O negócio dos telemóveis na Somália

 A Somália vive há anos mergulhada no caos. Assolada por terríveis  secas, dilacerada pela guerra civil, dividida entre as forças que apoiam o governo interino e a União das Cortes Islâmicas, sem um governo central, sem uma força policial organizada que actue em todo o território, com uma esperança média de vida que não chega aos 50 anos, uma economia tão esfrangalhada que 3 milhões de xelim somalis só valem 100 dólares americanos, considerada pela ONG “Transparência Internacional” como o país com a governação mais corrupta do mundo, e com as águas ao largo do Corno de África pejadas de piratas, a Somália é um dos infernos na Terra.


Mas apesar de todos estes entraves, a Somália acolhe hoje um florescente negócio de telecomunicações, centrado em três grandes operadoras que expulsaram as pequenas empresas do negócio e fizeram crescer o mercado até ao impressionante número de 1.8 milhões de utilizadores de telemóvel. E uma delas está mesmo a tentar estender a sua rede aos portos costeiros usados pelos piratas que, pobre gente, têm estado até agora condenados a usar os caríssimos telefones por satélite.

 

As operadoras garantem que este negócio é fundamental num país em que ninguém sabe se os familiares e amigos ainda estão vivos. Não dizem quanto estão a ganhar mas lembram que, ainda que lucrativo, este negócio é arriscado já que muitos funcionários faltam por razões de segurança e, digo eu, os clientes são pobres e morrem muito.

Mas o negócio está a atrair investidores e já se pensa avançar para as redes 3G brevemente.

 

Li esta notícia tão optimista para os mercados aqui e fiquei a pensar nas assombrosas virtudes do capitalismo que permite que um país tenha condições para gerar um negócio de telecomunicações lucrativo mas não para assegurar comida, trabalho, educação, cuidados de saúde, segurança, justiça, liberdade de circulação, ou protecção da maternidade e da infância aos seus cidadãos. Em compensação, por 0,10 dólares americanos por minuto podem falar para qualquer cidade do país. Sempre, naturalmente, que do outro lado haja ainda alguém para atender. 

Comments


  1. E, no entanto, foi o capitalismo que permitiu estes extraordinários avanços tecnológicos e, no caso, ter um telemóvel quando se está perdido no meio da miséria e da imensidão, deve ser um refúgio fantástico. Agora,como é que há dinheiro para o telemóvel e não há para a água, é que é uma incógnita sem resposta, pois quem vende ganharia o mesmo!


  2. As assombrosas “virtudes” do capitalismo, dizes bem, que o mesmo é dizer, as mais aberrantes expressões da criminalidade capitalista. O capitalismo, por definição, não pode ter lugar em qualquer sistema equilibrado e humano de governação. É por si só uma aberração.


  3. Sem capitalismo não há criação de riqueza, e sem riqueza não se pode distribuir, e sem distribuição só há miséria. O mal não está no capitalismo. O mal está na falta de humanismo. Que nenhum sistema social-económico- político dá, só por si.Como se vê nos países onde não há capitalismo. Vivem todos pior que nós!


  4. Amigo luis Moreira o que está errado é o pressuposto, ao admitir que sem capitalismo não há criação de riqueza. Nada de mais errado.


  5. Não há Adão, ainda não há. Agora estou inteiramente de acordo que é preciso controlar a ganância, e pelos vistos, não se aprendeu nada com a crise. O que a Carla, aponta é, realmente, vergonhoso mas as pessoas compram o que não precisam? Há uma maneira de combater o capitalismo selvagem, é não nos deixarmos explorar por ele.

  6. isac says:

    é de facto incrível. concordo com o que diz o Adão. Mas vou mais longe. O que acontece na Somália é o reflexo do próprio capitalismo. Um dia que uma multinacional veja uma oportunidade de negócio na distribuição de água ela dará lucro apesar de continuar a faltar o resto e assim por diante no resto dos “negócios”. É só o negócio e o lucro que interessam. E só interessam as pessoas porque são meramente uma base de lucro, mais nada. Isto é uma selvajaria e um verdadeiro inferno na Terra.


  7. Mas Isac e Adão, nisso estamos todos de acordo, mas então porque é que se vendem telefones na Somália ? Porque há gente que os compra! Porque há gente que precisa deles!Se as pessoas precisassem de água e isso fosse negócio, não se vendiam telemóveis, vendia-se água. Então porque há gente que tem dinheiro para os telem. e não tem para a água? Para quem vende é igual. Quem vende, só está a suprir uma necessidade que no caso da Somália, são as comunicações. Como se compreende isto?

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