Pressão eleitoral na Nigéria

Nigéria

O país mais populoso de África vai amanhã a votos. Com um subsolo repleto de petróleo, uma casta de oligarcas opulentos e uma manifesta incapacidade de lidar com os terroristas do Boko Haram, facto que conduziu inclusive à humilhação militar de ter que recorrer a vizinhos pobres como o Chade ou o Níger para recuperar o controlo de algumas cidades no norte do país, a Nigéria encontra-se num impasse que, entre a remarcação e a possibilidade de novo adiamento das eleições presidenciais, poderá significar um perigoso revés na frágil democracia daquele país.

[Read more…]

Nigéria em sangue

Continua o horror na Nigéria e os ataques do Boko Haram continuam a fazer vítimas inocentes aos milhares. É o terrorismo puro e duro – com a inconcebível justificação de purificar o país e os seus costumes e espalhar a sharia a todo o território e mesmo aos países vizinhos – usando todos os habituais métodos, desde a guerra de ocupação até aos bombistas suicidas, como aconteceu este fim de semana em que até uma criança de dez anos foi usada. Mas, contrariamente a outros casos de terrorismo, o da Nigéria está fortemente territorializado, configurando uma fase avançada de operações que se aproxima da guerra clássica que, dizem os manuais, é a fase final destes processos. Repare-se, porém, que estes movimentos têm tanto mais hipóteses de sucesso quanto maior for o apoio da população. Aqui, porém, também esse apoio é procurado pelo terror ou, se tal não resulta, pelo puro extermínio. E, chegados aqui, é altura de perguntar o que fazem as forças armadas da Nigéria e que cooperação existe com os Camarões, que também já foram vítimas de ataques. É também tempo de perguntar à comunidade internacional porque permanece em sossego neste caso. Estamos perante o que é, provavelmente, o mais violento campo de batalha do delírio fundamentalista – o que, nos tempos que correm, não é dizer pouco. Mas África parece ser o continente abandonado pelos deuses. E, o que verdadeiramente conta, pelos homens de bem. Com as poucas excepções que conhecemos.

Why did the world ignore Boko Haram’s Baga attacks?

nigeria

Confesso que me identifiquei com esta pergunta do The Guardian.

Há uns anos, numa aula de estatística concluímos que a morte de milhares seria um número, enquanto a morte de um, se próximo de nós, seria uma tragédia.

Será esta a explicação? Será que vimos Paris com os mesmos olhos que vemos o nosso quintal, enquanto a Nigéria é noutro planeta? Será isto? Estará na nossa mente que alguém que morre em Paris é parte de nós e alguém que morre na Nigéria é algo extrínseco?

Não quero acreditar que uma vida em Paris vale mais do que uma vida em África, mesmo sabendo que esta Lei Sagrada é todos os dias violada pelo nosso modo de vida ocidental.

Na Nigéria, segundo a CNN, poderão ter morrido milhares de pessoas numa ataque que poderá ter durado vários dias. Como sempre, milhares de inocentes.

Será normal que o site do público não tenha, na sua página inicial, qualquer referência a este acontecimento trágico? Nem o JN, nem a TSF, nem…

Será que as bombas transportadas por crianças com dez anos são menos criminosas que o ataque de Paris?

Não sei se o ovo e a galinha são o melhor exemplo para estudar a propriedade comutativa, mas não é argumento da Comunicação Social deixar passar o que aconteceu na Nigéria, dizendo que  os consumidores não querem saber. Experimentem ir para lá, façam imagens em directo, cobertura permanente do local e depois digam-me se a resposta dos consumidores é ou não a mesma.

É que isto de ser Charlie é muito bonito, mas de palavras…

#BringBackOurGirls

Seis meses depois, 219 meninas nigerianas continuam em cativeiro. Que resta da campanha mediática mundial?

Devolvam a exclamação ao Tó Zé

António José Seguro juntou-se à campanha #bringbackourgirls, coisa que eu até poderia aplaudir se a idade não começasse a fazer de mim cínica e, a quinze dias de ir às urnas, eleitor escaldado até de água gelada se escapa.

Na sua página do facebook, o Tó Zé aparece a escrever um cartaz e, num daqueles arrebatos violentos que às vezes lhe dão, remata a frase com um enérgico, resoluto, indignado ponto de exclamação: Bring back our girls!

Mas quando levanta o cartaz para a câmara, pasme-se, o ponto de exclamação foi substituído por um discreto, contemporizador ponto final.

Das duas uma, ou não foi ele a escrever o cartaz (já sabemos que o inglês não é o forte dos líderes socialistas) ou alguém lhe disse para amainar, que a Nigéria é longe e também não vale a pena gastar fúrias com umas moças que a, bem dizer, nem vão poder votar.

Mais uma abstenção violenta, coitado. Não tarde nada ganha uma úlcera.