Começam o Mundial e as Perguntas do Rui Santos

Rui Santos pergunta: “Acha que Carlos Queiroz procedeu correctamente, ao autorizar que Cristiano Ronaldo, em vez de acompanhar os colegas na visita aos leões, tenha ido fazer ‘ronrons’ com a gatinha?”

Passei há umas décadas pelo jornalismo desportivo, no ‘Norte Desportivo’ e na ‘Capital’. Conheci, nesses tempos, ilustres jornalistas desportivos, homens de cultura sólida. Alves Teixeira, Manuel Dias, Alves dos Santos, Vítor Santos, Carlos Miranda, Carlos Pinhão, Homero de Serpa, Viriato Mourão, Aurélio Márcio, Alfredo Farinha, Neves de Sousa e outros cujos nomes me escapam agora. Com eles aprendi.

Hoje em dia, o jornalismo desportivo rege-se por outros padrões e práticas. Falar e escrever bom português, por exemplo, não é regra imperativa. Os meios de comunicação social, com RTP, SIC e TVI em destaque, dedicam horas a fio e em exclusivo aos chamados três grandes, Benfica, F.C.Porto e Sporting. No caso da RTP, a falta é agravada por ser estação pública.

O formato dos ‘programas de debate’ é comum nos vários canais. Nem sequer, em qualquer destes, há o bom senso de privilegiar a análise dos jogos e de seleccionar como protagonistas os intérpretes do espectáculo. O resultado é simples: assistir a discussões, cujo tom varia entre os sons da tasca e do café de bairro, por gente, ao que se diz, muito bem paga. Já que de ilustre, ninguém duvida que é mesmo.

Outro formato recorrente consiste em colocar um ou dois comentadores em estúdio. Interrogados ou convidados a falar pelo(a) locutor(a) de serviço, falam durante longos intervalos de tempo, sem que nada digam. Um destes casos, e quanto a mim o mais típico, é o de Rui Santos na SIC Notícias. Quando inesperadamente o homem me aparece, “Ah ‘zapping’ para que te quero!”.

Fujo dele – e dos outros – a sete pés. Há, todavia, um embate de que não consigo livrar-me: são as ‘perguntas do Rui Santos’ anunciadas nos intervalos televisivos. Assim, hoje começa o Mundial da África do Sul – os tempos preliminares já ficaram tristemente marcados para Mandela – mas, como dizia, começa o ‘Mundial’ e as ridículas perguntas de Rui Santos. Estou a imaginar uma: “Acha que Carlos Queiroz procedeu correctamente, ao autorizar que Cristiano Ronaldo, em vez de acompanhar os colegas na visita aos leões, tenha ido fazer ‘ronrons’ com a gatinha? – é uma demonstração do jornalismo de sucesso, de hoje. O exercício felino sobre o relevante para os jogos de futebol.  

 

Todas as petições são entregues em clima de gala?

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Para evitar chatices fica a declaração de interesses: Não sou ‘doente’ pelo futebol e gosto de ver erguida a verdade desportiva. Agora, ao que me traz.

Hoje, além da petição pelo referendo ao casamento homossexual, foi entregue na Assembleia da República a famosa petição “pela verdade desportiva”, promovida pelo jornalista Rui Santos. O documento defende o uso de novas tecnologias para auxiliar os árbitros de futebol. Nada tenho contra o propósito da petição. Já a formulação prática desta medida me deixa dúvidas. Seria uma espécie de júri de quatro ex-árbitros a ver duas ou três repetições televisivas que iria determinar a opção do árbitro? E o jogo ficaria parado, enquanto analisavam e discutiam a coisa? E seria passível de recurso, com visionamento de câmaras de outro ângulo?

Claro que as discussões de segunda-feira iriam perder todo o interesse. As queixas dos treinadores teriam de ser orientadas para outros alvos, como os cameraman das televisões, que não captaram o lance do melhor ângulo. Os presidentes teriam de passar a acusar outros, talvez os empregados dos bares dos estádios, em vez de assumir erros próprios.

Em todo o caso, e voltando ao que aqui me traz, não percebi a razão de tal aparato e de tantas celebridades na entrega de umas assinaturas. Uma cerimónia pomposa que teve o ar de uma gala. Enfezada, claro, sem glamour, sem caras larocas a apresentar os protagonistas, mas com muito aparato. E gente ‘in’. Ele era o presidente da SIC, o presidente da Liga, o presidente da federação, presidentes de clubes e muitas outras pessoas. Até jogadores. De gravata, portanto era gente importante.

O presidente da AR, Jaime Gama, já garantiu uma análise cuidada à petição. Sempre são sete mil pessoas a assinarem o dito cujo documento. Daí a minha questão: todas as petições são entregues com uma festa deste género? Ou todas as petições são importantes mas umas mais importantes que outras?