causa dos resultados dos exames, insistindo, portanto, na ideia de que estes servem para avaliar a qualidade do trabalho das escolas (o próprio título da peça é indicador desse tique: “Escola da vila mais pobre da Madeira é uma das melhores do país”). [Read more…]

Dia de São Ranking

Graças à abundância de dados estatísticos, vivemos no paradigma da rankinguização, porque tudo é rankinguizável. Ele é as três melhores cidades com as mais belas repartições de Finanças, ele é as dez livrarias com mais ácaros no mundo, ele é os cinco cus mais espectaculares dos países nórdicos, ele é o diabo a quatro!

No fundo, esta moda está associada a uma certa pimbalhização (o neologismo está a render, hoje), patente em revistas e livros de auto-ajuda com títulos como “As dez maneiras de a/o deixar louca na cama” ou “As quinze perguntas que deve fazer a si próprio dois minutos antes de se levantar”.

Ontem, voltaram a ser publicados os rankings das escolas e reapareceram os mesmos erros de análise e as mesmas frases bombásticas. Por isso, não há muito mais a dizer, porque o mundo está transformado num campeonato perpétuo.

Os defensores cegos do Ensino Privado continuam a esconder que as escolas mais bem classificadas, de uma maneira geral, escolhem os alunos, desvalorizam as disciplinas que não estejam sujeitas a exames nacionais, inflacionam as classificações internas e desrespeitam abundantemente os direitos laborais dos professores.

Entretanto, pessoas ligadas às escolas públicas deixam-se arrastar para este festim de marketing, comemorando subidas nos rankings e ajudando, desse modo, a perpetuar publicamente a ideia de que estas listas servem para avaliar o seu trabalho. Ora, a verdade é que, em muitos estabelecimentos de ensino, uma média negativa pode corresponder a um enorme sucesso, se se tiver em conta muitos outros condicionalismos.

Leia-se a recomendação do Paulo Guinote para que haja uma melhor publicação dos rankings. Um dia, talvez seja possível, mesmo sabendo que os desonestos e os distraídos não ficarão calados.

Alarme social: meses com maiúsculas no site do IAVE

Meses_IAVE2Nos últimos dias, várias vozes chamaram a atenção para os prováveis prejuízos decorrentes da obrigatoriedade de usar nos exames nacionais apenas a grafia permitida pelo acordo ortográfico de 1990 (AO90). Naturalmente, fiz parte do coro.

Hoje, no jornal Público, apresentei vários argumentos a favor da utilização das grafias de 1945 e de 1990 nos exames nacionais, tal como acontecia até ao ano passado,  e, ontem, comentei as infelizes declarações de Edviges Ferreira, que, a propósito do mesmo assunto, conseguiu a quadratura do círculo, ao reconhecer que pode haver prejuízo para os alunos, defendendo, apesar disso, que não devem ter direito a duas grafias, castigando-os por culpas que atribui aos professores. [Read more…]

A Associação de Professores de Português reconhece que há problemas com o AO90

Este ano, de acordo com informação do IAVE, a única grafia admitida nos exames nacionais será a que está conforme o acordo ortográfico de 1990 (AO90)

Entretanto, a sociedade portuguesa não conseguiu, não pôde ou não quis adoptar o referido acordo. As causas são variadas e começam nos vários erros de concepção do próprio AO90, com várias pessoas e instituições a fingir que não há problemas.

Os jovens que vão, este ano, fazer exames nacionais foram obrigados, ao longo do seu percurso escolar, a conviver com duas ortografias, sendo que a mais recente tem contribuído para o aumento de erros. Como é evidente, os estudantes, sentindo-se ortograficamente inseguros, desejam, no mínimo, que seja reposta a possibilidade de continuar a optar pelas duas ortografias – a de 1945 e a de 1990 –, tal como acontecia nos exames de 2014.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda dessa pretensão e julga ter explicado a razão, ao declarar que, “se todos os docentes tivessem feito o que deviam, preparando os alunos activamente durante os últimos três anos, para este momento, não haveria qualquer problema.” [Read more…]

Acordo ortográfico: bem prega o Ministério da Educação!

Bem prega Frei TomásAté ao ano passado, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) permitia aos alunos que utilizassem as grafias de 1945 e a de 1990, sem que isso implicasse penalizações na classificação dos exames.

Este ano, a única ortografia aceite é a de 1990 (AO90). Assim, o aluno que, por distracção ou por ignorância, escreva “acção”, terá direito a um desconto de 0,1 valores, no exame de Português de 12º. O limite máximo para penalizações por erros ortográficos, no referido exame, pode ir até quatro valores, o que é mais do suficiente para impedir a entrada num determinado curso superior. [Read more…]

Jornal de Notícias e AO90 prejudicam alunos nos exames nacionais

wp_20150206_08_53_59_pro (1)Esta semana, o destaque do Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro foi aquele que se pode ver na imagem.

O JN é um dos jornais que, sem que se perceba porquê, decidiram adoptar o chamado acordo ortográfico (AO90).

Ora, o acento agudo de “pára”, segundo a Base IX, 9º, é para suprimir. No 5.4.1. da Nota Explicativa, os autores do AO90 tentam explicar por que motivo se tomou essa decisão, recorrendo, em parte, ao segundo mantra do acordismo.

A manchete do JN, dotada, eventualmente, de uma vontade própria, contraria, assim, a ortografia adoptada pelo prestigiado jornal. Embora defenda, no mínimo, a suspensão imediata do AO90, percebo que isso tenha de se fazer gradualmente: hoje, a manchete; a notícia local, amanhã. [Read more…]

Uma escola sem contactos

Amadora_Contatos

O Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa, na Amadora, não tem contactos. Tem contatos. De acordo com as últimas notícias, e segundo o chamado acordo ortográfico (AO90), consoante que se pronuncia é consoante que se escreve, para pôr a coisa em termos simples, ainda que simplistas.

Partindo do princípio de que a maioria dos portugueses pronuncia o C que antecede o T, deveríamos, então, continuar a escrever “contacto”.

Antes do AO90, já éramos um país ortograficamente desleixado e/ou inseguro? Éramos. Com o AO90, os problemas aumentaram, não só por causa do dito mas também. [Read more…]

Mais uma vez, os exames

Por Santana Castilho

Nuno Crato chamou ocultas às ciências da Educação. Compreende-se, por isso, que trate crianças de 9/10 anos de idade como adultos pequenos a quem, em sede de exames nacionais, pediu uma declaração escrita, por honra delas. Compreende-se que à revelia do que se faz na Europa e do que as neurociências e a psicologia do desenvolvimento descrevem como características fundamentais dessa idade as obrigue a um exame nacional, com os contornos daquele que actualmente existe.
Na semana passada, o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgou os resultados dos exames a que se submeteram 220 mil alunos do 4º e 6º anos de escolaridade. Aproximadamente 95.000 reprovaram em Matemática e cerca de 46.000 em Português. Para estes, desde que os pais o queiram, haverá mais três semanas de aulas extraordinárias, seguidas de novo exame. É pertinente perguntar se o expediente compensa o efeito pernicioso do aumento do número de alunos por turma, da falta de dispositivos de apoio ao longo do ano, designadamente docentes, de metas curriculares rígidas, inibidoras da acomodação das diferenças entre as crianças e de um calendário escolar inapropriado, desequilibrado relativamente à duração dos períodos lectivos e onde a antecipação do exame significa uma grande perturbação das aulas dos 5º, 7º, 8º e 9º anos.  [Read more…]

“Os professores estão muito divididos”

O título deste texto corresponde a uma afirmação de Nuno Crato, em mais uma tentativa de intoxicar a opinião pública e de semear a dúvida entre os professores.

A grande maioria das reuniões de avaliação marcadas para a semana passada não se realizou. A manifestação de ontem levou a Lisboa 80 000 professores, num universo de 100 000 profissionais.

A notícia de que os professores estão muito divididos é, portanto, manifestamente exagerada.

Nuno Crato utiliza tudo o que possa servir para demonizar os professores. Para isso, cultiva, com grande habilidade, as declarações e os silêncios.

Assim, não hesitou em afirmar que os professores transformaram os alunos em reféns e apelou a que não fizessem greve aos exames, depois de ter falhado a exigência dos serviços mínimos.

No que se refere aos silêncios, hoje, na SIC, recusou-se a dizer o que poderá acontecer aos alunos que possam ser impedidos de fazer exame, amanhã, em consequência da greve. Com esta atitude, tenta amedrontar os professores mais hesitantes, ao mesmo tempo que mantém os pais e os alunos sob tensão, lançando-os, mais uma vez, contra os professores. Bastaria que tivesse afirmado que os alunos que não fizerem exames não serão prejudicados, mas isso seria contrário ao maquiavelismo que norteia a sua actuação. [Read more…]

Razões para não fazer greve

greve-professores (1)Num país ainda democrático, é natural que haja diferentes opiniões. Sobre a greve dos professores têm surgido algumas críticas à classe docente. Tentarei indicar algumas delas, num tom suficientemente ligeiro para que se possa perceber que hoje é feriado e para que fique claro que as desprezo a todas:

Crítica 1: “Direito à greve, pois com certeza que sim, é claro, mas…” Independentemente do que se segue ao “mas”, a primeira parte torna-se soberana. Vivemos, ainda, num Estado de Direito. Há legislação sobre a greve. Cumpra-se.

Admita-se, no entanto, que uma greve, sendo legal, possa ser injusta ou imoral. Prossigamos. [Read more…]

Quem anda a fazer mal aos alunos?

Lobo_Mau-263x300Peço ao leitor que imagine um aluno. Dê-lhe um nome, escolha-lhe o sexo, invente-lhe dificuldades. Pense, ainda, que essas dificuldades podem resultar de vários factores mais ou menos malignos: violência doméstica, bairro complicado, pais ausentes, dificuldade de acesso a bens materiais e/ou bens culturais, ausência de estímulos intelectuais, o que quiser.

Dê a mão ao seu aluno imaginário e leve-o até à Escola do Primeiro Ciclo do Ensino Básico (se, com o fecho de centenas de escolas, ficar muito longe, vai ter de lhe dar boleia). A turma tem trinta alunos, todos eles numa idade em que a energia parece ser inesgotável. O seu aluno, devido às referidas dificuldades, precisa de um acompanhamento próximo, o que se torna impossível, porque o professor (pode imaginar uma professora, se preferir) não tem tempo para atender a todos os problemas de cada uma daquelas trinta crianças, trinta universos únicos.

É claro que a Escola sempre teve e continuará a ter dificuldade em resolver os problemas cuja origem esteja a montante ou ao lado, mas cabe a uma sociedade civilizada criar as condições para que, pelo menos, se aproxime, o mais possível, de um ideal. Aumentar o número de alunos por turma é escolher o caminho oposto ao do ideal. [Read more…]

Ser governante é dizer umas graças

Quando Maria de Lurdes Rodrigues inventou as chamadas aulas de substituição, e tendo em conta que essa decisão tirava tempo individual de trabalho aos professores, alguém lhe perguntou se isso não afectaria a qualidade das próprias aulas de substituição. A impagável ministra respondeu que os professores podiam ocupar o tempo dizendo “umas graças” ou recitando uns poemas.

Os decisores políticos divulgam, frequentemente uma ideia, no que são acompanhados por muita opinião pública e publicada: ser professor consiste, basicamente, em dizer umas coisas durante cerca de vinte horas por semana e ficar de papo para o ar o resto do tempo. Terá sido também por isso que transformaram as licenciaturas em cursos acelerados, desvalorizando a formação científica dos alunos universitários, com reflexos inevitáveis, obviamente, na formação dos futuros professores. De qualquer modo, se dar uma aula é dizer umas graças, quase nem vale a pena tirar um curso superior. [Read more…]

Desabafo de uma mãe sobre a greve dos professores

Júlia Amorim

A minha Teresa está no 12º ano e como milhares de alunos no país terá exames nacionais, cujos resultados terão reflexo no prosseguimento de estudos.

Ontem, em família discutíamos as consequências da greve dos docentes e as conversas tidas na escola por parte dos colegas e professores. Que confusão de ideias, que demagogia, que ausência de pensamento crítico! A greve dos professores é mais do que justa e quer os pais quer os alunos deveriam estar unidos nesta luta. A greve dos professores não prejudicará os alunos… os alunos é que estão a ser prejudicados pela incompetência dos nossos governantes.

Claro que o efeito da greve será sentido e terá consequências. Será que os pais dos alunos não sabem que os professores também são pais? Que pais gostarão de prejudicar os filhos? A greve é usada como último recurso: quem se dá ao luxo nos tempos que correm de perder um ou mais dias de salário… [Read more…]

Universidade do Porto: os alunos mais bem preparados vêm das escolas públicas

Edificio-Reitoria-Universidade-do-PortoUm estudo feito pela Universidade do Porto verificou que os alunos provenientes das escolas públicas revelam melhor desempenho durante o seu percurso académico. Assim, os autores do estudo chegaram à conclusão de que as escolas privadas conseguem preparar melhor os alunos para entrar na Universidade, mas, segundo o pró-reitor da Universidade do Porto “o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública.”

Este estudo, baseado numa amostragem aparentemente significativa, é, em primeiro lugar, mais um elemento que deveria servir para chamar a atenção de todos aqueles que se limitam a uma análise simplista dos rankings: a qualidade de uma escola não se pode medir apenas com base nas notas dos exames.

Em segundo lugar, deve obrigar a reflectir sobre a real importância dos exames, nomeadamente no que respeita à possibilidade de que o peso excessivo dos mesmos exames acabe por perverter o processo de ensino, levando a que professores, pais e alunos se preocupem demasiado com um momento, desvalorizando o percurso. Se é certo que a esquerda tem demasiados tiques pavlovianos de rejeição dos exames, não é menos certo que os exames não são a receita milagrosa que Nuno Crato e os seus apaniguados defendem como a suprema panaceia de todos os males do ensino. [Read more…]

Alterações nos exames nacionais: incompetência ou má-fé?

De repente, o Ministério da Educação (MEC) resolveu alterar aquilo que estava estabelecido há vários anos, apanhando, mais uma vez, de surpresa, alunos, professores e encarregados de educação. Ao contrário do que acontecia até agora, os exames nacionais de 12º passarão a incidir sobre matéria dos três anos do Ensino Secundário, o que acontecerá já no final do presente ano lectivo.

Quando entravam para o Ensino Secundário, os alunos sabiam com o que contavam. No caso do Português, por exemplo, os alunos, ao iniciar o 10º ano, eram informados de que a matéria que constaria do exame nacional de 12º se referia apenas àquilo que era leccionado neste último ano. Como é evidente, todas as partes intervenientes tinham isso em conta, desde o início do percurso. [Read more…]

Um problema complicado

Uma aluna fez-se substituir na realização dos exames do secundário. No caso utilizou como expediente “um comprovativo do pedido de Cartão de Cidadão”, mas se calhar nem precisava de tanto. É que as fotos do CC são mesmo muito pequenas, nem sempre nítidas, e é preciso muito zelo por parte dos professores vigilantes, ainda para mais perante examinandos que estando numa fase de crescimento facilmente “enganam”.

Não estou a criticar os cartões em si, mas se calhar daqui a uns anos vamos precisar de uma solução tecnológica para este e outros problemas de fraude (como o dos telemóveis que facilmente se podem utilizar numa ida à casa de banho…).

Exame de Biologia e Geologia

Prova (versão 1 e versão 2) e critérios de correcção.

A incompetência e a desumanidade do Júri Nacional de Exames

De acordo com esta notícia do Público, uma aluna disléxica não pôde concluir o exame de Língua Portuguesa de 9º ano, porque perdeu o direito à leitura do enunciado por um professor, como recomendado “pela sua escola, pela terapeuta que a acompanha”, o que merecera “um despacho favorável da Direcção Regional de Educação do Alentejo.”

A entidade que decidiu contrariar recomendações e despachos foi o Júri Nacional de Exames (JNE). Argumento? Segundo o JNE, algumas escolas “generalizaram certas condições especiais de realização das provas de uma forma pouco criteriosa, em particular a medida ‘leitura de enunciado por um professor’”.

Este argumento faz tanto sentido como começar a prender cidadãos inocentes porque há outros que cometem crimes.

Infelizmente, esta é uma atitude recorrente nos incompetentes que gerem a Educação em Portugal: quando não sabem o que fazer, inventam uma generalização idiota e não se preocupam em analisar cada caso. Se o fizessem, correriam o risco de permitir que a humanidade presidisse a decisões fundamentais e que afectam a vida das pessoas.

Uma tempestade por uma garrafa de água, sff

Acabam de contar-me uma daquelas histórias que a gente vê a léguas que só podem ser mentira. Contaram-me, imaginem, que este ano os alunos não vão poder beber água durante os exames nacionais. Não pode ser, dizem vocês. Pois, foi o que eu respondi.

Se tivessem acrescentado que isto irá passar-se- num desses países em que o Estado se borrifa para a saúde dos seus catraios, eu era capaz de acreditar. Mas, em Portugal, onde fumar está a um passo de ser criminalizado (tá bem, é exagero mas não será por muito tempo), e onde a Direcção Geral de Saúde até quer ir inspeccionar as casas para saber se há garrafas de lixívia à mão de semear dos pequenos, vê-se logo que é peta.

Ora se há exames (parece que são dois) que chegam a durar 3 horas, e a maioria dos outros 2h30, e se há escolas que não têm ar condicionado, porque o Parque Escolar não chegou para todas, e a muitas a que chegou nem há verba para ligá-lo, proibir os alunos de beber água não andaria longe da tortura, não é?

Também é verdade que isso de as garrafas de águas estarem proibidas não está escrito em lado nenhum, e parece que apenas foi dito pelo presidente do Júri Nacional de Exames, prescrição suficiente para algumas escolas cumprirem.

Mas não, claro, isto é o país dos boatos, inventa-se cada história. Deixar os miúdos fechados numa sala, a fazer um exame de 2h30, sem ar condicionado, em Junho, e sem água? No mínimo, era caso para a Comissão de Protecção de Menores.

Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Teolinda Gersão

Escritora

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso,confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas,mas as ideias são todas deles.

Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa [Read more…]

Governo recomenda tratamentos a pessoas saudáveis

Vamos imaginar que uma pessoa está saudável. Percebe-se que lhe seja passada uma receita ou recomendado um tratamento? O leitor imagina-se, estando são e viçoso, a receber um vale para usar numa farmácia a fim de recolher, gratuitamente, medicamentos para curar doenças que não tem? [Read more…]

Passos em falso

Santana Castilho *

1. Pareceria elementar que alunos, famílias e professores pudessem confiar no Estado quanto às regras por que se pautam. Parece de senso mínimo que elas não mudem a meio do ano. Mas mudam. E não é de agora. O que é de agora é a incoerência de Nuno Crato, que faz hoje o que, ontem, impiedosamente criticava. Poderemos teorizar sobre as vantagens e as desvantagens de permitir aos alunos que escolham entre apresentar-se ou não à primeira fase dos exames nacionais. Podemos admitir que apenas os casos excepcionais recorram à segunda. Mas o que não podemos aceitar é que se decida sobre isto a meio do ano e, sobretudo, não se preveja alternativa para um impedimento forte, que escape à vontade do aluno e tenha por consequência a perda de um ano. Tal aberração está contida no despacho nº 1942, de 10 de Fevereiro, da secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário. Para que fique mais fácil de entender: um cidadão português, aluno de 18, que não entrou em medicina no ano passado, por insuficiência de média, num país que contrata médicos de 10, estrangeiros, e que tenha passado este ano a estudar para fazer melhoria de nota, se tiver o azar de ser atropelado a caminho do exame da primeira fase, ao qual tem obrigatoriamente que se apresentar, esse cidadão, caros leitores, dizia eu, perde outro ano e volta no próximo. Se não for piegas, ou não emigrar.
2. Na proposta de novas regras para a contratação de docentes, o Governo invoca o “princípio da igualdade” para permitir [Read more…]

Critérios de incorrecção

Este ano o GAVE (entidade responsável pelos exames nacionais) trocou as reuniões onde os professores correctores recebiam verbalmente indicações extra e aferiam critérios de correcção por documentos confidenciais com onde essas mesmas instruções foram transmitidas.

Não fora a capacidade do Paulo Guinote em furar estes esquemas e teriam ficado mesmo confidenciais, para espanto de muitos, incluindo o bom senso e as regras mínimas de transparência administrativa.

Ao contrário de muitos sou acérrimo defensor de que estas instruções devem ser transmitidas por escrito, sem com isso evitar as reuniões de aferição, que são chatas mas úteis.

É que em 2007 fui corrector da prova de História A, e na altura muita falta me fez um documento dessa natureza onde se afirmasse preto no branco que designar o Estado Novo como um regime totalitário ou fascista era considerado um erro científico grave, e como tal fortemente penalizado. Bem tentei denunciar, mas não tinha provas. Talvez ficássemos a saber quem foi a besta científica grave que inventou tal critério, no ano em que a média desse exame ficou abaixo de 10 valores, só tendo havido piores resultados a Física e a Geometria Descritiva.

O exame de Matemática do 9.º Ano

Diz quem sabe que foi muito fácil. Eu não, que olho para aquilo dos senos e dos co-senos e é como se estivesse um boi a olhar para um palácio. Melhor vigilante do que eu não podiam ter encontrado.
Tirando isso, o trabalho de vigilante dos Exames Nacionais deve ser o mais chato do mundo. Durante duas horas e meia, que nalguns casos podem ser três horas e meia, não se pode fazer rigorosamente nada. Nem ler, nem escrever, nem falar, nem olhar para o telemóvel. Nada.
Apenas, e só, olhar para os alunos que estão a fazer o exame. Sentados (ou nem isso). Em pé. Andando de um lado para o outro a ver se os minutos passam mais depressa. De novo sentados. De novo em pé.
E quando um aluno pede que lhe cheguemos a sua garrafa de água (não a pode ter à sua beira porque podia fazer copianço no rótulo…), ou quando pede mais uma folha, é um momento tão emocionante que não queiram imaginar!

Os professores vigilantes não podem estar sentados durante o exame

O Ministério da Educação elaborou um documento com instruções para a realização dos exames nacionais 2011. Apesar das suas 71 páginas serem uma ode à burocracia, um Agrupamento de Exames da zona da Lisboa achou que ainda não se tinha ido longe o suficiente. Por isso, decidiu “resumir” o documento original para “apenas” 35 páginas mas com a particularidade de acrescentar o que se segue:

Recomendações do Agrupamento de Exames
Os professores vigilantes não podem :
1. Estar sentados
2. Ler
3. Conversar
4. Estar fora da sala de exame

Os professores vigilantes não podem estar sentados durante o exame?! Mas terá esta gente ensandecido com esta recomendação em forma de ordem (note-se no uso de “não podem” em vez de “não devem”)? Duas horas e meia em pé, e sem se transformar a sala de aula num espaço de marcha, não é pera doce. Para mim, pelo menos, não seria, graças a uns brindes com que a vida presenteou a minha coluna. Uma coisa me parece certa, quando aparentar que a burocracia chegou ao expoente máximo, alguém ainda terá um “e se…” para propor mais uma ou outra regra.