as culturas da cultura. infantil, adulta, erudita (I Parte)

ser ou não ser

o menino que não queria ser pastor, em época de crise, não teve opção

1ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral

A questão, 1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007

Miguel (v. Genealogia 1), o neto do Marques, queria uma bicicleta. Conseguia equilibrar-se na minha, que era preta, de ferro e pesada. Seu pai, a trabalhar nas obras de uma cidade longínqua, não tinha dinheiro suficiente para comprar uma; a mãe,

jornaleira, guardava o dinheiro para os gastos da casa. Os avós, quinteiros da casa da aldeia onde eu e eles vivíamos, observavam os vizinhos e sonhavam com outra vida enquanto entregavam produtos e dinheiro das vendas aos proprietários. A bicicleta não podia materializar-se, e Miguel Marques sabia; com sete anos, sabia. Mal podia, entrava na garagem da casa, enquanto eu andava pelas ruas e “belgas”1 ou estava ausente, tirava a bicicleta e juntava – se aos amigos que tinham cada um a sua. Filipe Manuel, o pai, ausente nas obras, não sabia. Nem sabiam Elvira, a mãe, longe nas jornas de outras casas, nem o avô Marques, ocupado com a rega e a cava da terra da quinta. A avó Elvira, lavava no tanque, falava à pequena Marta, sua neta, que olhava o irmão, sem nada dizer. A bicicleta não era dele, era de outro que não precisava dela nesse momento, esse outro sorridente e nunca zangado.

1 Designação dada às parcelas de terreno.

Miguel divertia-se. Os amigos apoiavam-no e iam com ele de passeio. Quando eu voltava, embora toda a vizinhança o soubesse, o segredo não me foi nunca contado e, como o Miguel voltava a colocar a bicicleta exactamente no mesmo sítio, nada percebi, até ao dia em que vi o pneu furado. O avô Marques, alcunhado “Mouco”, não sabia, porque nada tinha ouvido. A avó Elvira estava no seu canto do tanque; a mãe, longe nas jornas; Filipe Manuel, o pai, só voltava aos sábados para comer, ver os amigos, estar com a mulher, beber, discutir e brincar até tarde, só entre homens.

Miguel estava na charneira das culturas da sua sociedade: disputava com o seu amigo e rival David (v. Genealogia 2) a chefia do grupo de rapazes e as atenções das raparigas; o seu imaginário deambulava no meio da preocupação fantasista dos seus pais e avós, distraídos pelo trabalho para ganhar dinheiro, e o não saber que havia distintos direitos sobre a propriedade e o uso dos objectos que não fossem alfaias, terra, frutos, ferramentas. Mesmo o monte de areia, que esperava ser misturado com cimento para construir casas, era de outrem, sendo entretanto também o sítio predilecto para subir e rebolar com os amigos.

E assim decorria a sua vida quotidiana sitiada pela autoridade de adultos que gritavam “anda cá”, “leva isto”, “traz a enxada”, “despacha-te”, “vê lá se lavas a cara”. Autoridade destinada a delimitar o agir. De todas, a mais respeitada socialmente aparecia aos domingos, às oito horas da manhã para dizer a missa, o ritual da palavra explicada de forma erudita: a hora dos empurrões em silêncio, ao Bento (v. Genealogia 2), ao Joel (v. Genealogia 3), ao Hélder (v. Genealogia 4), ao António (v. Genealogia 5); a hora de sussurrar comentários sobre a fila da frente, a das raparigas, que arranjavam a roupa, tratava do cabelo e iam comungar primeiro.

O padre falava, não se sabia de quê, avisava dos eventos litúrgicos da semana e usava palavras que eram de padre, ouvidas e repetidas pelos adultos. Aos domingos, aparecia também o outro erudito, essa outra autoridade longínqua, presente tanto no ritual dominical como na vida quotidiana, o professor, que a seguir à missa ia falar na catequese.

Miguel, no meio de tanto ser humano, vivia só, passava pelo meio de todos, ninguém notava ou se apercebia da sua presença: apenas existia para os adultos quando fazia barulho e um “cala-te” saía da boca de alguém. Miguel, esse rapaz de oito anos que, como todos os outros, era o resultado socialmente previsto do desejo dos seus pais. E, socialmente, era ponto assente que devia ser alimentado, vestido e corrigido. Nunca ouvido.

Nenhum destes rapazes sabia que havia pessoas denominadas cientistas e que os cientistas eram seres que falavam da cultura como um comportamento unificado e organizador de condutas (Frazer, 1890; Thurnwald, 1906; Mead, 1933; Malinowski,

1944) ou que falavam de cultura como um conceito que subsume condutas esperadas de cada uma das idades e condições.

Palavras e ideias existentes fora do quotidiano de jogos e brincadeiras infantis. Tão-pouco a meninada sabe que toda a união é monogâmica, que toda a relação é orientada por hierarquias, que as coisas têm um preço, que a língua é governada pela gramática vigente e que no processo de vida há também uma via sacramental que organiza alianças que evitam tabus; e uma lei que define o que é permitido fazer, quando e com quem. Saber tudo isto, para um menino como o Miguel, o Joel ou outros seria como conhecer o conteúdo do jornal, inexistente em outro sítio que não fosse o café local. Nem eles sabiam de outras ideias dos cientistas, por exemplo, que existem três culturas na sociedade à qual se pertence: a dos que mandam, esses adultos temíveis que corrigem; a dos que obedecem, essas crianças ignoradas, excepto quando constituem braços suplementares para o trabalho em casa e no campo; e, mais distante ainda, a dos cientistas, ou a cultura da palavra escrita que manda, obriga, abstrai e sistematiza a memória da experiência humana, a cultura que se aprende pelos textos. Ideias que a meninada que gosta de bicicletas teria de retirar dos textos que falam de pessoas, grupos domésticos, estruturas parentais, contratos, comportamentos, trabalhos, ritos, mitos, ou seja, ideias pelas quais um conjunto de seres humanos orienta o seu agir social e que a criança desconhece ou mal percebe.

Como ia saber o Miguel que a ideia de introspecção, que remonta ao século IV (Agostinho, 387), foi criada para analisar se a consciência está a agir ou não de acordo com as normas prescritas para todos pelos eruditos, de acordo com a categoria e idade de cada um. Ideia que os adultos, com autoridade, reproduzem. Como ia interessar ao Miguel o facto de, a partir dos séculos XI e XII, os grupos sociais terem passado a estar unidos por uma identidade unificadora que se opunha e aliava a outras que concorriam no comércio, trocavam entre si bens que não podiam confeccionar ou que faziam circular como dádiva para obter outros. Teologia, Filosofia, Direito Canónico, Doutrina, Economia constituem elementos do que os cientistas denominam cultura, os adultos internalizam com as suas próprias palavras, e os pequenos exploram para entender, na base do que definem os eruditos.

Depois de anos de pesquisa etnográfica em etnias, bairros e aldeias parece-me evidente que toda a sociedade está composta por estes grupos que se inter-relacionam: os mais novos que começam a aprender os hábitos dos mais velhos; os mais velhos que organizam a reprodução; e os eruditos locais, isolados e afastados do quotidiano popular, que vão acumulando palavras e ideias dos cientistas longínquos, às palavras e ideias que, conjunturalmente, se definem como as mais importantes para manter o grupo dentro da História. Ao longo desses 30 anos de trabalho de campo, entendi  racionalmente que havia um problema central em qualquer grupo: trata-se de dinamizar o processo de substituição dos que morrem, dos que perdem a memória e a capacidade produtiva, pelos que nascem e precisam de entender as palavras, os gestos, os lugares, a utilidade das coisas e o movimento do corpo, essa alfaia central de todo o trabalho humano (Iturra, 1989).

Uma alfaia, como diz Paulo Raposo (1991), que pensa e age, que lembra e tem ideias, que aprende com a experiência e que transforma a matéria, como define Iturra (1989 b, 1994 b, 1995 e 1996). Porém, posso dizer que o Miguel é resultado de três culturas: a sua própria, a dos adultos e a dos eruditos locais, que a obtêm de investigadores, dos factos sociais ou materiais, que eu denomino cientistas ou doutores. A cultura que denomino dos doutores é parte experimental da cultura erudita e reproduz as ideias que formam adultos e crianças. O conjunto das três culturas consegue organizar uma unidade (que tem sido tradicionalmente denominada a cultura) e define um conceito, hoje pouco utilizado, de uma conduta homogénea, central e unificada, onde condutas heterogéneas, de gerações de épocas diferentes e inter-relacionadas entre si, não são inquiridas. Cada uma das três culturas, que conformam a tradicionalmente denominada cultura central de uma sociedade, tem lógica, objectivos, epistemologia e ideias próprias. Tem indivíduos diversificados que as cultivam e que, embora estejam cronologicamente obrigados a conviver, fogem uns dos outros, porque agem a partir de epistemologias organizadas diferentemente no tempo e na experiência. Porque cada indivíduo semelhante a outro entende-se e comunica, enquanto os que não se entendem têm de se explicar, e explicar é desfazer em conceitos a totalidade à qual cada um está habituado.

E conceitos diferentes são intransmissíveis. Por isso, é preciso entender as características de todo o grupo cultural em inter-relação.

Porém, esquadrinhar a denominada cultura de uma sociedade é entender a sua variabilidade e heterogeneidade inscrita nas várias gerações que interagem.

A cultura infantil

Não é uma definição o que procuro. O que procuro são características para entender a epistemologia infantil. Gostava de dizer que a infância não tem cronologia. É um processo possível de se fixar entre o nascimento e a puberdade, com formas de comportamento heterogéneas. Nem vale a pena repetir tudo o que sabemos sobre a fragilidade do ser humano que vem ao mundo nem, em consequência, da necessidade de o nutrir, de o cuidar, de o vestir, de o agasalhar, de lhe fornecer o que é indispensável nessa fase do ciclo de vida. O cuidado dispensado varia de acordo com os ancestrais, a época histórica em que se vive e o trabalho que os adultos pratiquem, bem como com a região do mundo na qual vive. Não deixa de ser importante dizer que depende da classe social; mas a classe como conceito engloba comportamentos igualmente heterogéneos, denotando o conceito uma hegemonia esperada ou pressuposta de uma classe sobre outra. A variabilidade está relacionada com a afectividade na comunicação e o cuidado dispensado pelos outros, pares ou adultos.

Na observação realizada durante um ano (entre 1992 e 1993), num jardim-de-infância, percebi o apreço e a amizade demonstrado pelos pequenos provenientes de lares de adultos afectuosos com eles; também observei no interior de algumas casas o empenho desses adultos que tratavam as crianças com paciência. No entanto, estas crianças tinham os seus momentos agressivos, especialmente se a sua vontade não era satisfeita. Outras, provenientes de lares cujos pais não tinham trabalho ou dedicavam o seu tempo

a ir ao café, beber e falar com os vizinhos, tinham momentos de solidariedade com os colegas e de saudade pelos irmãos ausentes.

Paulo (v. Genealogia 6), irmão mais novo de um grupo de quatro irmãos, apresentava sinais de inadaptação ao jardim infantil. Ele comunicava bem com os seus irmãos e com os quatro primos direitos, e a sua afectividade estava tão endereçada aos ditos primos e irmãos que só queria fugir do infantário para a escola vizinha onde os seus parentes estudavam; não era estranho ter de correr a resgatá-lo do canto do pátio a partir do qual podia comunicar com o irmão mais velho e pedir para estar com ele. A separação, aliás legal, de seres humanos que habitualmente estão juntos, biológica e afectivamente vinculados e desejando estar juntos, não fazia sentido para a criança de cinco anos.

Lembro-me de nas férias de Verão de 1992, quando íamos com um grande grupo de crianças brincar no pinhal, o Paulo e os seus formarem um grupo separado cujos membros se protegiam entre si. A merenda que eu comprava e tinha o cuidado de levar era transportada pelo dito Paulo que, desta maneira, guardava as guloseimas para os outros do seu grupo familiar e as defendia dos “predadores” mais crescidos, interessados também nas batatas fritas e nas bebidas. É verdade que os mais crescidos, como o David e o Hélder (12 anos), já perto da puberdade e sistematicamente a falar de meninas e das suas mesadas – sem se importarem com minha discreta presença –  queriam a merenda para dar às raparigas, também elas quase púberes e companheiras nas brincadeiras, como a Cristina de 10 anos (v. Genealogia 7), a Eunice de 10 anos

(v. Genealogia 8) e outras. Acontece que a irmã do pequeno Paulo, Susana, de 5 anos (v. Genealogia 6), inventou a história na qual o David, que roubava sempre as batatas para oferecer à Cristina, de quem ele gostava, o fazia para ficar com os brincos de plástico que aí vinham e, em consequência, era paneleiro. Proferida aos gritos, esta frase feriu a pré-adolescência de David que durante umas semanas não se atreveu a tocar nos pacotes das batatas fritas.

Sábia defesa da Susana, com conceitos de adultos entendidos por ela. A solidariedade e o carinho entre irmãos e primos eram sustentados pelos pais, que gostavam de levá-los às festas de adultos, bem limpos e perfumados. Todos eles tinham passado pelo jardim – de – infância e conheciam bem as histórias e as festas que aí se realizavam; de todos eles, foi o Paulo que ficou só ou que ficava só no jardim-de-infância, enquanto os irmãos e primos estavam juntos na escola próxima. A lógica do adulto que manda separar os que habitualmente vivem em conjunto, não fazia sentido para este pequeno, habituado a usufruir da união, igualdade e protecção de irmãos e primos.

Diferente do caso da Rita (v. Genealogia 10), essa reguila de cinco anos que não parava quieta entre os colegas. Era conduzida ao jardim infantil pela sua irmã Rosa ou pela própria mãe, Lídia, quando Rosa tinha horários diferentes. Rita, filha e neta de jornaleiros, era mimada e especialmente cuidada pelo seu grupo doméstico, quinteiros do homem mais rico do lugar. Nos jogos, procurava evidenciar-se em relação ao resto do grupo e reproduzia para as outras crianças gestos e ordens da educadora e da sua assistente São; esta última ficava sempre admirada do que Rita fazia e dizia, sem ser capaz de corrigi-la. A pequena Rita mandava em casa e mandava no infantário, cuja disciplina estava longe de ser a do seu lar: no seu lar, a Rita, por ser a mais pequena dos irmãos, tinha autoridade. A lógica da igualdade, que se supõe existir no grupo de pares, acabava por não ser real para ela, cuja realidade era comandar e falar constantemente, dominando assim o grupo.

O caso do Jorge, 4 anos (v. Genealogia 9), filho do Quim Beato, é diferente dos dois anteriores: tendo três irmãs, ele era o rapaz desejado pela família. A fantasia de reproduzir a masculinidade demonstrada por todos os membros estava no seu pensamento e era a sua realidade. Em casa, Jorge era cuidado por todos os membros do grupo doméstico e o jardim infantil era o sítio onde o dito grupo podia ser por ele reproduzido à vontade: calado e calmo, esperava ser servido pelos adultos e pelos mais velhos.

A infância trabalha com o real, ainda que não entenda o seu contexto nem o seu objectivo. Talvez tenha de dizer como Durkheim (1912) dizia daqueles que não eram adultos ocidentais, os Arunta ou Aranda da Austrália: a criança vê os resultados da acção, não entende o propósito nem a causa. O senhor leitor queira lembrar-se e comparar a sua vida infantil com a vida adulta que hoje tem: em criança, orientava-se pelo resultado; em adulto, prevê o resultado. E o que nós em antropologia denominamos o pensamento analítico, quer dizer, associativo e imaginativo para obter o seu objectivo. O Nuno (v. Genealogia 11), filho e neto de pastores de Vales, em Trás-os-Montes, surpreendeu certo dia o seu pai e o seu avô quando, olhando para eles com os seus nove anos, afirmou com determinação: “eu não quero ser pastor”. Uma frase que deixou os adultos calados e a entreolhar-se, embaraçados pela presença da equipa de antropólogos e médicos munidos de câmara fotográfica e vídeo. E embaraçados por não saberem

o que responder. Porque, em casa de pastores, é o trabalho que estrutura o quotidiano das relações, das conversas e dos afectos. O pai, todo envergonhado, afirmou que ser pastor é o trabalho ao qual a família sempre se dedicou; o avô paterno acrescentou que, não havendo outro trabalho, como acontecia no princípio do século, tomar conta das ovelhas de outrem era já uma sorte, lembrando que se trata de um trabalho importante e difícil, como prova o seu corpo tolhido pelo reumatismo. O Nuno tem visto que o simpático avô é incapaz de andar e que o forte pai, que tanto ama e admira, trabalha sob frio e calor, e não consegue perceber que vivam daquela forma. Ele próprio, com palavras claras e frases bem construídas, diz que ser pastor é não dormir à noite, passar frio no Inverno, estar só, não ter com quem jogar. Em conversas comigo vai contando como os outros miúdos da aldeia dos Vales dormem até tarde, comem quando conseguem bicar das árvores de fruto ou da cozinha da mãe, procuram esconderijos, vagueiam pelas ruas. O Nuno tem de acordar às quatro da manhã no Inverno para sair com o rebanho e acompanhar o pai até ao prado, lá longe, e voltar antes de ser noite; no

Verão passa a noite no campo e dorme no meio dos animais, enquanto o pai fica em casa e vai ter com ele de dia, para que possa ir à escola. O pequeno, um observador de olhos abertos e boca calada, vê tudo o que se faz na aldeia e, acima de tudo e de todos, admira o tractorista: trabalha quando não chove, quando chove pára e vai para o café jogar cartas, beber e falar, tem horário fixo, começa às nove da manhã e acaba às cinco da tarde, e vai logo para casa ou ter com os amigos. Ele quer ser tractorista.

Nessa profissão vê a possibilidade de fugir do seu trabalho incessante de cuidar de animais que podem ir comer às terras de vizinhos ou destruir os produtos que eles cultivam. Um descanso permanente como alternativa ao trabalho contínuo. O tractorista, seduzido pela admiração que o pequeno demonstra por ele, já o passeou na máquina. Eis, para o Nuno, uma diferença notável em relação à companhia permanente do pai, à sua autoridade e ao seu comando. O condutor do tractor, descomprometido em relação ao cuidado e ao crescimento da criança, converte-se num estímulo para o seu imaginário que idealiza uma vida mais entretida que andar só com os animais, com frio no Inverno, calor no Verão e um avô, forte como deve ter sido na sua época, agora tolhido pelo trabalho.

Na cabeça do Nuno não há conjunturas históricas como, por exemplo, a época em que os seres humanos eram propriedade do proprietário dos bens e, dessa forma, pela disciplina, eficácia, sacrifício do corpo acediam ao trabalho; ou a época em que, devido à emigração e à poupança, o adulto pode ser o proprietário de recursos que um dia, se quiser e for capaz, pode incrementar. O que o Nuno vê é a sua verdade construída no pragmatismo do quotidiano, no real. A vida dentro de um grupo de pastores acelera o seu desejo de fugir: o dever é o castigo que o mito dos eruditos, pregado na catequese e na homilia dominical por pessoas com autoridade, diz ser o destino do homem. O Nuno não sabe que o Código de Justiniano (532) definia os contratos como meio de interacção herdado pela memória social e pela lei escrita que governa até hoje, nem suspeita que foi desse código que São Tomás de Aquino definiu, no século XIII, o conceito de trabalho na Summa Theologica (1273), elo central das relações entre pessoas, elo central da relação consigo próprio, quer para poder subsistir quer para poder ser estimado por si e pelos outros. Para o Nuno, o trabalho é um castigo, bíblico ou não, para o seu pequeno corpo.

Essa é a realidade tal como se apresenta ao seu imaginário, especialmente quando toda a sua família sofre e se cansa pelo conceito central de trabalho existente entre eles desde que há lembrança. A sua genealogia (v. Genealogia 11) é clara: o trisavô era pastor, os dois irmãos do pai, pastores, quer na terra quer na vizinha Salamanca espanhola. A realidade do mito que diz “viverás do suor do teu corpo” é fundadora do seu pensamento e ideias e, claro, para o destino fatal do que será o seu futuro quando adulto: cansado como o pai, doente como o tio, ausente como o outro irmão do pai que trabalha com ovelhas em Salamanca, tolhido como o pai do pai que apanhou frio guardando ovelhas na neve, ou como as mulheres a fazer queijo na madrugada do Inverno nevado, a cultivar as batatas e o milho no tórrido Verão, a servirem nas refeições, no arranjo do vestuário, na cama.

Na terra do Miguel, o que usava a minha bicicleta às escondidas, como na do Paulo que vivia no meio do seu grupo fechado de irmãos e primos, ser pastor não constituía a única alternativa de trabalho. Há outras como a indústria e a construção civil. No entanto, o trabalho é também um conceito social de punição mítica do qual é necessário fugir para não ficar com o peso de o corpo ser alfaia. A realidade é dura para quem não entende que ela pode ser manipulada e oferece alternativas. Para todos eles, desde a República do começo do século XX, o Estado quis oferecer uma aberta, colocando meninos e meninas no sítio que ensina o saber científico, a escola. Isto é, que ensina um conceito alternativo ao mito. Mas o Estado nunca percebeu que havia uma descontinuidade entre a escola e o quotidiano, com agentes do ensino treinados para saber a verdade do livro e não a verdade do dia-a-dia que, por ser dura, faz também fugir do trabalho que faz suar o rosto. E, o Nuno, em Vales, como o Miguel e o Paulo, em Vila Ruiva, têm introdutores do real que lhes apresentam questões que não dizem respeito ao mundo que conhecem, o mundo do frio, do calor, da solidão. Como nos bairros das cidades, onde os pequenos ficam entregues à rua, ao cuidado dos vizinhos, ao da escola, ao dos adultos sem trabalho que falam e bebem nos cafés. O real adulto apresenta-se pouco fácil de entender na infância.

O Nuno, o Miguel, o Paulo não vêem para além do seu interesse pessoal e seu objectivo na vida, porque é característico da infância não perceber que o seu corpo, mente e experiência crescem e mudam. Como também não sabem que há um ideal social definido para eles: torná-los indivíduos autónomos, competentes e concorrenciais no meio social, com corpos disciplinados para produzir e reproduzir. A infância, que tenho estudado ao longo dos anos, organiza grupos de jogo para sair do real que não entende e para andar dentro dos seus próprios conceitos e leis de entendimento do que a vida é.

Com a equipa que tem trabalhado em várias aldeias portuguesas, espanholas e francesas, temos sido capazes de observar como a vida social é uma realidade que estimula o imaginário para criar a sua própria história. Quando estudo e organizo a festa de São João, em Junho, em vários sítios, os pequenos vão de caderno na mão, ter com os adultos para inquirir contos, versos, motivos, agires. A geração infantil deste fim de século não sabe que os seus adultos próximos nada sabem da festa porque nos anos 40 deste século muitos partiram para países com melhor moeda em troca de trabalho; a emigração traz o abandono da história e costumes locais. As mulheres que ficaram na terra, mães ou mais idosas, já não tinham o grupo social fechado e hierárquico que guardava a memória local da festa. A festa já não tinha objectivo. Com as crianças, andámos dias inteiros a perguntar aos adultos quem era São João. As respostas – “não sei” ou “já me esqueci” ou “um discípulo do senhor” (não o precursor do mítico redentor palestiniano do mundo pecador) – acabaram por não fazer sentido para os meninos e meninas. Mais uma vez, o pensamento analógico serviu de orientação à festa: uma fogueira foi feita para saltar, cantar e para o desabafar dos adultos. A festa, tal como era até aos anos 40 deste século, servia para entreter e distrair trabalhadores cujo imaginário estava todo dedicado a entender a estrutura do processo de produção. Lembro – me como em 1991 andámos com um dos grupos a imaginar o que dizer na noite da festa para entreter os adultos. Pouco ou nada podíamos inventar em ideias, porque não havia factos que pudessem servir de base. Foi por isso que, a imitar adultos, a criançada acabou por usar a enxada e o carro de mão, para irmos buscar rosmaninho e fazer pilhas que iriam arder à noite. O preparativo foi trabalhoso para os pequenos que iam brincando entre eles e decidindo que plantas eram para arder, que plantas eram inúteis e quem tinha mais força e empenho para cortar cada rosmaninho pela raiz. Observei que os pequenos mais habituados a ver os adultos a utilizar as alfaias comandavam os outros. Observei também a disputa entre dois rapazes, o Miguel, já referido e com mais anos de vida e disciplina, e o David, também referido, pela liderança do grupo. O Miguel, filho e neto de lavradores, oscilava entre a brincadeira e o empenho no trabalho, enquanto o David, filho e neto de emigrantes e trabalhadores na vila próxima, nada sabia fazer com a alfaia, embora tivesse a mente cheia de ideias. Como o objectivo era juntar plantas, o Miguel dizia o que fazer, enquanto o David ia ficando doente de cada vez que a sua voz não era ouvida. Em 1992, a liderança do Miguel resultou numa boa colheita de plantas, enquanto o imaginário de David foi útil para inventar os versos e para aprender a música que a televisão, ao transmitir estas festas apropriadas pelas câmaras municipais, difundia.

Tentei que as senhoras mais velhas se lembrassem das músicas e dos versos. Mas o contexto para elas tinha desaparecido, e a lembrança não tinha correlação com a memória; nestas circunstâncias, nem a melodia nem os versos saíam facilmente. Depois de dedicar semanas de investigação por minha conta, consegui algumas frases, canções e melodias que tive de gravar, filmar e estudar para ensinar à pequenada. Esta, mais interessada nas lutas entre os seus membros, só conseguia fazer versos para ler aos amigos ou aos mais novos, que mal podiam responder, uma maneira de os pré-púberes brincarem com as raparigas de quem gostavam – por meio de ofensa, que é o estímulo da inter-relação. Crianças como o Joel imaginam um São João retirado de aventuras relatadas nos livros de contos e no imaginário televisivo – desenhando aventuras que nada tinham a ver com o que tinha sido a festa. Só o Hélder, gentil e imaginativo como é habitual, com a sua cara de palhaço e a sua alegria exuberante, conseguiu definir para o grupo a festa que queriam organizar: uma tradição da localidade feita para que o fumo limpe a roupa de traças; o corpo, de impurezas, e as casas, para onde o fumo entrava, de animais que voam.

O mesmo Hélder que na preparação da festa anual da padroeira em 1993 desfilou na procissão vestido de anjo e colaborou na decoração dos andores, já que a sua irmã era mordoma. Três gerações para um objectivo tido como tradicional (v. Leite Vasconcelos,

1982; Coelho, 1993; Veiga de Oliveira, 1984) desencontradas no espaço de tempo que em poucos anos fez mudar os hábitos de Portugal, como de Espanha e França, graças à abertura a outras actividades e ao fim do fechamento dentro de um espaço onde o ano era repetitivo e lembrado pelo calendário litúrgico, como já assinalei em outros textos (Iturra, 1986, 1990 b, 1991, 1992). A importância de aprender ciência na escola e de procurar trabalhos bem remunerados traz para dentro do grupo social uma heterogeneidade na memória que complexifica o entendimento do real para os pequenos, que só conseguem prefigurar a experiência e o futuro afirmando a confiança em si próprios e não na diversidade de alternativas que a cultura dos adultos lhes apresenta.

De ignorar esta influência da conjuntura no quotidiano do crescimento infantil resulta a falta de entendimento, ajudada pelo facto de se viver só para um objectivo que se tem tornado hegemónico: juntar dinheiro e também por se subsumir mais a esta actividade do que à cultura dos pais, também heterogénea.

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