Marcelo, o pastor

marcelo_rebelo_sousa_pastor
Isaac Pereira

Em Oliveira do Hospital, Marcelo Rebelo de Sousa comprou uma ovelha, e negra, ainda por cima. Chamou-lhe Oliveirinha. Depois abraçou um pastor rosado que lhe disse do alto do bigode:
– Morreram-me vinte e cinco cabeças. A vida de pastor é dura.
O presidente dos afectos abraçou-o, como não poderia deixar-se ser, e disse, afagando-lhe o pêlo:
– Eu sei. Eu sei.
E foi nesse momento que fiquei a saber que Marcelo já foi pastor.

Ao soar das horas mortas

(Adão Cruz)  

Ao soar das horas mortas neste outro modo de ser hoje
recolho as asas à saída do corpo asas de voo natural sublime
acima das coisas

Para lá do nevoeiro sei que moram os dias claros e as
nirvânicas noites e apetece‑me gritar menino‑pastor da
noite menino‑pastor da noite

Vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo tento
fundir a neve com o calor da minha nudez mas o cansaço
e a ideia do lado de fora de uma teia sem olhos são fios que
tecem mais tarde ou mais cedo o gélido mundo das sombras

A respiração acabou e o poema nasceu fechado cianótico
asfixiado

No imediato corpo tão longe e tão perto um frio azul
anidrido carbónico encharca as palavras secas

Velha semente sem terra nova terra sem semente um tal
dizer feito de gestos e o prazer de supor que a água ainda
corre nas entrelinhas da secura

as culturas da cultura. infantil, adulta, erudita (I Parte)

ser ou não ser

o menino que não queria ser pastor, em época de crise, não teve opção

1ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral

A questão, 1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007

Miguel (v. Genealogia 1), o neto do Marques, queria uma bicicleta. Conseguia equilibrar-se na minha, que era preta, de ferro e pesada. Seu pai, a trabalhar nas obras de uma cidade longínqua, não tinha dinheiro suficiente para comprar uma; a mãe,

jornaleira, guardava o dinheiro para os gastos da casa. Os avós, quinteiros da casa da aldeia onde eu e eles vivíamos, observavam os vizinhos e sonhavam com outra vida enquanto entregavam produtos e dinheiro das vendas aos proprietários. A bicicleta não podia materializar-se, e Miguel Marques sabia; com sete anos, sabia. Mal podia, entrava na garagem da casa, enquanto eu andava pelas ruas e “belgas”1 ou estava ausente, tirava a bicicleta e juntava – se aos amigos que tinham cada um a sua. Filipe Manuel, o pai, ausente nas obras, não sabia. Nem sabiam Elvira, a mãe, longe nas jornas de outras casas, nem o avô Marques, ocupado com a rega e a cava da terra da quinta. A avó Elvira, lavava no tanque, falava à pequena Marta, sua neta, que olhava o irmão, sem nada dizer. A bicicleta não era dele, era de outro que não precisava dela nesse momento, esse outro sorridente e nunca zangado. [Read more…]

la amistad es una relación cultivada


…para Sérgio Aurélio, que me ensina informática, com paciência e simpatia….

Acabo de volver a mi país, después de una ausencia prolongada. El motivo no era ni ferias ni paseo, era reunir datos para mi nuevo libro, que acabé hoy en la tarde. Libro dedicado a una querida amiga quién, para mí, es la Reina de Galicia. Comencé a escribirlo en el sitio en que me hospedé, su casa, que también es mi casa: los considero parte de mi familia. Esa familia Medela, el pastor de cabras y ovejas y agricultor a la antigua, que no sabía que era primo del Conde de Lemos y de la Duquesa de Alba, hechos descubiertos por mí en otro viaje de feliz memoria, al final de los años 90 del siglo pasado. [Read more…]