O blasfemo e o herege

Vamos lá ver se eu percebo isto…

No próximo dia 30, pelos vistos, alguns ou muitos irão reclamar o direito à blasfémia.

Um deles é, seguramente, Salman Rushdie, “homem sem fé, blasfemo aos olhos do Islão, reclama para si o «direito à blasfémia»”. Volta a entrar em cena com o lançamento do seu novo livro, autobiográfico, Joseph Anton.

O blasfemo diz blasfémias. A blasfémia, por seu turno, é “toda a palavra ou atitude injuriosa contra Deus, a Santíssima Trindade ou os Santos; atribuição de defeitos a Deus ou negação de qualquer dos Seus atributos”.

Algumas blasfémias para o Islão: representar o profeta, associar o profeta ao demónio, tornando-o seu emissário, “como acontece em Os Versículos Satânicos“, entre outras.

Ora o herege é “o cristão baptizado que, de modo pertinaz, nega ou põe em dúvida algumas das verdades da fé católica”.

Ora o meu dicionário de Sinónimos diz que blasfemo e herege são sinónimos… Estou a ficar confusa.

Na minha humilde opinião, o herege – teimoso, obstinado, tenaz – parece-me (parece-me) mais confiável. Digo isto pensando em Nicolau Copérnico, por exemplo.

Em 1543, o cónego polaco, depois de muitos cálculos, descobriu que o Sol não se mexe – pelo contrário, é a Terra que se move à volta do Sol, assim como os outros planetas. Claro, está bom de ver, a sua teoria heliocêntrica foi considerada antiocristã e herege, tanto por sacerdotes católicos como por protestantes.

E agora uma descoberta que eu fiz (fabulosa, esclarecedora), graças ao «meu amigo» Gombrich: “Apontavam uma passagem do Antigo Testamento em que Josué, o grande guerreiro, pediu a Deus que não deixasse cair a noite até ele destruir o inimigo. Em resposta às preces de Josué, lê-se o seguinte: «O Sol ficou parado e a Lua deteve-se, até o povo se ter vingado dos inimigos». Se a Bíblia dizia que o Sol ficou parado, argumentavam as pessoas, então é porque o Sol costuma estar em movimento. Assim, sugerir que o Sol não se mexia era ser herege e contradizia o que vinha na Bíblia.”

Se estiverem interessados e tiverem uma Bíblia por perto (não morde), consultem o livro de Josué, capítulo 10, versículos de 12 a 14!

Isto para dizer que o herege pode ter razão no que diz, muita razão, como veio a demonstrar Galileu…

Porém, a Igreja Católica demorou até ao séc. XIX para admitir que Josué/ Bíblia estavam errados.

Comments


  1. está tudo muito bem, Maria do Céu, se as palavras forem dirigidas a crentes.
    a mim, ateu, não dizem nada. nem a blasfémia, nem a heresia. não se consegue insultar o que não existe, não se pode renegar o que não se partilha.
    é por isso que tenho alguns cuidados. se disser, por exemplo, que ‘deus é uma merda’, estou a cometer dois erros: o primeiro, é contradizer o meu ateísmo – ateísmo não é “não acreditar em deus”, mas sim “não acreditar que deus exista”; o segundo, porque para mim deus não existe, é ainda mais grave. é que na realidade estou a insultar os crentes, cuja fé é de muito difícil discussão.
    no entanto, se o disser, não estarei a blasfemar… sob o meu ponto de vista.
    e é só…

    (passe o spam, mais info acerca do que penso, inclusivamente do assunto charlie hebdo e do filme que espoletou esta sangria desatada dos últimos dias em http://semiose.net/2012/09/26/blog/fe-move-montanhas-3982.html)

    • Amadeu says:

      Olá Carlos e Maria do Céu

      Eu ateu se dissesse “deus é uma merda” obviamente quereria dizer “a ideia de deus é uma merda”. Obviamente não implicaria que esse deus exista.

      Por outro lado só estaria a insultar “a ideia de deus”, ou o deus se ele existisse. Nunca os crentes nesse deus.
      Quando digo “Passos Coelho” é uma merda não estou a insultar quem votou nele nem quem ainda acredita nele (haverá alguém?).
      Quando alguém afirma “o Benfica é uma merda” eu benfiquista me confesso não me sinto insultado. Era o que faltava.

      Sou completamente contra a ideia de que as religiões e os deuses gozam dum privilégio especial de deverem ser inatacáveis. A religião não se discute ? Discute-se sim senhor.

      Mas uma coisa eu posso assegurar: A minha hostilidade por todas as religiões e por todos os deuses (ou ideias de deus) é feroz, mas fica pelas palavras. Não vou queimar ninguém na fogueira, não vou apredejar ninguém, não vou declarar guerra a ninguém, não vou fazer lavagens ao cérebro a criança nenhuma, não vou atirar aviões para cima de ninguém, não vou roubar a terra a ninguém.


  2. Blasfémia ou heresia, o certo é que, desde tempos imemoriais, o homem jamais aceitou bem as opiniões contrárias do seu semelhante. Já seria tempo de o fazer, penso eu. Até porque ter uma opinião não é ser detentor da razão.

    Mas, infelizmente, tudo o que é contrário à ordem vigente, tudo o que é contrário ao maioritariamente aceite, é considerado blasfémia, heresia, disparate ou ignorância. Enquanto o condicionamento da mente seguir a tradição e continuar a ser transmitido de pais para filhos, sem qualquer uso da razão por parte de uns e de outros, haverão sempre idiotas convencidos e ruidosos a perseguir sábios humildes e silenciosos.

    As maiorias não são poços de virtudes nem as minorias um foco de defeitos!

  3. António M. C. Carvalho says:

    Sabe bem ver que ainda há quem se interesse por outras coisas que não a “porca” da política…
    Em filosofias sou, como em todo o resto, um parvo ignorante mas interessado !
    Á falta de outro conceito em que me encaixe melhor, considero-me “agnóstico”. Admito que Deus possa existir, mas penso que é impossível “conhecê-lo” dadas as limitações dos seres huma nos. Só um exemplo. A maior parte das descoberas científicas têm sido possíveis graças à invenção de instrumentos que aumentaram a capacidade da nossa visão. Ora o Deus que os religiosos querem omnipotente e omnisciente “verá” tudo simultâneamente em todas as escalas: “vista desarmada”, “lupa”, microscópio, microscópio electrónico, telescópios… Dá para entender ? Eu não consigo !!!
    Daqui resulta que, para mim, não faz sentido questionar a existência de Deus. Terá mais sentido discutir se Deus interfere ou não na nossa vida humana e terrestre. Julgo que não, mas, aos 83 anos, começo a ter dúvidas…

    .

    • Amadeu says:

      Olá António
      Em toda e qualquer área do conhecimento humano há que provar que determinado fenómeno, lei ou descoberta existe.
      Para si deus está à parte. Não é necessario questionar a sua existência, não é necessário provar a sua existência. Existe ou não existe porque sim. É isso ?

      • António M. C. Carvalho says:

        É mais ou menos isso…
        Não interessará perder tempo com o problema da existência de Deus porque qualquer solução nunca poderá ser aceite universalmente. Por outras palavras, nunca será possível encontrar argumentos que sejam compreendidos pelos opositores. No meu modo de ver é mais facil constestar a intervenção divina, mesmo que isso signifique aceitar a existência de Deus.
        Se a maior fatia do universo é constituida por matéria negra…como é que nós podemos provar que Deus não é feito dessa matéria, para nós só existente porque temos fé na Ciência ?

        • Amadeu says:

          Se eu defender que os dinossauros se extinguiram por causa de uma infestação de chatos nos testículos dos machos, não é você nem ninguém quem tem de provar que isso é falso.
          Sou eu que tenho que provar que é verdadeiro. Certo ?


  4. Será Passos Coelho religioso ?? Em que “deus” acreditará ?? Só nele mesmo ajudado por tanta segurança para manter a sua integridade ?? Física ou filosófica ?? Seguro ?’ ai que me estampo a dizer disparates – “seguro” é o outro

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