A realidade tal como ela é

Rui Naldinho

Achar-se que o eleitor português na hora de decidir o seu voto olharia para as questões de carácter, do comportamento ético e moral dos políticos à teia de interesses familiares que se desenvolvem no seio do poder, como um dos factores determinantes na sua escolha, é um erro. Desenganem-se portanto os que pensaram que o acidente com o automóvel onde seguia o Eduardo Cabrita, ou a borla fiscal à EDP, entre outras minudências, iriam mudar o sentido de voto de um número significativo de eleitores. Isso até poderá ser válido em países com elevados rendimentos por habitante, ou com um nível de formação académica muito acima da média, como alguns países do Norte e Centro da Europa, mas nunca em países pobres e com assimetrias regionais e sociais tão grandes como o nosso. O importante é que os problemas mais básicos do cidadão sejam resolvidos em conformidade com as suas expectativas, já de si baixas. O salário, o transporte público utilizado todos os dias ou com frequência, os livros escolares para os filhos, as creches, os lares da terceira idade, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde.

Nada disto são luxos. Chama-se dignidade. O PS conseguiu esses mínimos, ainda que sob pressão de terceiros, e recolheu os louros para si. [Read more…]

Merkel: Austeridade, eu?

Que Portugal e Grécia estão quase reduzidos a cinzas, que a Espanha para lá caminha, que os indicadores europeus são piores que nunca, ninguém duvida.

Culpados, responsáveis, é que não há, afinal não é só em Portugal que a culpa morre solteira. Já faltou mais para ouvirmos a sra. Merkel dizer que foi sempre a favor da mutualização das dívidas e de maior igualdade de tratamento entre os países europeus. Para já, vem dizer que foi sempre contra a austeridade (as palavras podem não ser estas, mas o sentido é).

A Alemanha tem alguma culpa na situação actual? Não, nem pensar, a culpa é de Barroso, esse indígena do sul, do BCE, essa instituição que funciona à margem da vontade alemã, e de interesses que a Alemanha desconhece, a iniciar pelas próprias eleições alemãs.

É, aliás, por causa das eleições alemãs, que Merkel inflecte o discurso e procura deitar areia para os olhos dos próprios alemães, numa altura em que no país se começa a entender onde conduz a política suicida da dupla Merkel/Schäuble, com o PIB da zona euro a contrair 0,2% e com a locomotiva alemã a crescer apenas 0,1% no último trimestre. [Read more…]

Agradar a “gregos” e “troicanos”

Por tróica entende-se um conjunto de três pessoas que visam um ou vários fins políticos em acção concertada. Mas significa, também, em russo, trenó puxado por três cavalos.

Agrada-me mais a vertente do trenó, que sempre dá a esperança de ser algo que vai dar algum tipo de impulso ao nosso país. Mera ilusão, é certo, porque não é para isso que os “troicanos” estão cá. Eles estão cá porque vemo-nos “gregos” para pagar aos nossos credores. E, em boa parte, porque não queremos abdicar das nossa guerras partidárias estéreis, com cartas de desamor à mistura, ou de estatutos e sinecuras que delapidam o Estado e seus recursos, entre outros mimos que têm minado a nossa República.

Até aqui, tivemos a Líbia, o casamento real e agora até a morte de Bin Laden (dizem que está morto, dizem …) para entreter a rapaziada, mas parece que a lista da cura de emagrecimento para a nossa obesidade insolvente já está na calha.

Agradar a “gregos” e “troicanos” não vai ser nada fácil.