Foto do Ano de 2013 (World Press Photo)

Out of Africa

Signal

© John Stanmeyer (Fontes: National GeographicWorld Press Photo)

Hoje dá na net: Piratas!

O outro lado da pirataria somali, ou de como convêm ver os acontecimentos de vários ângulos para se formar uma opinião sobre quem são realmente os piratas.

Realizado por Juan Falque. Legendado em português.

O negócio dos telemóveis na Somália

 A Somália vive há anos mergulhada no caos. Assolada por terríveis  secas, dilacerada pela guerra civil, dividida entre as forças que apoiam o governo interino e a União das Cortes Islâmicas, sem um governo central, sem uma força policial organizada que actue em todo o território, com uma esperança média de vida que não chega aos 50 anos, uma economia tão esfrangalhada que 3 milhões de xelim somalis só valem 100 dólares americanos, considerada pela ONG “Transparência Internacional” como o país com a governação mais corrupta do mundo, e com as águas ao largo do Corno de África pejadas de piratas, a Somália é um dos infernos na Terra.


Mas apesar de todos estes entraves, a Somália acolhe hoje um florescente negócio de telecomunicações, centrado em três grandes operadoras que expulsaram as pequenas empresas do negócio e fizeram crescer o mercado até ao impressionante número de 1.8 milhões de utilizadores de telemóvel. E uma delas está mesmo a tentar estender a sua rede aos portos costeiros usados pelos piratas que, pobre gente, têm estado até agora condenados a usar os caríssimos telefones por satélite.

 

As operadoras garantem que este negócio é fundamental num país em que ninguém sabe se os familiares e amigos ainda estão vivos. Não dizem quanto estão a ganhar mas lembram que, ainda que lucrativo, este negócio é arriscado já que muitos funcionários faltam por razões de segurança e, digo eu, os clientes são pobres e morrem muito.

Mas o negócio está a atrair investidores e já se pensa avançar para as redes 3G brevemente.

 

Li esta notícia tão optimista para os mercados aqui e fiquei a pensar nas assombrosas virtudes do capitalismo que permite que um país tenha condições para gerar um negócio de telecomunicações lucrativo mas não para assegurar comida, trabalho, educação, cuidados de saúde, segurança, justiça, liberdade de circulação, ou protecção da maternidade e da infância aos seus cidadãos. Em compensação, por 0,10 dólares americanos por minuto podem falar para qualquer cidade do país. Sempre, naturalmente, que do outro lado haja ainda alguém para atender.