Coisas da Cultura

Gustavo Peixoto*

Testemunhei hoje uma cena absolutamente hilariante no Museu de Serralves, onde está patente a exposição de Robert Mapplethorpe, tão falada nos últimos dias.

Observando atentamente, numa sala especial da exposição, uma das fotografias mais polémicas do fotógrafo, onde têm especial destaque um dos orifícios excretores do corpo humano e a parte do braço que vai do punho ao cotovelo, estavam dois indivíduos adultos, caucasianos, de estatura média, sendo que um era um homem que aparentava ter trinta e poucos anos, e o outro uma mulher na casa dos quarenta.

A dada altura, o indivíduo do sexo masculino interrompeu a observação silenciosa e atenta do truque contorcionista retratado na fotografia do artista e dirigiu-se, nos seguintes termos, ao indivíduo do sexo feminino que estava ao seu lado, absorto também na profunda maravilha da imagem:

“- Fazia-te umas cuecas de cuspo.”

A senhora chamou a polícia e fez queixa do ordinário, evocando o Artigo 170º do Código Penal, cuja recente alteração veio criminalizar o piropo.

*Curador

Não piroparás (?)

Admito: quando se tratou de discutir, há já algum tempo, o que se chamou, na altura, a “criminalização do piropo”, tive reservas em relação ao modo como a questão, pela voz de pessoas com responsabilidade na iniciativa, estava a ser colocada. Reconhecendo, embora, que todo o ruído que a comunicação social fez na altura prejudicava a abordagem séria do tema. Fez e está a fazer agora. Designadamente incluindo – para dar um toque sensacionalista à situação – uma moldura sancionatória que releva de outros artigos do Código Penal que não do que está em causa. Tal tem motivado abordagens, aqui e ali, que atiram a um alvo que, em minha opinião, não existe. Na verdade, a nova redacção da lei não inclui os bizarros termos que por aqui se têm lido e glosado. O que se diz no artigo 170º do Código Penal é, simples e sensatamente, isto: [Read more…]

Os piropos não tinham acabado?

“Passos Coelho elogia “líder partidário carismático” Paulo Portas”

O Fim do Piropo

A partir de hoje, as pessoas deixam de poder expressar nas ruas os seus sentimentos em relação ao político português mais honesto desde os tempos do Botas de Santa Comba.
“Bocetuda, te chupava toda…” nunca mais!

Qual piropo?

Parece-me que anda por aí uma certa confusão, não exclusivamente masculina, quanto ao que significam “piropo” e “assédio sexual verbal”. Um piropo pode ser poético, pode arrancar um sorriso, porventura até pode ser o princípio de uma bela história de amor.

“Fodia-te toda”, babujado por um desconhecido aos ouvidos da mulher com quem se cruza na rua, não é um piropo, é uma agressão.

Dito isto, e quanto à criminalização do “assédio sexual verbal”, a minha mãezinha ensinou-me, através do seu enérgico exemplo, que duas chapadas bem dadas sabem muito melhor do que uma queixa na polícia.

Olhou? vai preso

freiras a fumar

O Nuno Ramos de Almeida recordou no Facebook uma muito actual crónica do Manuel António Pina, Crime, Dizem Elas, a propósito dos piropos e sua criminalização na cabecinha das senhoras e meninas da Acção Católica, perdão, da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) e mesmo (minoritariamente) dentro do próprio Bloco de Esquerda. Fui conferir a notícia que inspirou o mestre em 2011, e aterrei nisto.

Isto, uma página de luta na justa causa do combate ao assédio sexual, deixa o piropo no cantinho do anedotário menor, e passa a um ataque mais complexo, não químico mas biológico:

Se é alvo de comentários, olhares, atitudes de teor sexual sem que o pretenda, está a ser alvo de assédio sexual!

Em português (mau, raios partam os pontos de exclamação) fico a saber que se uma senhora ou menina for alvo de um olhar estará a ser alvo de assédio. E como tal a vítima deve actuar em conformidade: [Read more…]

A lírica da criminalização do piropo

Acabo de descobrir que a UMAR e a Madame Mubarak querem criminalizar o piropo. Se bem entendi: “comentários não solicitados por parte de absolutos estranhos sobre o meu [dela] aspecto e o meu [dela] potencial sexual” devem ser crime.

Estou inteiramente de acordo, desde que tenha efeitos retroactivos: das cantigas de amigo à lírica camoniana, tudo para tribunal. Os autores jazem mortos e talvez enterrados? não faz mal, encarcerem-se as obras.

Preservemos o direito de Leonor ir descalça para a fonte sem com isso servir de tema para motes e dichotes, tipo tão linda que o mundo espanta, ou comentários sobre a sua cinta de fina escarlata e o sainho de chamelote. 

Já chega. Acabemos de vez com esta pouca vergonha, embora alguns cam(i)onistas possam assegurar que Leonor “estava mesmo a pedi-las“. Deixem-nas em paz, formosas e não seguras. Haja respeito.