Os Estados Soviéticos Unidos da América

As credenciais de Jim Acosta, da CNN, para acesso à Casa Branca deverão ser restauradas, determina  juiz [NYT]

A história é simples. Uma semana antes das eleições intercalares nos EUA, a campanha republicana usou diariamente o tema da caravana a caminho das suas fronteiras. A Fox News, também conhecida pelo Canal Trump, chegou ao ponto de ter um repórter infiltrado nessa caravana. O objectivo óbvio foi usar o populismo do medo como arma eleitoral. Naturalmente, na noite da eleição, Acosta perguntou a Trump pela caravana. Afinal de contas, o próprio presidente usou-a constantemente nos seus comícios. Como merdas que é, não deixou que a pergunta fosse concluída nem se dignou responder. Passou, isso sim, a insultar o repórter. E, por fim, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, anunciou que o acesso de Acosta à Casa Branca tinha sido revogado, justificando a decisão com recurso a um vídeo manipulado por Alex Jones, o conhecido maluco da extrema-direita. Ou seja, Trump acusa a CNN de fake news e, sem surpresa, constata-se que estas fazem parte da natureza da sua administração. [Read more…]

Em direcção ao precipício

 

A estratégia de ódio, desinformação e mentira, desta perigosíssima extrema-direita reeditada, mas igualmente violenta e intolerante, alimentada por Trump e respectivos apóstolos, começa a dar frutos.

Na Quarta-feira, vários engenhos explosivos foram encontrados nas residências de figuras de relevo do Partido Democrata, como Barack Obama e Hillary Clinton, e na redacção da CNN, os “inimigos do povo”, como o troglodita americano gosta de lhes chamar. Ontem foi a vez de Robert de Niro, que não é politico, mas que não poupa nas críticas a Trump. [Read more…]

A exactidão e o estendal

Como outros passeiam os cães de companhia, ela traz à rua o seu estendal.

— Carla Romualdo

Nun, was >Tatsache< hier meint, ist nicht die Tatsãchlichkeit der fremden Tatsachen, mit denen man fertig werden muß, indem man sie sich erklãren lernt.

Hans-Georg Gadamer

J’ai passionnément désiré être aimé d’une femme mélancolique, maigre et actrice.

— Stendhal, 30/3/1806

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Eis como alguém na RTP decidiu traduzir para português europeu o remate do «We’re just not going to sit back and let, you know, false narratives, false stories, inaccurate facts get out there» de Sean Spicer.

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Agora, aproveitando este intervalo dado quer à frase nuclear, na perspectiva de Grevisse e de Goosse, quer aos sintagmas nominais do Antoine de La Sale, regresso ao Krugman (que percebe imenso de factos) e ao meu espanto por ver o Searle (um velho conhecido do Aventar) mencionado por aquelas bandas.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

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A primeira derrota de Trump

A CNN avança que o juiz Federal James Robart (estado de Washington) deferiu o pedido de dois procuradores estaduais para suspender (temporariamente) a ordem do presidente relativa à entrada de muçulmanos e refugiados no país. A ordem judicial produz efeitos federais.

Washington a ferro e fogo

Os protestos anti-trump aqui, em directo. O Huffington Post fala de 25 mil pessoas envolvidas no protesto. A CNN avança que 100 manifestantes já foram detidos. Manifestações com milhares de pessoas em Nova Iorque, Chicago e São Francisco.

God Bless Us

Celebridades como Robert De Niro ou Michael Moore discursam agora num protesto anti-trump ao pé da Trump Tower em Nova Iorque. Aqui, em directo, na página de facebook da CNN.

Estupefacção

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Ontem, alguns habitantes do planeta Terra terão ficado estupefactos com esta sondagem da CNN. São coisas que acontecem — ou, como diz o Guardiola, “son cosas que pasan. Contudo, ao contrário dos espectadores da CNN, os leitores do Diário da República já estarão tão habituados a estrangulamentos e constrangimentos, na forma de contatos, fatos e seções, que muito provavelmente já não há estupefacção que os afecte. No entanto, como o Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa garante não ter identificado nem estrangulamentos nem constrangimentos, é porque eles certamente não existem.

Sim, hoje, no Diário da República:

Curriculum Vitae atualizado, detalhado, datado e assinado, acompanhado dos documentos comprovativos dos fatos naquele descritos, nomeadamente em que contem a formação e experiências profissionais, respetivas áreas e duração (os fatos curriculares não acompanhados dos correspondentes documentos comprovativos não serão considerados);

(…)

A lista unitária de ordenação final dos candidatos, após homologação, é afixada no placard da seção de recursos humanos desta Autarquia e disponibilizada na sua página eletrónica em www.cm-castroverde.pt, sendo ainda publicado um aviso no Diário da República.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

O factor humano

O primeiro gesto é para por colocar tudo numa bandeja. Cinzenta nas maior parte das vezes, mas já aconteceu encontrar de outras cores. Depois, não esquecer o telemóvel, as chaves, o casaco. Sim, é necessário tirar o cinto. Tem mesmo de ser. Humm, já agora tire também os sapatos, se faz favor. Assim fazemos. Todos. Eu e todos os outros. Passamos pelo pórtico, um de cada vez. Olhados ao pormenor, por um ou dois especialistas nestas coisas.

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Ultrapassar esta fase não significa que a componente segurança esteja resolvida. Se transportarmos uma mala podemos ser convidados a chegar ao lado. Um outro elemento da segurança, com luvas de látex pergunta-nos o que transportamos. Uma muda de roupa, afinal nunca se sabe se as malas vão chegar ao destino connosco e um homem prevenido vale por dois.

Abre a mala, coloca as mãos, mexe, verifica. Não encontrando nada de relevante, agradece. Pode seguir, boa viagem.

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O sr. Pynchon não gosta de aparecer

Nos dias que correm é difícil distinguir os escaparates das livrarias das páginas da TV Guia. Jornalistas, apresentadores de tv, actores, VIPs elevados à categoria de VIPs por motivos obscuros, todos a assinarem livros invariavelmente maus, com os seus sorrisos branqueados em todas as capas e os olhares de carneiro mal morto a seguirem-nos por todos os recantos da livraria, raios os partam. Alguma ficção mal amanhada e muita exposição de "histórias reais”: cancros vencidos, divórcios tumultuosos, filhos problemáticos, histórias de vida tão branqueadas quanto as dentaduras. As suas mediáticas imagens tomaram conta das livrarias e empurraram os grandes autores para as estantes dos desvãos. Sabem a história do Thomas Pynchon, o romancista? É um dos mistérios dos EUA.

Escreveu alguns dos melhores romances americanos dos últimos 50 anos, como o “V” ou “O Leilão do Lote 49”, mas sempre se recusou a dar entrevistas ou a aparecer em qualquer tipo de acto público. As únicas fotos que conhecemos dele são da juventude, quando ainda estava na Marinha dos EUA. Há uns anos, a CNN pôs um repórter atrás dele e conseguiu filmá-lo. Pynchon pediu que não emitissem as imagens, oferecendo em troca uma entrevista única ao canal. A CNN aceitou. Quando o jornalista lhe perguntou porque vivia uma vida de reclusão, Pynchon respondeu “acredito que recluso é uma palavra de código gerada pelos jornalistas., que significa ‘não gosta de falar com repórteres’”. Ao longo dos anos, muito se especulou sobre as actividades ocultas do autor e até correu o absurdo rumor de que ele seria o Unabomber (lembram-se, o das bombas por correio e dos manifestos publicados nos jornais de referência?). Que faria esse homem no seu dia-a-dia- para querer mantê-lo tão privado? A jornalista Nancy Sales, da New York Magazine, que o investigou durante meses, descobriu: “Ele faz compras nas lojas da vizinhança. Almoça com outros escritores. Passa fins-de-semana no campo com a sua família”. Um subversivo, portanto. Pynchon divertir-se-á muito, seguramente, com todas as especulações à sua volta. Há uns anos aceitou participar num episódio dos Simpsons, no qual a sua personagem aparecia com um saco de papel na cabeça e dava conselhos a Marge, que decidira escrever um romance. A obstinação de Pynchon em manter privado o que é privado só pode ser considerada suspeita à luz da psicose voyeurista-exibicionista dos nossos dias. Nunca se defendeu tanto o direito à privacidade, à protecção da imagem, à reserva da vida privada, e nunca se vendeu tão barata a sua exposição.