Cláudia Sarrico, uma amanuense dos estudos sobre Educação

O Ministério da Educação criou uma equipa para descobrir qual “o custo real dos alunos do ensino público por ano de escolaridade”. Num país em que a honestidade intelectual não tem imperado nos estudos encomendados pelos ministros da Educação, é de prever que as conclusões a que esta equipa chegará estarão de acordo com as expectativas de quem encomenda.

O Paulo Guinote, secundado pelo João José Cardoso, já teve oportunidade de chamar a atenção para o facto de que o presidente desta equipa desempenhou, entre 1989 e 1995, a função de Presidente do Conselho Coordenador do Ensino Particular e Cooperativo, o que pode tornar o estudo um pouco tendencioso, até porque o objectivo é proceder à “alteração do modelo de financiamento público aos estabelecimentos de ensino particular e cooperativo em regime de contrato de associação.”

Entretanto, reconheci um outro nome entre os membros da mesma equipa: Cláudia Sarrico. Há cerca de dois anos, participou numa coisa a que se chamou estudo, tendo concluído que o sucesso dos alunos dependia pouco do meio socioeconómico, uma afirmação que corresponde ao sonho de todos aqueles que, na realidade, não querem resolver os problemas educativos, atirando as culpas para cima das escolas.

Deixo, já a seguir, algumas ligações que, no mínimo, põem em causa as conclusões dessa encomenda e, portanto, a competência de Cláudia Sarrico, pelo menos enquanto alegada estudiosa dos fenómenos educativos. Entretanto, se os restantes membros da equipa recentemente nomeada forem feitos da mesma têmpera de amanuenses que, em letra bonita, escrevem umas conclusões à medida, estamos conversados e mal pagos. [Read more…]

João Casanova de Almeida e a asneira perfeita

Um governo que tem no seu programa um corte nas despesas da educação pública que acarreta forçosamente despedimentos (até porque no mesmo programa se aumenta a despesa com o ensino privado, contrariando o memorando) devia ter algum cuidado na hora de o aplicar. O Ministério da Educação teve-o, com a habilidade de um paquiderme numa vidraria.

Primeiro antecipa a indicação dos professores que não iriam ter horário para uma altura onde é impossível fazer tal cálculo (as matrículas ainda nem acabaram). Depois fá-lo ameaçando os directores, lembrando-lhes que podem ser alvo de castigo no caso de se esquecerem de alguém. Resultado; mesmo com uma semana de prolongamento de um prazo absurdo: a maioria dos directores na dúvida preferiu arredondar em claro excesso. Não me admiraria que o total nacional de professores ameaçados se aproxime dos 20%.

Depois deixou que critérios diferentes fossem utilizados na selecção desses professores (ver por exemplo nos comentários a este artigo), motivo mais que suficiente para que o concurso seja impugnado, e ainda gostava de perceber de que estão à espera os sindicatos.  [Read more…]

São necessários mais professores, estúpidos!

Se é certo que defendo que é a solidariedade que deve presidir à actuação do Estado e que, portanto, me faz muita confusão que se fale em despedimentos como se as pessoas fossem objectos que se podem pôr no lixo, não me custa, igualmente, reconhecer que o Estado não tem a obrigação de garantir emprego a qualquer cidadão. Assim, é óbvio que o Ministério da Educação não tem de ser visto como uma agência de emprego que ofereça colocação a todos os que queiram ser professores.

É, então, fundamental que se analisem as necessidades das escolas, para que se possa saber quantos professores são, efectivamente, necessários. Não será admissível outro critério, sob pena de se estar a pôr em risco aquilo que verdadeiramente interessa: a educação dos jovens. Na pior das hipóteses, e aceitando que estamos em crise, poder-se-ão discutir medidas transitórias decorrentes de uma austeridade que, pelo menos, a Chanceler da Alemanha considera imperativa, mas isso é outra questão.

Desde 2005, têm sido tomadas várias medidas que tiveram como reflexo o aumento do desemprego entre os professores. Esse processo iniciou-se com Maria de Lurdes Rodrigues e prossegue com o actual ministro, afectando milhares de docentes que não têm conseguido entrar nos quadros, apesar de darem aulas, por vezes, há mais de dez anos. Também com a actual equipa, mantém-se um discurso de omissão relativo a esse problema, sendo sinal disso a não resposta do Secretário de Estado João Casanova de Almeida, ao dizer que os professores do quadro não seriam afectados pela revisão curricular, depois de lhe ter sido perguntado quais seriam os efeitos dessa mesma revisão sobre os professores contratados. [Read more…]

Com Crato é sempre a poupar: viva a revisão curricular!

A divulgação da proposta de revisão curricular feita ontem pelo Ministério já está a ser comentada pelo mundo blogosférico, sendo de destacar, mais uma vez, vários textos do Paulo Guinote, com realce para este, e outro do Arlindo.

Nuno Crato afirmou, para não ser diferente das suas antecessoras, que estas medidas foram tomadas, tendo em conta, apenas, o interesse dos alunos. Permito-me duvidar.

João Casanova de Almeida, não querendo divergir dos seus antecessores, recusou-se a dizer se estas medidas iriam afectar os professores contratados, (não) respondendo que não iriam afectar os professores do quadro.

Tentarei, num texto posterior, explicar por que razão considero que esta revisão curricular faz parte de um caminho profundamente errado para a Educação, no que não serei, decerto, original.

Entretanto, embora compreendendo, em parte, a atitude quase festiva da Associação de Professores de Geografia, parece-me uma posição demasiado corporativista. Dos professores deve esperar-se uma visão mais holística do Ensino, porque, neste momento, não basta que uma disciplina seja beneficiada – mesmo que justamente – para que haja lugar a comemorações.

Vídeo: João Casanova de Almeida em debate pré-eleitoral

João Casanova de Almeida, actual secretário de Estado do Ensino e Administração Escolar, em debate a 31 de Maio de 2011 à Odivelas TV.