Qual piropo?

Parece-me que anda por aí uma certa confusão, não exclusivamente masculina, quanto ao que significam “piropo” e “assédio sexual verbal”. Um piropo pode ser poético, pode arrancar um sorriso, porventura até pode ser o princípio de uma bela história de amor.

“Fodia-te toda”, babujado por um desconhecido aos ouvidos da mulher com quem se cruza na rua, não é um piropo, é uma agressão.

Dito isto, e quanto à criminalização do “assédio sexual verbal”, a minha mãezinha ensinou-me, através do seu enérgico exemplo, que duas chapadas bem dadas sabem muito melhor do que uma queixa na polícia.

Comments

  1. João Paz says:

    Tudo dito Carla Romualdo.

  2. Eu mesma says:

    É com muita pena que sou forçada a discordar que bastam duas chapadas. Sabem bem mas podem ter más consequências. Uma mulher que o faça está sujeita a ser acusada de agressão e até de levar réplicas piores. Basta o grunho chamar uns amigos e fazer-lhe uma espera. Por essas e por outras, sou 100% a favor da legalização da taser no País. Nada me iria dar mais prazer (sim, já fui alvo de agressão verbal sexualizada) do que descarregar uns choques eléctricos no sacana que ousasse vir com tretas. Aí, teria gosto em pagar a electricidade à EDP, eles só aprendem quando lhes começar a doer a sério. Agora, piropos simpáticos, claro que nada tenho a objectar 🙂

    • coelhopereira says:

      Se a senhora descarregasse um “taser” em alguém por um motivo desses (uma ordinarice verbal – ainda que “sexualizada” – sem qualquer tipo de ofensivo contacto físico), seria detida. Existe aquilo a que chamamos de “proporcionalidade da resposta a uma agressão”, proporcionalidade essa que tem de ter em conta a natureza, a intensidade e a repercussão da agressão sofrida. Pela sua lógica, se alguém receber uma bofetada, essa pessoa achar-se-ia no direito de descarregar no corpo do seu agressor as 14 munições de uma Glock…

    • Eu mesma says:

      Tanto também não. Cruzes canhoto, ainda nos tornávamos um faroeste pior que os EUA. A bofetada só teria direito a uma “carícia” de taser. Se chego aos pontos de reivindicar o direito a auto-defesa com a dita cuja é porque já sofri poucas e boas.


  3. Coitados já não têm mais por que lutar. E as ordens do ps são para fazer distrair a malta do essencial, e o BE segue que nem carneirinhos amestrados.

  4. coelhopereira says:

    O que me causa arrepios em toda esta risível discussão é a colagem da ordinarice verbal (coisa muitíssimo diferente do piropo, convenhamos) única e exclusivamente ao homem. As mulheres são uma espécie à parte? Nascerão elas educadas por herança genética? Ou cumpre-se aqui o adágio (machista ou feminista? Ou já terá sido “machista” e é agora “feminista”?) de que os homens “têm um compulsivo e predatório desejo”, enquanto as mulheres se sentem “levemente interessadas numa epidérmica comunhão de almas” e. por conseguinte, as senhoras pensam pontualmente em “fazer o delicado Amor” em oposição à ideia de “fornicação bruta, tarada e sem quartel” que ocupa, 24 sobre 24 horas, 365 dias por ano (e mais um dia, de quatro em quatro anos), a mente de qualquer varão?

  5. coelhopereira says:

    E mais uma coisinha: ontem, uns papás, muito agastados com a professora do seu filhinho, entraram numa escola primária deste país e moeram a desgraçada da senhora professora de pancada, mandando-a para o hospital. Mas o que interessa é a contundência do piropo, crime hediondo a penalizar, rápida fortemente, com o cego e duro peso da Lei. Não andará esta gente, no meio do naufrágio cívico e ético do país, a brincar? Ou será tudo isto o indesejável e secundário efeito do abuso de comprimidos para a depressão?


    • Blá blá blá

      • Maquiavel says:

        Se o Pedrinho apanhasse algumas das que caíram na professora näo se perdia nada.

      • coelhopereira says:

        “Blá, blá, blá”? Boa! Os meus parabéns: já aprendeu a grafar o discurso de uma criancinha de seis meses. Já é um começo…

    • Eu mesma says:

      Tem razão, as prioridades andam trocadas. Criminalizar a agressão sexual sim, proteger os professores dos delinquentes juvenis e seus papás, já devia ter sido feito na década passada. Mas lá está, as instituições (credo, que nome arcaico) neste país andam a destempo das necessidades em tempo real da sociedade. Digo eu, que sou uma humilde cidadã.

  6. silence is sexy says:

    É capaz não ser boa ideia o “par de chapadas”. Provavelmente levava “um enxerto de porrada”. Conhece a bonita frase “A uma mulher não se bate, nem com uma flor. É com o vaso.”? Isto é dito como piada, ainda hoje. Uso outras técnicas mais pacíficas. Juntando a bela da linguagem ordinária do cavalheiro (só assim é que eles percebem) ao rebaixamento do orgulho macho. Deixo um exemplo clássico e corriqueiro: ò boa, comia-te toda. – Sou boa mas não é para a tua boca. ou: Bate uma p…nh..ta que isso passa-te. Curiosamente, constato que os “senhores” não se ofendem, até levam a coisa na brincadeira. Gostam da ordinarice. E eu gosto de lhes responder igual ou pior.Seguem o seu caminho e eu o meu. Mas vou a travar o riso, porque acho estes diálogos surreais.È claro que esta minha “leveza”, veio depois de anos de vergonha e constrangimento com as indecências que ouvia de qualquer velho perto da escola, ou dos trabalhadores das obras. Até de colegas de trabalho, de uma forma velada. Sentia-me humilhada e violentada. Não sabia o que dizer ou como reagir.Deixei de me sentir refém do sentimento de impotência. E não “cola” em mim vergonha nenhuma. Gosto-me e tenho orgulho de mim. Dificilmente alguém, que não eu, consegue alterar isso./ Os “apalpões”. Aí não surte efeito a técnica descrita anteriormente. O melhor é atingi-los no seu ponto fraco com uma pancada forte e seca. A mala sempre carregada de mil coisas até é uma boa arma nestas ocasiões. Tem é de estar fechada. E quanto a mim, dispenso os “piropos” que me são dirigidos por gente que eu não conheço, ou que até conheço. Confesso que também não sou muito agradável com essa gente. Não lhes perguntei a opinião deles, nem estou interessada em conhecê-la.Não preciso disso para alegrar o meu dia, ou para me sentir bonita. Basta ignorar, que eles percebem. As mulheres têm muita tendência para terem medo, vergonha, encolherem-se e aceitarem a posição de vítimas.Ou aceitarem ser cooperantes com situaçoes/comentários que as desagradam. Ai as mulheres não falam assim…Não fazem isto, não dizem aquilo… Não fica bem a uma senhora… Os homens sabem disso e aproveitam-se. Nem acho que seja aproveitarem-se. Eles podem. Porque as mulheres permitem esse tipo de comportamentos sem uma resposta adequada. A sociedade também. Acha-se normal um homem ter esse direito. Ai que agora estou a dizer que as mulheres têm de se incomodar, defenderem-se.Sacudirem o tolhimento da educação cristã e machista. Ocuparem um espaço que é seu, por direito. Não porque são mulheres. Não são especiais. Porque são pessoas. Mas talvez ajude mulheres e homens saberem que esse tipo de agressões verbais não é tolerado. Assim como não é tolerado o racismo ou a xenofobia.Mesmo na sua forma verbal.


  7. Grande mulher. A sintese perfeita do que se chama cultura dum povo.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.