«Science: it’s a girl thing!»… será mesmo?*

Science- it's a girl thingEm 2012 a União Europeia lançou uma campanha de três anos com o título ‘Science: it’s a girl thing!’**. Só a circunstância de existir uma campanha específica que pretendia demonstrar que o trabalho científico pode ser, e é, também realizado no feminino, demonstra que estamos longe, neste domínio como em muitos outros, tanto na esfera profissional como na esfera pessoal, da igualdade de oportunidades, consagrada na legislação de muitos países, incluindo Portugal. De facto, em 2012, as mulheres representavam 46% dos doutorados na União Europeia. No entanto, apenas 33% das mulheres trabalhavam como investigadoras e só 20% se encontravam em cargos de topo da carreira académica. Apenas uma em cada 10 universidades da União Europeia tinha tido alguma vez uma mulher como reitora. Ou seja, apesar de as mulheres serem tão qualificadas como os homens elas continuavam (e continuam, três anos passados) a estar amplamente sub-representadas na investigação, na academia e muito particularmente nos lugares de topo das carreiras académicas e nos órgãos de poder e decisão das instituições de investigação e ensino superior. [Read more…]

A alta sociedade do Vaticano

Vaticano

Portanto a coisa funciona assim: mulher alguma se pode apresentar perante Sua Santidade vestida de branco. Excepto se for rainha ou princesa católica. Nesse caso, a regra deixa de existir a as sete senhoras elegíveis para este tratamento de excepção são imunes ao diktat da Santa Sé.

Não deixa de ser irónico (e ridículo) que uma religião que pregue a igualdade dos seres humanos tenha uma regra tão estapafúrdia. Tão absurda. Tão discriminatória. Mas tem. No que diz respeito aos trapinhos que cada uma pode usar na presença do Papa, existe a alta sociedade e a ralé. As duas castas da indumentária. [Read more…]

Cancro da Mama, um dos grandes flagelos do século XXI.

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Uma excelente notícia, sobretudo para as mulheres, mas também para as famílias que têm no papel da ” Mãe ” o seu grande pilar e equilíbrio. As famílias que passaram por isto percebem e sabem bem do que falo.

Sala de espera

Sento-me entre estas mulheres, eu que apenas espero por quem há-de sair, como se partilhasse a angústia delas, uma mais entre elas, na sala de espera, eu tão vestida –  de roupa, de palavras, de artifícios -, elas nuas com a sua roupa coçada, os seus gestos bruscos, o seu cansaço de muitos anos. Mulheres castigadas, que até da doença se sentem culpadas, que se deitam para que um médico as toque como se assim se rebaixassem, que sentem o corpo como algo que lhes não pertence mas do qual devem sentir vergonha. [Read more…]

Taberneiras

Sabemos que nos aceitaram quando as mulheres da casa nos tocam no ombro ou nos enlaçam pela cintura. São mulheres duras, calejadas, resmungonas, e nunca desbaratam os seus afagos por cálculo ou hipocrisia. Podem chamar-te “meu amor” quando te perguntam o que vais querer jantar, porque as palavras valem o que valem, mas só te tocam se tiveres vencido as barreiras que elas mesmas levantaram. A partir desse dia, és da casa.

E como és da casa, ouves catarses. Cenas de gajas, gritarias, uma garrafa de cerveja atirada ao chão, logo se disfarça dizendo que escorregou. Insultos trocados entre cozinha e balcão, mas também risadas insolentes e piadas à custa dos engatatões. Mulheres frustradas, que não estão a ir para novas, e que do amor só conheceram a traição e o bafo de vinho. Têm o coração amarrado, castigadinho com cordas para que não as meta em apuros, e gostam de comentar, com um sarcasmo que nunca chega a ser cruel, as paixões das novatas. Consolam a amiga que veio ver se o homem estava a emborcar ao balcão, e se ele vier, se ele aparecer, hão-de servir-lhe só um copo, mesmo perdendo de vender, e mandá-lo para casa com um empurrão porta fora. [Read more…]

Ainda bem que a Igreja Católica já ordena mulheres para o sacerdócio

Papa Francisco critica sociedade machista, que não dá espaço às mulheres.

Qual piropo?

Parece-me que anda por aí uma certa confusão, não exclusivamente masculina, quanto ao que significam “piropo” e “assédio sexual verbal”. Um piropo pode ser poético, pode arrancar um sorriso, porventura até pode ser o princípio de uma bela história de amor.

“Fodia-te toda”, babujado por um desconhecido aos ouvidos da mulher com quem se cruza na rua, não é um piropo, é uma agressão.

Dito isto, e quanto à criminalização do “assédio sexual verbal”, a minha mãezinha ensinou-me, através do seu enérgico exemplo, que duas chapadas bem dadas sabem muito melhor do que uma queixa na polícia.

Kahkaha

Na Turquia, as mulheres riem (na foto, a escritora Ece Temelkuran).

A confrangedora ingenuidade dos revisionistas

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Há na Helena Matos historiadora (tomo aqui a palavra no sentido amplo, de quem investiga mas também daquele que divulga) uma candura e uma habilidade que me encantam. Ouço-a ainda ensonado na Antena 1 nos Sons de Abril, que nas metáforas mais poéticas dos meses tresanda a Sons de Dezembro, e apetece-me voltar para a cama, readormecido nos sonhos de uma realidade imaginada.

Talentosa, não se lhe escuta um erro, antes qual discípula do cientista político Rui Ramos nos enreda com palpitantes omissões, e o que não se conta é como se nunca tivesse acontecido.

Ouça-se a croniqueta  de hoje sobre as primeiras mulheres na PSP.  Saltita sobre a fonte (onde se disse que algumas tinham o actual ensino secundário brotam miraculosamente licenciadas) e explica tudo nada explicando: “como praticamente não havia desemprego…

Ah que saudades do Marcelo Caetano e seu  presidente de Deus Rodrigues Thomas. Bons tempos, os do anterior milagre económico ainda mais beato que o actual, faltou apenas reforçar que desemprego jovem, desse nem vestígios. A mobilização obrigatória para a guerra, a deserção e o emigrar massivo e maciço (em recorde que pouco falta para alcançarmos) são meros detalhes, uma vaga poeira que não pode estragar o retrato. Estava tudo tão bem como estava e só poderia ter ficado pior, era, não foi?

Imagem

O rosto da pobreza em Portugal

Mulher, meia-idade, desempregada, baixa escolaridade, rendimento abaixo dos 150 euros. “Amedrontada, sempre com uma forte vontade de ajudar quem está pior que ela”.

Big Sister:

armed and dangerous

Mudar o mundo todo, uma pessoa de cada vez

A utopia é um elemento essencial da nossa identidade porque no dia em que  o sonho deixar de estar presente, o caminho para o amanhã desaparece também. No entanto, a utopia tem que ser um sonho que se materializa nas práticas diárias, nas opções que vamos fazendo a cada momento.

Malala é uma menina que faz a sua parte e que procurava, na sua comunidade, fazer a diferença.

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro”

Esta VERDADE apresentada por Malala na ONU leva-me para um terreno absolutamente oposto ao de Nuno Crato e dos seus seguidores. A aposta na Educação é um valor entendido até nos territórios mais deprimidos do nosso planeta, enquanto por cá um grupo de boys parece comprometido com o fim da escola pública. A jovem Paquistanesa além da defesa da Educação enquanto valor global, apresenta como urgente a formação das mulheres. [Read more…]

Oferece-me um vestido de saliva

(Martinho da Vila, um perigoso piropeiro)

O João já explicou aqui o absurdo da coisa. Eu confesso que como filho da mãe, pai da filha e irmão das irmãs, há coisas que preciso de acrescentar. Primeiro, que o machismo é uma coisa primária, que vem dos nossos instintos animalescos e permaneceu ao longo dos séculos com interrupções ao longo da História, nalguns pontos do globo. O machismo é uma questão de educação e combate-se através da transmissão de valores que não tenham em conta na forma de organização da sociedade o género da pessoa ou do indivíduo – viram como usei os dois géneros?. Ou seja, de tod@s, que eu sei que assim percebem melhor. [Read more…]

Os dias são nossos. Todos os dias são nossos.

Não sei bem qual delas admiro mais: se a minha avó Maria, que pariu 13 filhos sozinha e ainda ajudou a nascer meia aldeia; se a minha avó Leontina, que pariu apenas 10, 8 dos quais ao lado da minha mãe, numa esteira, no chão (“mandava-me ir chamar a tia Amélia e eu já sabia para que era”), que percorria os 20 km que separam Antões de Pombal com um cesto de laranjas à cabeça, para vender nos tempos de fome; se a avó do meu homem (que também foi muito minha, nos anos em que convivemos), que ficou viúva aos 32 anos, com cinco filhos e sem qualquer ajuda; ou a minha mãe, uma muralha à prova de tudo. [Read more…]

Voleibol – vai começar a fase final

Está concluída a primeira fase do campeonato nacional de voleibol feminino.IMG_4636

Não houve, em termos de classificação, grandes surpresas – as equipas que se apresentaram como favoritas conseguiram, todas, o apuramento, natural para a fase final:

Ribeirenses (Açores), Leixões (Matosinhos),
o Gueifães e o Castêlo (ambas da Maia).

A  2ª fase disputa-se a duas voltas, com todos contra todos, mas sempre com jornadas duplas, um jogo ao sábado e outro “igual” ao domingo: na primeira ronda, este fim-de-semana, o Ribeirenses joga com o Gueifães e o Leixões recebe o Castêlo.

As duas primeiras passam para a final e em função do que se viu na primeira fase, aposto no Leixões e no Ribeirenses.

Às mulheres do matadouro

Num trabalho muuiiito precário que tive há anos, tocou-me, certo dia, ir em serviço a um matadouro.  Por essa época, eu fazia parte de uma equipa que executava (termo apropriado) no terreno aquilo que os piores criativos publicitários de todos os tempos haviam concebido nos seus cubículos bafientos de humidade e fumo de tabaco. Eram campanhas portentosas, originalíssimas, como a que se fez para certa marca de palitos, cujo slogan era “X, o palito de design europeu”. Abstenho-me de dizer a marca porque, para meu espanto, ainda existe.

As criaturas criativas tinham varrido o Portugal esquecido, aquele ao qual jamais chegavam propostas de publicidade televisiva, e tinham arrebanhado contratos a dar com um pau. Pelas encostas da Alcongosta, no Fundão, em Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Vila de Rei, até nas terreolas que tanto nos custava descobrir no mapa, não faltava quem quisesse anunciar o seu negócio, levantado do chão com mãos calejadas de trabalho ou alavancado às pressas por um fundo comunitário. Vai daí, toca a contratar (é uma forma de dizer) uns quantos imberbes desempregados e a fazê-los correr as terras da Beira Baixa, munidos de esboços de guião e câmara de vídeo, muita paciência e ainda mais ingenuidade. O salário era curto, mas no fim de cada semana não me faltavam as histórias para contar aos amigos. [Read more…]

O brilho da Lua é diferente em Março

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Maria Cantante tem 74 anos. Não sabe ler. Não sabe escrever. Exibe a licença de condução de velocípedes tirada em Setembro de 1960 (que ainda guarda na carteira).

Não foi à escola. Aprendeu a escrever o nome porque o seu irmão queria que ela fosse a sua madrinha de casamento. Copiou várias vezes até ser legível. É isso que sabe escrever. Assim, aprendeu a escrever o seu nome aos 21 anos. Tem o seu B.I. e o cartão de Eleitor assinados.

Não foi à escola porque teve que tomar conta dos irmãos mais novos.

Ditava frases para a menina que tomava conta e para a própria filha: “O pão é um alimento que aparece na mesa de toda a gente. O pão é feito de milho, trigo e até de cevada”; “ O amor de mãe encerra tudo quanto pode haver de generosidade e sacrifício. A mãe é santa que nos adormece, embalando-nos com ternura nos passos vacilantes de criança”.

As contas que sabe fazer são só as de somar.

Nunca comprou fiado; “não tinha dinheiro, não comprava”. Nunca quis «esmola». Diz que sempre fez um controlo do dinheiro. Não gasta se não tiver dinheiro. Não compra fiado, repetia-me.

Antes de ter o segundo filho não tinha nem uma cadeira. Comprou-a para que a parteira se pudesse sentar quando fosse o parto. [Read more…]

Mulheres no Aventar

Corro o risco de ser politicamente incorrecto, mas vou procurar escrever sobre algo que, admito, poderá não ser motivo para um texto – as mulheres no Aventar.

Não há qualquer tipo de novidade na presença feminina na web, mas parece-me que há ainda uma relação muito desigual entre os dois géneros, ou não?

Nas últimas semanas temos tido a felicidade de ver entrar na nossa equipa alguns novos aventadores, todos eles a escrever no feminino. Não creio ter havido por cá uma negociação em torno da paridade que até se encontra legislada  – esta Lei  de Agosto de 2006 vem estabelecer

“que as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos.”

E a nova realidade do Aventar levou-me a pensar de que modo está ou não mais igual a participação das Mulheres na nossa sociedade, no  seu sentido mais amplo. Será que hoje a Mulher saiu realmente do espaço doméstico para o espaço público? Será que faz algum sentido discutir esta temática?

Há quem ache que sim: Sofia Silva apresenta na sua Tese de Mestrado um estudo nesta área e procura pensar a relação entre as vidas pessoais e profissionais sob o ponto de vista feminino.

Em diferentes espaços sociais tenho percebido que é menos fácil a participação das mulheres – nas associações de pais, nos clubes e associações, nos sindicatos, nos partidos…

Que factores concorrem para essa realidade?

Lá está, o costume! Escrevi, escrevi e não disse nada… Confesso que tinha uma ideia na cabeça quando comecei, mas com o percurso dos dedos no teclado fui-me afastando e já não consigo regressar…

Sejam bem-vindas.

Até que a morte nos separe?

Violência sobre as mulheres: “Até que a morte nos separe“?

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres assinalado com números negros.

Ninguém quer um casamento assim. «Até que a morte nos separe» é um slogan fortíssimo. Há, mesmo assim, que saber interpretá-lo. Olhar bem para o cartaz de campanha: ela está vestida de noiva e ao mesmo tempo apresenta marcas de agressão. Esta agressão é feita quando? No namoro? Ou pretende-se aqui mostrar o futuro de alguns casamentos?

Uma imagem vale mil palavras e 1000 interpretações.

É muito difícil a uma mulher reconhecer a infelicidade do seu casamento e denunciar o marido. Mas há um momento em que não pode deixar de fazê-lo… A sua vida (e a dos filhos) está acima de tudo e de todas as convenções e «falatórios» e do que vão dizer os outros.

Há que dar todo o apoio a estas mulheres vítimas de homens incapazes, para não dizer outra coisa.

O lugar da mulher é ao fogão

Não há mulheres na política chinesa porque o seu lugar é ao fogão“. Este título chama a atenção a qualquer mulher.

“Quanto mais se sobe na hierarquia política chinesa, mais a  presença das mulheres se torna rara. No Comité Central do partido apenas 6% dos membros são mulheres; no Bureau político, um órgão de 25 elementos, há apenas uma mulher; o Comité Permanente (o mais poderoso na hierarquia) nunca integrou uma mulher.”

Mas Mao Tsetung disse que elas são “metade do céu”!!!!!

O nosso lugar já não é ao fogão. Nunca foi. Embora eu escreva muitos posts com o computador sobre o micro-ondas!!

 

Turbo-mães

A crónica de Daniel Sampaio deste domingo na revista do Público tem este título, «as turbo-mães».

Conta-nos a história de uma mulher – podiam ser quase todas – que trabalha das 8 às 21h, tentando concialiar tudo; os filhos raramente vêem a mãe;  é uma turbo-mãe;  faz tudo bem mas sempre a correr, com altos níveis de ansiedade. Conhecida pela sua eficácia profissional, é elogiada pelo director, que está dependente do seu trabalho e a considera insubstituível. Em época de crise, Ana tem receio de trabalhar menos e ser dispensada, como vê acontecer à sua volta. Sente- se em falta em casa.

Contou a D.S., seu médico, que a crise não a deixa parar. Não estava fácil fazê-la mudar de vida: a crise, o medo de perder o emprego, obriga-a a ser turbo…

Daniel Sampaio pensa que, efectivamente, “a crise provoca o desemprego, mas (…) também é responsável pelo modo febril como alguns trabalham, sempre a correr contra o tempo”.

Somos tantas as turbo-mães…

Só precisamos de ter calma, saúde (principalmente) e não perder o sentido do que é mais importante para cada uma de nós.

Não é fácil ser mulher e é mais difícil sê-lo em Portugal.

Mas não me arrependo de nada, como diria Raul Brandão! Fazemos o nosso melhor e já é muito…

Mas há uma coisa na história de Ana: temos que esforçar-nos por dizer «alto lá!», tenho filhos e amo-os, quero vê-los e estar com eles dia-a-dia, vamos renegociar este horário.

Não valerá mais ganhar menos? 

 

Retrocessos da civilização

Há 56 anos, a mulher tunisina alcançava o “mais avançado estatuto entre todas as mulheres dos países árabes: a igualdade de género“.

Hoje, o actual governo pretende a «islamização» do país e os tunisinos não estão pelos ajustes. Já houve manifestações na rua.

Os tunisinos exigem a alteração de um artigo da futura Constituição em que a mulher surge não como igual mas como «complementar ao homem». Escreveu-se já que esta posição do governo é uma “nova ditadura baseada na religião”.

Ao mesmo tempo que está em debate a alteração à Constituição, a atleta tunisina Habiba Ghribi dedicou a sua medalha olímpica (a primeira mulher na história do país a conseguir uma) às tunisinas e a uma «nova Tunísia». É preciso dizer que a Tunísia ganhou apenas 3 medalhas nestes Jogos Olímpicos sendo que, então, uma delas é de Habiba! Nada mal!

Muitas vezes as mudanças não se fazem para melhor, como é o caso.

Volta-se para trás, retrocede-se, perde-se, de um dia para o outro, aquilo que alguém (ou muitos e ao fim de muito tempo) conquistou.
Já vi isto em qualquer sítio

Os filhos

Zita é mais rápida no regresso a casa. O trabalho fica para trás a cada quilómetro das dezenas que faz, seis dias na semana. À frente, já só vê os filhos: a «coisa» mais maravilhosa que tem na vida. À noite, mete-se no meio deles, na cama, uma mão sobre as pernas pequeninas dos dois filhos. E eles adormecem com a cara encostada à mãe.

Zita tenta compensar o tempo perdido, longe de quem mais ama. Se ela soubesse como, escreveria um hino aos seus filhos… Como não sabe, diz-lhe que os adora, todas as noites, e aborrece-os com tantos beijos.

A paz que a envolve ali sentada entre os filhos dormindo, é uma paz que reanima, que reabilita, que lhe dá forças para o dia seguinte.

Grande Mulher (em tudo!)

A artista Joana Vasconcelos é a primeira mulher a expor no palácio de Versalhes!!

Em véspera do jogo Portugal-República Checa, passa despercebida esta vitória portuguesa! E ainda para mais, a de uma mulher!

Joana não é apenas a primeira, mas “a mais jovem artista contemporânea a ter o privilégio de se apresentar em Versalhes”, leio no DN do dia 18.

“As mulheres e a condição da mulher estão no centro do trabalho” desta artista que será a representante oficial na Bienal de Veneza em 2013!

Leva Portugal para Versalhes, leva mais que 11:  a ouriversaria do Minho, o fado de Amália, as tapeçarias de Portalegre, crochet do Pico, as cerâmicas de Rafael Bordalo Pinheiro, a escrita de Valter Hugo Mãe, as fotografias do pai, o design de Henrique Cayatte, a cozinha portuguesa e a louça da Vista Alegre.

Parabéns Joana. Uma salva de palmas para si, que é portuguesa da cabeça aos pés!!

Quando eu for grande

Quero ser como Laura, chegar aos 83 anos e estar assim linda como ela. Ser voluntária e sentir-me feliz por continuar a ajudar as pessoas fazendo o que melhor eu souber fazer.

Conheci-a através de uma entrevista que deu para o Diário de Notícias (13 de maio), a propósito do apoio voluntário aos peregrinos de Fátima…

Quando eu for grande, e tiver todo o tempo do mundo, que se deve ter aos 83 anos, também quero ir visitar as pessoas em casa (os que moram sozinhos e não têm apoio).

Quando eu for grande como a Laura, farei tudo com grande dedicação e direi “não acho cansativo”, “faz parte da vida ajudar quem precisa”.

Laura Lacerda é médica voluntária e presidente da delegação da Figueira da Foz da Cruz Vermelha. Tornou-se na primeira mulher a presidir, em 93 anos, àquela delegação.

Parabéns, Laura.

Ponto de partida

O DN coloca, diariamente, uma frase no topo da primeira página, num tamanho de letra mínimo. O Público, por seu turno, seleciona também uma frase por dia (Escrito na Pedra) que, ao invés, vem na última página. Tanto num caso como no outro, as frases devem passar despercebidas a muita gente, atraída pelas letras gordas e a negrito. A minha leitura começa, justamente, por lá, pelo que é mais pequenino e quase não se vê (típico das mulheres!).

Hoje, no DN, da escritora e filósofa Simone de Beauvoir (mulher de Sartre), uma frase curta mas muito rica em sentidos. Partilho com os leitores do Aventar:

Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida.

E já não é pouco!

Em nome da honra…

Bertolt Brecht, esse homem que marcou toda a história do Teatro, escreveu que “uma testa sem rugas é sinal de indiferença”.

A cada dia que passa, nasce-nos uma e não é da idade… Vamos ficando velhos antes do tempo, à custa de tanta injustiça e indignação.

Uma semana após o Dia da Mullher verifico, mais uma vez, que esta comemoração não tem o mesmo significado em todos os lugares, que a mulher ainda sofre imenso, que há países em que é ainda a desgraçada, a «culpada» e a «pecadora». Ainda somos o elo mais fraco. Dois dias depois do habitual «Jantar da Mulher» e das tradicionais mensagens e lembranças trocadas em todo o mundo, uma jovem marroquina suicida-se, desesperada com os maus tratos de que era alvo por parte do marido que a havia violado antes do casamento. Um casamento forçado pela tradição, por um juíz e pelos próprios pais! Depois de meses a sofrer nas mãos sujas desse que lhe deram como «marido», e após ver recusado o seu pedido ao pai para voltar a casa, a menina de 16 anos, Amina El Falili – mata-se com remédio dos ratos. [Read more…]

Página de Diário

 

Este ano, o meu Dia da Mulher foi especial. Inscreveram-me (a minha sogra) para um jantar (de mulheres) e eu adorei.

Mesmo ali ao lado de casa há um pequenino restaurante (tipo tasca) e, não sei como, sentaram-se 95 mulheres em longos bancos ao longo de compridas mesas. Conhecia a maioria: vizinhas, mães e avós dos colegas do meu filho que ainda anda na pré.

Enquanto esperávamos para nos sentarmos, prestei toda a atenção às conversas, a quem entrava e reparei como elas estavam maravilhosas. Mulheres da minha idade, outras mais novas e, a maioria, na casa dos sessenta. 

O dia havia-lhes sido igual em tudo menos a noite. Levaram os filhos à escola, fizeram-lhes o almoço, foram trabalhar, puseram a roupa a lavar, a secar, foram às compras e ainda arranjaram tempo para ir ao cabeleireiro. [Read more…]

Às super-mulheres portuguesas

Sim, nós também conseguimos!

Somos «primeiras damas», super-mulheres, mães, escrevemos livros, temos uma profissão, criamos movimentos, etc. (completem a lista em comentário, eu agradeço).

Michelle Obama não faz nadinha (demais)!

Cartoon intitulado «Happy Birthday Michelle». KiCHKA, jornal Israel Channel 1 (in PÚBLICO, 24/1/2012).

À procura de inspiração

  

Foto de José Magalhães (Aventar)

Naquele sábado de Dezembro, enquanto o comum dos mortais se atarefava na compra das últimas prendas de Natal, Vasco saiu de casa em busca de inspiração para o livro que não avançava. Era uma ovelha negra no presépio.

No Belém pediu um café. Instantes depois, o seu olhar cruzou-se com o de uma jovem que encostou o nariz ao vidro do estabelecimento para logo desaparecer, como se assustada com a visão de Vasco. Este deixou dinheiro a mais sobre o balcão, deu um encontrão ao casal idoso que entrava com grandes sacos de papel e correu atrás dela, ziguezagueando, disfarçando, subindo, descendo, esperando. Por fim, a mulher refugiou-se em casa. Vasco disparou pela última vez.

Sem fôlego, o nosso homem entrou no seu apartamento no 4º andar de um prédio sem elevador. O cão atirou-se às pernas. Vasco resmungou «não» e fechou-se na minúscula cozinha que transformava em laboratório fotográfico. Após alguns minutos, saiu para dar de comer ao Big impaciente. Voltou ao estúdio improvisado. Assim que obteve as onze fotos da beldade, colocou-as cronologicamente no quadro de corticite.

Sentou-se ao computador sem tirar os olhos dela, esperando…

O telefone tocou, incomodando-o sobremaneira. «Vasco? Esperamos por ti na ceia. Não te queremos sozinho na noite de Natal». «Com o Big…» – corrigiu, aborrecido. Há três anos, desde a morte da mulher, que se recusava celebrar a festa com a família ou com os amigos.

Vasco não tencionava sair nesse dia. Não queria distracções, ouvir as «deprimentes» canções de Natal. Queria trabalhar, mas, sobretudo, evitar a alegria da época. Levantou-se ao meio-dia, fez um café fraco e foi para junto da mulher fotografada na rua.

Um raio de sol penetrou no quarto, desenhando na parede pálida e bolorenta a sombra de um homem sentado frente a um computador com um cigarro aceso na boca, cotovelos apoiados nos joelhos.

Nada. Nem uma palavrinha. Não acreditava em Deus, mas fez o sinal da cruz no peito como um jogador de futebol antes de entrar em campo. Talvez resultasse…

Para seu espanto, as primeiras palavras jogaram-se no papel. Mas ao início da noite, Vasco tinha apenas meia página de trabalho.

Furibundo, saiu de casa para espairecer, protegido com um escudo anti-Natal mas permeável à chuva. Não foi longe: faltavam-lhe os cigarros. Fumado o terceiro, meteu-se no chuveiro como se entrasse numa máquina do esquecimento. Para esquecer e ser esquecido.

Mas Big precisava dele: arranhou a porta da casa de banho até Vasco lhe dar atenção.

Insultando o animal abaixo de cão, o homem vestiu-se e saiu com a intenção de levar Big a passear. Mas algo obrigou a uma mudança de planos: no hall do prédio encontraram uma alcofa. «Não é possível!?».

Pegou no bebé com mil cuidados, subiu e telefonou para a irmã: «Este ano a ceia de Natal é aqui». Desligou ignorando a surpresa do outro lado da linha.

Deste lado, num quarto frio e desconfortável, uma menina dorme sobre a cama desfeita, o cão deitado em guarda e esquecido do parque, Vasco ajoelhado e esquecido da dor.